João Rabello toca violão com o pai, Paulinho da Viola, desde 2004. Nos projetos solo, porém, se aproximava do legado de seu tio, Raphael Rabello (1962-1995), irmão de sua mãe, Lila. Esse quadro mudou. Em vez de um repertório instrumental, como são os de seus dois primeiros álbuns, ele está lançando um conjunto de canções. “Coração saudade” tem seis faixas autorais e duas releituras de sambas de Paulinho. João canta em todas.
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— Lancei dois discos, tentei entrar no circuito de música instrumental, mas as coisas não aconteciam como eu imaginava que fossem acontecer — explica ele, de 43 anos. — É preciso haver um aspecto prazeroso no que você faz, porque requer muito esforço. Encontrei isso nas canções.
Os CDs são de 2006 (“Roendo as unhas”) e 2011 (“Uma pausa de mil compassos”). Embora os títulos façam alusões à obra do pai, eram trabalhos de solista, como foi, em boa parte, a produção de Raphael, um dos mais importantes violonistas brasileiros.
A mudança começou em 2018, segundo João. Ele ficou 40 dias se preparando para uma apresentação no projeto Sesc Instrumental, em São Paulo.
— Como eu fazia shows de forma intermitente, era como se cada um fosse uma estreia — diz. — A falta de continuidade desgastou minha relação com essa dinâmica. Eu não via um caminho para onde ir. Estava com a sensação de trabalhar muito para aquilo e não encontrar um retorno. É muito difícil trabalhar numa coisa e não encontrar a resposta.
Naquela época, talvez intuindo o que estava por acontecer, Paulinho deu uma melodia para ele letrar. A primeira versão não agradou muito. A segunda o pai guardou, indicando aprovação. Está inédita.
— Meu pai é assim: às vezes fica dez anos para concluir uma música. Agora fez uma letra pra uma melodia que o Marcos Valle mandou há dez anos — informa.
Em 2020, ele e sua irmã, a cantora Bia Rabello, prepararam um show de interpretações de músicas do pai. Mal aconteceu a estreia, veio a pandemia e tudo parou. Mas João, que cantava em dois momentos, já sentiu uma recepção diferente.
Quando a situação melhorou um pouco, ele, Bia e Paulinho montaram o espetáculo “Em família”, que percorreu algumas cidades.
— Era um show dele, ela cantava, e eu cantava uma composição minha, “Como uma flor”. Deu uma revigorada na minha relação com a música. Passei a me dedicar totalmente a isso — conta.
Fez mais de 20 canções durante a pandemia. Foi cortando para selecionar as que poderiam entrar num álbum.
— Falei para o meu pai: “Poxa, só encontrei seis músicas para pôr no disco.” Ele falou: “Você encontrou demais” — recorda. — Juntei essas seis porque formam um conjunto. Eu queria que houvesse alguma relação entre elas.
O conceito tem a ver com a obra de Paulinho. Para João, a primeira fase da trajetória do pai começa em 1966, com o disco “Samba na madrugada” (ao lado de Elton Medeiros), e vai até 1975, ano do disco que tem “Argumento”.
— Há uma diferença grande. A música começa com o cavaquinho puxando o ritmo, o que ele não tinha feito antes — assinala. — O período anterior teve uma influência da bossa nova. No “Samba na madrugada”, ele ainda está cantando como os cantores da Era do Rádio. Ainda tem o vibrato, a empostação. Depois não tem mais. Ele assume completamente a influência do João Gilberto. Quando você conversa, ele fala sobre isso. É samba, não é bossa nova. Mas não é aquele samba próximo de um partido-alto ou do que veio a ser o pagode.
No período 1966-1975, Paulinho fez alguns de seus sucessos: “Coisas do mundo, minha nega”, “Dança da solidão”, “Para ver as meninas”, “Para um amor no Recife”. Mesmo em “Foi um rio que passou em minha vida”, ressalta João, a gravação original foi centrada no violão, não no cavaquinho. Para seu álbum, ele escolheu duas dessa fase do pai: “Catorze anos” e “Encontro”.
Outros compositores produziram nesse estilo, na avaliação de João. São os casos de Elton Medeiros, Zé Keti, Cartola e Sidney Miller. Ele acredita que artistas da geração do pai também seguiam essa vereda, mas mudaram de rumo, assim como Paulinho:
— Caetano, Djavan, todo mundo mudou e ninguém voltou. Não era só meu pai, era um clima. Mas esse samba não recebeu um rótulo. Se eu falar samba, vão pensar em chapéu de palha, Lapa, pandeiro, surdo. E não é isso. É um samba mais cadenciado, com diferenças harmônicas. Gostaria que tivessem criado um nome, mas não fizeram.
Assim sendo, João diz não saber a que subgênero do samba as canções de “Coração saudade” pertencem. Mas são músicas introspectivas, em tom menor, com instrumentação intimista, decidida por ele e por Matias Correa: o seu violão, tamborim, caixa de fósforo, baixo acústico, alguma bateria. É claro que o pai, influência tão forte, escutou.
— Ele elogiou muito tempo depois. E não faz elogio gratuito — diz. — Achou primeiro que tinha muitas ideias em tons menores. Depois, concordou: “Entendi o que você queria dizer.”
Acostumado a tocar para milhares de pessoas nos shows do pai, João sabe que a realidade de seu trabalho solo é outra. Segundo ele, “é como tentar acender a fogueira com um graveto”.
— A gente vive um período um pouco hostil à inovação — afirma. — A lógica do algoritmo é contrária aos artistas. Ele usa dados do que aconteceu para prever o que vai acontecer. O artista é o contrário: olha para o que aconteceu e tenta descobrir o que não aconteceu ainda.