De Caruaru (PE), onde mora o engenheiro Washington Bernardino da Silva, ao Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), onde foi operado para colocação de prótese no joelho esquerdo, contam-se mais de 2 mil quilômetros. Três meses depois da cirurgia, em 2023, Bernardino ainda precisou vir ao centro de referência em intervenções ortopédicas de alta complexidade, no Rio, para uma consulta de revisão. Depois disso, a telemedicina entrou em cena para acompanhamento de sua recuperação:
— É muito mais cômodo, prático e econômico. Fiz a consulta on-line, no meu ambiente de trabalho — conta Bernardino, da cidade onde mora. — Na primeira vez, eu tive que sair de Caruaru para Recife, de lá para São Paulo e então para o Rio. As passagens foram custeadas pelo governo de Pernambuco, mas a hospedagem e os transportes nas cidades eu paguei. Sou hemofílico tipo A e tive artrose precoce, por isso a prótese. Agora, tenho mais mobilidade e qualidade de vida. Consigo carregar meu filho, dançar, aproveitar.
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O projeto do Into tem como objetivo justamente evitar os longos deslocamentos de pacientes que moram longe ou têm dificuldade de locomoção. Entre 2024 e 2025, foram 70 teleconsultas, a maior parte de residentes no Norte do país.
— A primeira avaliação pós-operatória é indispensável, porque tem a cicatrização, a troca de curativo, a retirada de pontos. Mas todo o restante, se o paciente estiver evoluindo bem, pode ser feito à distância, de forma segura, precisa e eficaz — diz o coordenador de ensino, pesquisa e inovação do Into, o ortopedista José Leonardo Rocha. — Isso reduz os custos para o sistema público e o paciente. Há casos de pessoas de regiões isoladas na Região Norte que têm que andar horas de barco para chegar a uma cidade maior. O que é um desafio, especialmente na fase pós-operatória.
Para além da telemedicina, que é regulamentada por legislação no Brasil desde 2022, ferramentas tecnológicas trazem cada vez mais ganhos a diferentes aspectos do cuidado, para os pacientes, os médicos e operadores da saúde. A implementação de sistemas aprimorados de administração hospitalar e a produção e análise de dados clínicos são dois dos campos que vêm se beneficiando da inovação aplicada à medicina.
O SUS começou a usar no ano passado o prontuário eletrônico unificado, e tem como meta tornar acessível o histórico de saúde dos pacientes a profissionais que estiverem em qualquer ponto do país, e não apenas nas unidades de atendimento. O objetivo é ajudar na tomada de decisões médicas, evitar a perda de informações e o retrabalho. A cronologia de exames, eventuais procedimentos e remédios indicados. Tudo pode ser consultado.
O acesso é viabilizado pela Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), alimentada pelas esferas municipal, estadual, federal e também por entidades privadas. De acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 55 mil estabelecimentos de saúde já visualizam os dados, e mais de 1,4 milhão de profissionais estão aptos a acessá-los.
— O prontuário eletrônico unificado é parte de uma iniciativa mais ampla de transformação digital do SUS, criada em 2023 para ampliar o acesso aos serviços e garantir a continuidade e a qualidade do cuidado. Com a integração, profissionais de saúde conseguem acessar o histórico durante o atendimento — explica Ana Estela Haddad, secretária de Informação e Saúde Digital do ministério.
Segundo Haddad, o atendimento fica mais humanizado e eficiente, especialmente para pacientes que vivem em áreas periféricas, com o prontuário eletrônico. Se uma gestante fez as consultas de pré-natal em Teresina, mas vai dar à luz em São Luís do Maranhão, ambas com prontuários eletrônicos, será possível acessar seus registros.
Além disso, na palma da mão, o cidadão tem o Meu SUS Digital, aplicativo em que se acessam vacinas tomadas e prescrições, entre outras informações. Os downloads já passam de 58,8 milhões. O app é a evolução do Conecte SUS, popularizado durante a epidemia da Covid-19, pela necessidade do comprovante de vacinação contra a doença.
O acesso de pacientes a documentos relativos a atendimentos também é facilitado pela tecnologia. Desde maio, quem é atendido nas unidades da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) pode solicitar e receber, gratuitamente e em formato digital, documentos médicos como o prontuário e o sumário da alta, livrando-se de ter de ir até a unidade de referência. Os pedidos são feitos pelo aplicativo MGApp. No primeiro mês, foram recebidas 369 solicitações.
O serviço é útil em casos como o da bebê Aurora Maria Oliveira Mesquita, do interior do Acre, tratada no Hospital João XXIII, em Belo Horizonte. Mês passado, com três dias de vida, Aurora sofreu queimaduras de segundo e terceiro graus no banho dado na maternidade. A recém-nascida foi levada para o hospital mineiro, referência nacional de tratamento de queimados e doenças infantis raras.
— Atendemos pacientes do país inteiro e o sistema encurta muito as distâncias. Os documentos podem ser solicitados de qualquer localidade, e o prazo para recebimento por e-mail é de 20 a 30 dias. Ajudam para requerer benefícios do INSS ou em ações judiciais. O envio é seguro, com autenticação gov.br, e sem custo, mesmo quando o paciente está em outra cidade — diz Thamyres Barros, encarregada do tratamento de dados pessoais da Fhemig.
A aplicação de novas ferramentas digitais depende também do uso de dados integrados e organizados pelos recursos de inteligência artificial. Mirando em um ganho de eficiência e na melhoria do atendimento prestado pelo SUS, o Ministério da Saúde desenvolve, no momento, o prontuário falado, numa frente. Em outra, elabora projetos em andamento aplicando a IA para a compra centralizada de remédios e na identificação de possíveis fraudes em sistemas de faturamento de serviços.
Entusiasta do emprego dos novos recursos na prática médica, o cirurgião Ben-Hur Ferraz Neto, chefe do programa de transplante de fígado do Hospital Albert Einstein, considera que a produção de dados torna a medicina muito mais segura, reduzindo erros e custos.
— No começo, a comunidade médica e os pacientes achavam que a tecnologia acabaria com a humanização. E a gente percebeu que é o contrário: ter o histórico do paciente, o passado médico da família, saber o começo e o meio da história, tudo isso humaniza o sistema, fica muito mais personalizado. A tecnologia vem transformando profundamente a saúde.
Ben-Hur conta que as consultas estão “mais resolutivas” com o prontuário digital, porque o médico tem acesso às informações estando presencial ou remotamente. Os algoritmos de inteligência artificial conseguem diagnosticar precocemente doenças crônicas e prevenir complicações.
— Insiro exames rotineiros e consigo ver qual o risco de aquele paciente estar com um problema sério no fígado, que pode ser silencioso — diz.