Quando missionários cristãos chegaram à terra dos paiter-suruí, na divisa entre Rondônia e Mato Grosso, na década de 1970, talvez não estivesse claro para eles que as câmeras fotográficas que doaram às aldeias locais se tornariam uma ferramenta de resistência cultural. Uma mostra de imagens que os indígenas dessa etnia produziram abre ao público amanhã no Instituto Moreira Salles (IMS) de São Paulo e conta essa história, que começou pouco depois de os primeiros brancos chegarem ali.
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— Quando aconteceu o contato e as câmeras vieram, o povo paiter-suruí tinha medo, porque a gente acreditava que as câmeras roubavam a nossa alma — conta a líder e ativista Txai Suruí, uma das curadoras da exibição. — As pessoas se assustavam com o barulho das câmeras e achavam que a imagem capturada estava tirando tempo de vida delas. Mas, com o passar do tempo, no meio das lutas que a gente foi travando, a câmera se transformou.
Passado o espanto inicial (algo normal para um povo que havia sido contatado por brancos pela primeira vez em 1969), aquela ferramenta mágica capaz de congelar imagens em pedaços de papel passou a exercer um apelo enorme. Integrantes da comunidade passaram a adquirir suas próprias câmeras e incorporaram a fotografia ao dia a dia.
Centenas de imagens que passaram a ser produzidas pelos próprios indígenas tinham uma temática diversa: seus ofícios, seus rituais festivos, a natureza local e, sobretudo, a família. São as fotos domésticas, de parentes e amigos, que dominam a frente histórica da mostra. Poucos anos atrás, porém, o tesouro histórico capaz ilustrar meio século de história de um dos povos indígenas mais influentes da luta socioambiental da Amazônia ainda era mal conhecido, até mesmo pelos próprios paiter-suruí.
A ideia de resgatar essas fotos que estavam espalhadas em dezenas de moradias pelos 250 mil hectares da Terra Indígena Sete de Setembro partiu do coletivo audiovisual Lakapoy, criado para fortalecer a cultura e a identidade do grupo. A proposta foi encampada definitivamente pelo IMS depois que a Zum, revista de fotografia do instituto, publicou as primeiras imagens do projeto e concedeu ao Lakapoy sua disputada bolsa de estudos.
O recurso permitiu ao grupo percorrer toda a comunidade de casa em casa perguntando aos moradores se poderiam ver e escanear as imagens antigas que tinham. Nem sempre era fácil, conta Ubiratan Suruí, o primeiro fotógrafo profissional de seu povo, que foi o coordenador da tarefa.
— Alguns não quiseram entregar fotografia para a gente até porque só tinham mesmo imagens muito pessoais, da própria família — conta.
Ubiratan afirma que o esforço de resgate não poderia ter ocorrido num momento melhor, porque muitas vezes o trabalho de legendar as imagens dependeu dos anciãos das aldeias. A geração dos paiter-suruí que está agora na faixa dos 60 e 70 anos é a última capaz de reconhecer as pessoas e acontecimentos retratados nas imagens mais velhas. Parte das imagens, porém, perdeu-se no tempo por razões culturais.
— Muitas vezes, quando uma pessoa falecia, as fotografias dela também era queimadas ou enterradas junto com ela, para que o espírito dela não ficasse no nosso meio — explica Ubiratan.
O resultado final compõe agora uma acervo que, além de imagens digitalizadas, reúne relatos pessoais dos donos das fotografias sobre aquilo que elas representam. Os curadores decidiram incluir mesmo aquelas que aparecem com bolor, rasgões, desbotamento, ou anotações feitas posteriormente, para evidenciar a materialidade que essas imagens têm nas aldeias. Uma imagem em destaque mostra um grupo em frente a uma igreja missionária na floresta, mas com um dos integrantes tendo sido apagado por arranhões intencionais. A pessoa em questão tinha sido proscrita da comunidade por ter cometido um crime, e os paiter-suruí decidiram por bem a expulsarem também de suas fotografias.
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Após oito meses de coletas e de produção de novas imagens, o Lakapoy e o IMS se viram com o desafio de transformar um acervo numa exibição.
— Nós procuramos fazer isso evitando clichês de exposição, como iconizar certas obras — explica Thyago Nogueira, editor-chefe da Zum e cocurador da mostra. — Quando perguntei para eles o que eles queriam selecionar, disseram “vamos mostrar o acervo inteiro”, porque para eles o acervo inteiro é importante. E aí começamos a discutir como fazer para colocar 900 imagens em uma sala.
O resultado final é um espaço em que vistante é inundado de fotografias dispostas em um papel adesivado especial sobre as paredes do 6º andar do prédio do IMS na Avenida Paulista, do chão até o teto. Algumas imagens recentes, sobretudo as fotografias produzidas há menos tempo por Ubiratan e outros integrantes do Lakapoy, são dispostas em painéis luminosos. Alguns vídeos compõem, por fim, o núcleo interativo da exibição.
O fotógrafo conta que adotou seu ofício por uma via inesperada, trabalhando na luta socioambiental, produzindo imagens para mapear e vigiar o território paiter-suruí, constantemente invadido por grileiros e madeireiros. Só depois é que a importância cultural das imagens começou a lhe motivar, pela oportunidade de deixar os paiter-suruí contarem sua própria história através delas.
— Quando a gente recebe fotógrafos que são de fora, muitas vezes eles só querem tirar fotografias nossas com cocar, com pintura, em estereótipos do povo indígena, mas a gente quer mostrar quem nós somos de verdade — diz. — Se eu vou fotografar as crianças jogando futebol, não me importa se um deles está com uma camisa do Real Madrid ou do Barcelona.
‘Nossa própria família’
Txai diz que espera da exposição uma “revolução” na maneira com que a arte indígena se comunica.
— Quando nós, indígenas, pensamos em um museu, a gente pensa naquele olhar “exotizante”. É aquele olhar que está buscando retratar o conceito que a própria pessoa já tem do que ela acha que é o povo indígena — afirma. — Aí, quem entra e vê aquelas fotos bonitas sai sem nem saber quem são as pessoas retratadas ali. Os museus não têm essa preocupação, mas aqui nessa exposição a gente está falando da nossa própria família, da nossa própria história.
Algumas das imagens incluídas na mostra, conta Txai, não foram tirada por indígenas, como algumas feitas por antropólogos paulistas que ficaram em acervos universitários. Mesmo essas, porém, passaram por curadoria para serem contextualizadas. Quando a exposição se encerrar em São Paulo, em 2 de novembro, o IMS se comprometeu a levá-la para aldeias paiter-suruí, um desafio inédito para instituição.