A proibição do celular nas escolas foi essencial. Os pátios estão barulhentos de novo e os professores se livraram da concorrência desleal. Mas, depois da aula, os alunos recebem seus aparelhos de volta e tudo permanece igual. Não aprenderam sobre vício, sobre civilidade no mundo digital, sobre como identificar fake news, como podem ser vítimas dos algoritmos ou todas as formas legais de usar as telas para desenvolver conhecimento.
Na entrevista a seguir, a quinta da série “Adolescência” do GLOBO que trará conversas com cinco especialistas ao longo da semana, Fabio Campos, pesquisador no Laboratório de Aprendizagens Transformadoras com Tecnologia (TLTL) da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, alerta que conseguimos proibir, mas ainda não estamos conseguindo educar.
A primeira entrevista da série “Adolescência” foi com a juíza Vanessa Cavalieri e pode ser lida aqui. A segunda, com o pediatra Daniel Becker; está disponível aqui, a terceira, com Mariana Uchoa Cinelli, cofundadora do Movimento Desconecta também pode ser acessada. A quarta entrevista foi com o psiquiatra Guilherme Polanczyk.
Campos defende que, aliada a limites, exista uma educação midiática, que prepare os jovens para uma parte fundamental da vida de todos nós, as telas. Veja abaixo os principais pontos da entrevista:
Como educador, como vê a proibição do celular nas escolas?
Como educador e como pai, eu concordo com uma lei que proíba o uso de tela nas escolas. Acho que precisamos dar uma freada. Trabalho com professores do Rio, e estava realmente impossível ser professor, dar aula, acreditar em aprendizagem com o telefone liberado. Não existe aula com a presença de um celular porque há um déficit de atenção. Já havia um problema de autoridade, mas achar que o professor consegue ser interessante o bastante para que o adolescente simplesmente guarde o celular e preste atenção, é querer demais. Tenho sentido os educadores realmente muito aliviados por não terem que fazer o papel de proibidores, tem um monte de efeitos muito positivos sendo relatados. Os alunos estão brincando. Estão falando. O pátio está mais barulhento. Conversava com uma coordenadora de escola sobre como está a proibição na prática, e ela disse que os alunos estão limitados mesmo, de fato. Mas alguns levam o celular na mochila, ligados, mas no silencioso. E que, vira e mexe, botam debaixo da blusa, como se fosse uma droga, e se trancam no banheiro para usar o celular. E um dos usos é apostar em bet. Nessa escola específica, os alunos estão viciados em aposta. Então tem dois vícios aí, o da tela, o do celular… Um viabiliza o outro.
É muito complicado esperar autocontrole dos adolescentes?
É vício. Estamos multitelas o tempo inteiro, você vai ver Netflix, também olha o telefone. Mas vejo três diferenças para um adolescente. Uma, ele está aprendendo. É um momento que deveríamos proteger, a aprendizagem, a escola. Dois, o cérebro dele é muito mais plástico do que o nosso, está no momento de desenvolvimento cerebral que não estamos. O cérebro dele não está pronto. Três, ele está sob a nossa tutela, sobretudo quando estamos falando de educação pública. O problema é que está se criando pânico moral sobre tela que eu acho que também merece atenção. A tela não é só a nossa inimiga. Não traz só coisas ruins.
Falando de educação, que é a minha área, a ausência das telas na sala de aula também tem seus efeitos negativos, porque existem coisas que o celular pode fazer pela educação. Vínhamos caminhando a passos muito lentos no Brasil para inserir tecnologia dentro da escola. E, de repente, agora a visão é que as telas, as tecnologias em geral, fazem mal. Autores que ficaram muito populares, como Jonathan Haidt [psicólogo e autor do livro “A Geração Ansiosa}, têm fundamento, mas geram pânico também. É como se a infância estivesse perdida se a gente não for para a rua jogar bola de gude e soltar pipa. Meu Deus, nem eu tive infância então! E eu não tinha celular. Acho que essa moda de falar do perigo das telas também é nociva porque gera pânico. Me preocupa o excesso de tela, mas também me preocupa o medo de algo que é parte da vida, parte do mundo, uma linguagem que precisa ser aprendida.
Enquanto isso, em algumas regiões ou comunidades, a luta é para que os jovens tenham acesso a celulares e a todo esse universo.
Isso também é um problema. Hoje, tela é participação social, é fundamental. E precisamos considerar isso. Tela é porta para empregabilidade, para repertório, para referência. Eu entendo, na sala de aula, na escola, realmente não é o momento. E concordo com as leis, com a proibição. Mas não concordo com o exagero. Porque você tira de outros jovens que não têm todo o acesso a chances fundamentais de participação social.
A escola e a sociedade como um todo precisam de educação digital?
Ao sair da escola, a gente entrega de volta o celular para o aluno e espera que, simplesmente, a partir daquele ponto, ele saiba usar a tela. Esperamos que esteja educado e vá fazer um uso parcimonioso, virtuoso. A escola tem que proibir, mas está se ausentando da sua função social de educação midiática. Assim como a imprensa, as famílias, toda a sociedade. Não estamos falando apenas de usar mais ou menos tempo. Estamos falando sobre como você se relaciona com os meios digitais de forma geral. Não vi o MEC, o Conselho Nacional de Educação, assumindo essa responsabilidade. Por enquanto, foi proibido e acabou. O que exime educadores das suas responsabilidades. Mas se estamos falando de educar para a vida, quem é que vai ensinar o aluno a usar o celular? Quem é que vai dizer que o celular é fundamental na vida dele? Que não vai voltar atrás? Que tela, qual seja, tablet, celular ou televisão, farão parte da vida dele, e não há só o tigrinho, tem o jornal O GLOBO, tem qualquer outra fonte de informação que talvez ele desconheça.
