Entre as muitas histórias do cinema brasileiro dos anos 1970, está a dos jovens cabeludos e barbudos que se meteram numa Kombi e foram, com financiamento da Alemanha, para a Transamazônica. A ideia era fazer um filme, misto de documentário e drama, que mostrasse todas as mazelas por trás dessa obra-símbolo do chamado milagre econômico da ditadura militar. O caminho foi longo.
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Esta quinta-feira (24), 50 anos depois, e consagrado como um clássico, “Iracema — Uma transa amazônica”, longa de Jorge Bodanzky e Orlando Senna estrelado por Paulo César Pereio (1940-2024) e Edna de Cássia, volta aos cinemas com imagens e som mais nítidos que nunca, numa versão restaurada em 4K.
Bodanzky, aos 82 anos, lembra-se de que o trabalho começou com a busca pelos atores para viver o motorista de caminhão Tião Brasil Grande e Iracema, “uma menina muito novinha, que é prostituída e levada para estrada por esse chofer”:
— O chofer foi mais fácil, desde o início eu já tinha o Pereio em mente. Ele era gaúcho, como a maior parte dos motoristas de caminhão, e era um cara muito contestador, ator do “Roda viva” do Chico Buarque. Um cara que brigava com todo mundo, do jeito que eu precisava para um personagem forte daqueles. O grande problema foi chegar à Edna. Precisávamos de uma menina com jeito de caboclinha e sabia que não íamos conseguir isso no Sul, no Sudeste.
O diretor foi então para Belém do Pará com o parceiro Orlando Senna e ficou rodando uma semana pela cidade atrás da atriz.
— Não podíamos dizer o que era, porque não queríamos chamar a atenção dos militares. Temos que lembrar que, nos anos 1970, a Transamazônica era uma área fechada, de segurança nacional. Era o grande projeto da ditadura militar, que não admitia qualquer visão que não fosse a deles para essa região — recorda-se. — Por indicação do chofer que nos levava para os lugares, fomos a um auditório onde as menininhas estavam matando aula. Vi dois olhinhos pretos no fundo da sala e falei para o Orlando: “Achamos a Iracema!”
Edna, que então tinha 15 anos, não quis, de início, participar do filme. Mas depois se animou e aceitou fazer algumas fotos no Mercado Ver-o-Peso, onde foi flagrada pela mãe, que não gostou nada daquilo. Conversa vai, conversa vem, a mãe foi convencida a deixar a filha seguir com a equipe com o argumento de que Conceição, casada com Orlando Senna, iria tomar conta dela. Na pele da prostituta, Edna daria vida a Iracema em cenas fortes do filme, com nudez, xingamentos pesados e alguma violência física.
— Foi normal, porque sempre tive muita liberdade. Pela minha convivência, de menina pobre, aquilo tudo era coisa corriqueira. Então, para mim, não foi muito difícil de fazer esse filme, não — assegura Edna, que se formou como professora, não seguiu no cinema (apesar de, ultimamente, ter feito pontas em filmes) e hoje é dona de casa, com dois filhos adultos.
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Edna diz que Pereio “era um pouco individualista” em seu método de trabalho, geralmente improvisado, com ela e com os não atores.
— A gente se encontrava na hora das cenas e aí tudo acontecia. Iracema era o personagem, mas ela tinha um pouquinho da Edna também — conta a paraense, que marcou época vestindo um shortinho da Coca-Cola (imagem que foi parar no cartaz original do filme). —Meu irmão trabalhava lá nesse tempo e aí trouxe para casa umas bandeiras promocionais, que eu costurei como um shortinho e usava no dia a dia. Quando chegou o filme, a Conceição amou o short, disse que era peça fundamental para o filme. Há 50 anos eu faço propaganda da Coca-Cola de graça!
O refrigerante, as camisetas vestidas por Pereio, os adesivos no vidro da boleia do caminhão, a frase de para-choque (“Do destino ninguém foge”)… muitos elementos dão a “Iracema” um caráter deliciosamente pop. Mas nada disso supera a trilha sonora, com pérolas da música brega como “Você é doida demais” (Lindomar Castilho) e “Máquinas humanas” (Paulo Sérgio).
— O filme foi montado na Alemanha com uma montadora que não falava português. Eu tinha comprado uns 10, 12 LPs com o que tocava nos bares e nas boates. E só lá escolhi as músicas que entraram para o filme — conta Jorge Bodanzky, para quem a grande tática de filmagem em “Iracema” era “ser rápido”. — A gente ia para um lugar, fazia as coisas e imediatamente ia embora. As pessoas não percebiam muito bem o que estava acontecendo. Mas éramos constantemente seguidos, vigiados e ameaçados.
“Iracema” foi exibido pela TV em 1975, num fevereiro frio na Alemanha, e chamou a atenção do diretor e etnólogo francês Jean Rouch, um mestre do cinema documental-ficcional, que o indicou para Cannes. Enquanto isso, no Brasil…
— A embaixada brasileira mandou um memorando, assinado pelo adido militar, dizendo que “Iracema” não era brasileiro. Ele era em 16mm, em cores, não tinha laboratório que revelasse o filme no Brasil. E eu não tinha a nota fiscal do laboratório alemão que revelou ele, uma peça fundamental para se conseguir o certificado de produto brasileiro. Então, para não precisar dizer que o filme estava censurado, era mais fácil para a Censura dizer que não era brasileiro. Mas, naturalmente, ele estava censurado.
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A circulação inicial de “Iracema”, diz Bodanzky, aconteceu nos cineclubes.
— Só em 1980, depois de ter sido convidado para o Festival de Brasília e premiado lá foi que finalmente, na época da Embrafilme, conseguimos colocá-lo em cartaz — diz o diretor, para quem a passagem do tempo trouxe certa tristeza. — Tudo, absolutamente tudo que “Iracema” mostrou, o trabalho escravo, a ocupação irregular da terra, as queimadas, o gado, a prostituição… tudo isso continua hoje, e de uma forma exacerbada. O filme segue atual pela sua temática e também pela forma com que foi feito. O docudrama é, ainda hoje, uma forma inovadora de fazer cinema.