Um motorista de ônibus da linha 472 (Triagem x Leme), que prefere não ter a identidade revelada, foi vítima de uma tentativa de assalto dentro do coletivo. O criminoso o atacou com um mata-leão e o feriu com o gargalo de uma garrafa quebrada para tentar roubá-lo, em maio deste ano. Refém da onda de roubos em coletivos que circulam pela Avenida Brasil, uma das principais vias do Rio, ele dá rosto ao Mapa do Crime — levantamento inédito que mostra os quatro principais tipos de roubo na capital: de veículos, de celulares, a pedestres e em ônibus.
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O motorista conta que um homem entrou no ônibus usando um uniforme de trabalho e pediu para seguir viagem sem passar pela roleta, justificando que sua esposa o aguardava no ponto final para pagar a passagem. Ao parar em um sinal da Rua Santa Luzia, no Centro, o ladrão deu um mata-leão no motorista e anunciou o assalto. A vítima reagiu e teve o pescoço e uma mão cortados. Após entrarem em luta corporal, o assaltante fugiu sem conseguir levar os pertences do profissional.
A linha que o motorista dirigia também passava por um dos bairros cortados pela Avenida Brasil, o Caju, na Zona Norte, que registrou um aumento de 76,9% em roubos em transportes públicos entre 2023 e o ano passado, saindo de 91 para 161 registros.
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Só esses bairros que passam pela via concentram um terço dos roubos a coletivos registrados no Rio em 2024: foram 1.503 dos 4.405 casos totais na cidade — um salto de 42,6% em relação ao ano anterior, quando houve 1.054 registros. Os dados inéditos formam o Mapa do Crime, uma ferramenta interativa do GLOBO feita para monitorar, por bairros, os roubos de celular, de veículos, a transeuntes e em coletivo, os que afetam mais o cotidiano da população.
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Mas o motorista conta que esse não foi o único episódio de violência que enfrentou. Em dezembro do ano passado, ele dirigia o ônibus por São Cristóvão, um dos bairros com mais assaltos a coletivos do Rio. Um homem aproveitou que o coletivo estava parado no sinal e forçou a porta traseira para entrar. Subiu e esperou alguns minutos até que a porta foi aberta para o desembarque. Ele entrou, roubou o celular de uma passageira e fugiu.
Os coletivos não são alvos dos criminosos apenas para roubar os passageiros. Grupos de adolescentes cometem crimes ao longo do trajeto do ônibus. Eles forçam a porta traseira e entram sem pagar. Depois, acionam um botão de emergência que abre essa porta e que, enquanto acionado, não deixa o veículo partir. Eles então descem e aproveitam o engarrafamento para roubar motoristas e pedestres. Ao voltar, ameaçam o motorista para que ele saia do local.
Esse mesmo motorista, que foi vítima de um assalto, reconheceu um grupo desses criminosos que tentavam embarcar no Centro do Rio em janeiro deste ano, em direção à Zona Sul. Ele conseguiu desviar do grupo e seguir a viagem. Na volta, no entanto, encontrou parte dele na pista contrária. Os criminosos, em retaliação, jogaram pedras no ônibus, que teve vidros quebrados. Por causa disso, a empresa o trocou de linha e horário.
— Já pensou um grupo de 10 ou 12 chegar na roleta e falar “paizão, daqui por diante para em todo sinal para gente fazer nosso corre. Não arruma problema com a gente”?. Uma vez fizeram isso, e motoristas conseguiram chamar a polícia, que acabou não encontrando nada. Por quê? Depois descobrimos que eles levaram chaves de fenda para forçar a lataria e esconder os celulares. Só percebi quando eles começaram a mexer nas laterais e em cima do ônibus — conta ele.
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Mesmo com números absolutos menores, bairros da Zona Norte, como Ramos, Maracanã e Pavuna se destacam pelo crescimento explosivo dos casos. Em Ramos, os registros saltaram de 14 para 64 (alta de 357,1%). No Maracanã, o aumento foi de 248,6%, passando de 35 para 122. Já a Pavuna, que lidera o ranking em números totais de roubo em coletivos, teve crescimento de 243,4%: de 122 para 419 casos em apenas um ano.
Veja como os números aumentaram entre os bairros cortados pela Avenida Brasil, de 2023 a 2024:
- São Cristóvão: de 91 para 135 (48,4%)
- Caju: de 91 para 161 (76,9%)
- Benfica: de 16 para 47 (193,8%)
- Manguinhos: de 12 para 37 (208,3%)
- Maré: de 46 para 109 (137,0%)
- Bonsucesso: de 128 para 258 (101,6%)
- Ramos: de 14 para 64 (357,1%)
- Olaria: de 4 para 6 (50%)
- Penha: de 24 para 30 (25,0%)
- Penha Circular: de 24 para 37 (54,2%)
- Brás de Pina: de 27 para 47 (74,1%)
- Cordovil: de 6 para 9 (50%)
- Parada de Lucas: de 8 para 18 (125%)
- Vigário Geral: de 4 para 13 (225%)
- Irajá: de 53 para 108 (103,8%)
- Vila Militar: de 1 para 9 (800%)
- Campo Grande: de 65 para 76 (16,9%)
- Santa Cruz: de 26 para 49 (88,5%)
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