Após décadas de trabalho, criação de filhos e acúmulo de bens, muitas pessoas que chegam à fase da aposentadoria têm revisto suas prioridades e se perguntado: o que é realmente essencial para uma vida com sentido? O minimalismo financeiro, filosofia que incentiva escolhas mais conscientes e a redução de excessos, vem ganhando espaço entre diferentes gerações. A prática tem impactos positivos não apenas nas finanças, mas também no bem-estar emocional e na qualidade de vida.
— Quando entramos numa nova fase, como a aposentadoria, é essencial parar, respirar fundo e recalcular a rota — explica a economista e educadora financeira Janile Soares.
Segundo ela, essa transição exige ajustes práticos como a readequação do orçamento, mas também convida a uma mudança de olhar.
— Muitas pessoas perdem renda ao se aposentar, mas ganham a oportunidade de construir uma vida mais leve.
O primeiro passo para abraçar esse novo estilo de vida é refazer o orçamento partindo do essencial: moradia, alimentação, contas fixas, transporte, impostos e uma reserva de emergência. Em seguida, vem a etapa de cortar excessos, rever contratos e repensar hábitos.
—- Um orçamento enxuto permite tomar decisões com mais segurança. Saber que vai conseguir pagar suas contas e estar feliz com o que tem reduz drasticamente a ansiedade — afirma a economista.
Um orçamento enxuto permite tomar decisões com mais segurança. Saber que vai conseguir pagar suas contas e estar feliz com o que tem reduz drasticamente a ansiedade”
— Janile Soares, economista e educadora financeira
Com um planejamento bem feito, sobram recursos e tempo para aproveitar o que realmente faz sentido para cada um. Pode ser um passeio no parque, um almoço com amigos, uma viagem com calma, sem pressa e sem dívida.
Segundo Janile, essa reorganização financeira também resgata o senso de autonomia, fundamental durante o envelhecimento.
— Escolher para onde vai sua renda, sem depender de ninguém, é liberdade.
É o caso da consultora em organização e novos modelos de trabalho Gabriela Brasil, que teve o primeiro contato com o essencialismo em 2015, quando decidiu viver nos Estados Unidos, aos 28 anos.
— Vendi tudo que tinha e levei apenas o essencial. Isso me colocou frente a frente com as minhas prioridades — conta.
Vivendo com menos recursos, Gabriela passou a observar seus hábitos financeiros com mais atenção.
— Percebi que muito do que eu consumia vinha de expectativas externas. De querer agradar, de pertencer, de me encaixar num padrão. Foi um processo de autoconhecimento profundo — relata.
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Percebi que muito do que eu consumia vinha de expectativas externas. De querer agradar, de pertencer, de me encaixar num padrão. Foi um processo de autoconhecimento profundo”
— Gabriela Brasil, ex-produtora e escritora
Aos poucos, ela reconstruiu sua rotina com mais presença e intenção. Começou a cozinhar mais em casa, cuidar do próprio cabelo e aprendeu a escapar das compras por impulso.
— Tudo isso não só preservava meu dinheiro, como me aproximava de mim mesma — diz.
Para ela, que acaba de lançar seu segundo livro sobre o tema, o minimalismo não é sobre privação, mas sobre foco.
— É menos quantidade e mais qualidade. É olhar para o dinheiro como uma ferramenta, não como fim. Dinheiro é o que me possibilita viver as experiências que valorizo — afirma a ex-produtora, que voltou para o Brasil durante a pandemia e hoje guarda espaço na agenda para abraçar a avó, dormir melhor e fazer a própria unha.
Apesar de sua conta bancária estar bem mais robusta do que há dez anos, quando iniciou essa jornada, ela não considera o saldo financeiro como termômetro de sucesso.
E não adianta ter pressa. Hábitos são construídos aos poucos, com constância.
— Ter um momento semanal para olhar para o dinheiro é um ritual. Planejar a semana, anotar gastos, evitar atrasos. Esses pequenos hábitos ajudam a criar autonomia — reforça Janile.
Se engana, porém, quem pensa que minimalismo é sinônimo de radicalismo ou voto de pobreza.
— Não é viver com dois copos e uma cadeira. Cada pessoa constrói seu estilo de vida de acordo com suas prioridades e realidade. O importante é perceber que, em qualquer idade, viver com menos pode significar viver com mais: mais tempo, mais liberdade, mais saúde, mais presença — conclui Gabriela.