O que precisaria ser ensinado?
Há três grandes vertentes. Uma tem a ver com saúde e interação com outros seres humanos. É o uso de tela de forma geral e a interação dentro dos mundos digitais. Isso tem a ver com saúde mental, convivência e civismo digital. Como você é alguém dentro das redes? Inclusive com aspectos legais, que é uma parte gigantesca. Quem assistiu “Adolescência” viu como ambientes digitais podem ser tóxicos. Como você age, como se protege, cyberbullying. Isso deve ser ensinado, é um aprendizado, não é óbvio. Para aquele menino de “Adolescência”, ninguém nunca ensinou. Mas existe um outro campo que é justamente sobre fato ou fake, por exemplo. Discernir o que é fato, saber a fonte de uma informação. Essa habilidade digital da informação também é fundamental e deveria fazer parte do currículo. E tem um terceiro campo que é o seu repertório digital. Você precisa se virar em qualquer atividade, saber que tem um aplicativo que faz aquilo, que a inteligência artificial, por exemplo, pode te ajudar, mas ela tem limite, saber o que a rede social faz, o que é um algoritmo, etc. Esse terceiro campo é o funcionamento das coisas. É a abertura da caixa preta. Então, eu diria que convivência e saúde mental é uma coisa, ter e entender informação é outra coisa, e saber como as coisas funcionam é um terceiro pilar.
Como driblar esse gap geracional, de um universo que não é natural para uma boa parcela dos pais enquanto os filhos nasceram num mundo super tecnológico?
O gap é grande mesmo, mas eu não acho que os nossos filhos nasceram nesse mundo, eles também estão aprendendo. A grande diferença dos nossos filhos para a gente é que eles estão curiosos e estão absorvendo, e a gente está entendendo que isso não é nosso. O tempo inteiro eu escuto de professores frases como “isso não é meu”, “eu sou velho”, mas as mudanças tecnológicas são tão aceleradas que a única forma de se aproximar é com uma mudança de atitude, e essa atitude é o olhar ingênuo e curioso da criança e do adolescente. Se nós, adultos, não tivermos esse olhar curioso e entendermos que daqui a dois anos vai ter outra inteligência artificial, ou que um novo TikTok vai surgir, vamos ficar para trás, perder a capacidade de dialogar com outras gerações e isso é muito ruim. Então é ser curioso e não se definir como “de outra geração”, “ultrapassado”. Os adultos têm que correr atrás.
O que os pais podem fazer em termos de segurança?
A primeira coisa é atrasar dar o celular. Entregar um celular para criança de menos de dez, 12 anos não tem nenhuma justificativa. A segunda coisa é rede social. Hoje está se falando de rede social aos 16. Acho que aos 14 anos é possível, é viável, se for uma conta controlada e se os pais tiverem total acesso. Agora, isso vai depender do pai ter interesse e tempo para fazer isso. Adolescente trancado no quarto com o seu próprio celular e o pai nunca vê o que está acontecendo, é temerário. Tem a questão da privacidade? Tem, mas entre a privacidade da criança e a sua segurança, eu optaria pela segurança. Vai dormir? O celular fica no quarto dos pais. Senha? Tem que ter. Você quer um celular? A regra é que eu vou olhar. Vai querer mandar uma foto para alguém? Vou ter que ver o que mandou. Se não tiver essas regras estabelecidas, não funciona. Tem os controles parentais. E uma última coisa que escolas e famílias têm muita dificuldade em fazer, é simplesmente conversar. Não vejo hoje nem escolas nem famílias trazendo esses assuntos dolorosos para dentro de casa ou para dentro das instituições. Por que tiramos o celular? Por que você não pode ter rede social? O que acontece quando fica jogando bets? Por que na sala de aula não pode? Eu acho que tem família que ainda acredita que quem tem que fazer isso é a escola e escola que ainda acredita que quem tem que fazer é a família. E ninguém está fazendo.
A tecnologia também pode ser interessante para a educação, não?
Uma coisa que tem que acontecer é pensar o que a tela pode proporcionar à educação de crianças. Qual o ganho para a aprendizagem? Hoje só falamos do que se perde. Mas existe uma área acadêmica de pesquisa só dedicada a isso, uma área inteira de conhecimento que é de mobile learning. E o meu medo é que estejamos fechando a porta para isso. Como é que essa maquineta maravilhosa te ajuda a aprender? Tem coisas que só se pode fazer, ou se faz melhor, com o celular. Por exemplo, se eu for aprender sobre polígonos no pátio da escola, cada criança com um dispositivo móvel, mudando aresta, mudando ângulo, criando figuras. Tem trocentos exemplos que eu posso dar, que só são possíveis em celular. Experiências de colaboração, de democracia, de aprendizagem de ensino. É interativo, criativo, visual, lógico. E você só faria com o celular. Mas garanto que ninguém vai fazer uso pedagógico do celular agora. Acabou, fechou a porta. Só que temos que olhar para a educação para não jogar fora duas décadas de pesquisa acadêmica.
Como educar para um mundo digital
- Convivência e saúde mental: como é a interação com outros seres humanos nos mundos digitais. Como você é dentro das redes? Quais os aspectos legais? Como você deve agir, como se proteger, que é cyberbullying.
- Ter e entender informação: explicar o que é fato ou fake, aprender a discernir e conhecer a fonte de uma informação.
- Como as coisas funcionam: Aprender para que serve cada aplicativo, os benefícios e limites da inteligência artificial, como funcionam as redes sociais, o que é um algoritmo.