Quem ligou a televisão ou abriu o computador durante as Olimpíadas de Londres, em 2012, certamente teve a atenção captada pelo até então curioso nome de Esquiva Falcão. Há quase 13 anos, ele e o irmão, Yamaguchi, mostraram que o boxe brasileiro poderia ser protagonista no cenário olímpico. É com essa bagagem que Esquiva, primeiro finalista olímpico brasileiro da modalidade, aposta num novo caminho: será professor.
O boxeador, hoje com 35 anos, inaugura neste sábado, ao lado da esposa Suelen, uma academia de boxe na cidade de Vila Velha, no Espírito Santo, onde vivem. O estabelecimento, localizado no bairro de Santa Paula, terá aulas de boxe para todas as idades e espaço, também, para um projeto social voltado à população carente.
— Vai ter um projeto duas vezes por semana para criar campeões. Além da parte privada, também queremos esse projeto para poder ajudar as crianças a realizarem sonhos. Saí do projeto do meu pai (Touro Moreno, ex-boxeador). Dali, eu conquistei minhas coisas. Minha casa, meu carro, ajudei minha mãe, meu pai. E agora eu quero ajudar crianças que tenham sonhos a realizá-los — explica.
De origem humilde e natural da cidade de Serra (ES), Esquiva foi o primeiro finalista olímpico brasileiro no boxe, dando seguimento ao legado de Servílio de Oliveira, medalhista de bronze nos Jogos de 1968, na Cidade do México. A semifinal de Esquiva contra o britânico Anthony Ogogo completa 13 anos no próximo dia 10, enquanto a final, diante do japonês Ryota Murata, aconteceu no dia seguinte. A luta terminou em derrota para o brasileiro, mas a prata era inédita e histórica. Naquela mesma edição, Yamaguchi, irmão de Esquiva, foi bronze. Assim como Adriana Araújo, primeira medalhista mulher da modalidade no país.
De lá para cá, o boxe brasileiro cresceu. Robson Conceição chegou ao sonhado ouro na Rio-2016, enquanto Hebert Conceição aumentou a história dourada com mais um topo de pódio em Tóquio-2020. Abner Teixeira e Bia Ferreira foram outros nomes que “medalharam”. Além da história, a medalha no boxe olímpico abriu as portas do profissional para Esquiva, o que permitiu que ele construísse um pé de meia.
— De 2012 para cá, o boxe deu uma crescida enorme no mapa mundial. Hoje o Brasil é um país de ponta no boxe. Tudo começou no Servílio, aí vieram Esquiva, Yamaguchi e Adriana, e todo mundo começou a acreditar. “Se eles conseguiram, nós conseguimos também”. Nosso boxe é bom. A gente viaja o mundo todo e aprende.
Esquiva conta que fez cursos para aperfeiçoar a capacidade de lecionar. Um deles, com o atual coordenador técnico da seleção brasileira, Mateus Alves. O boxeador, que recebeu o nome incomum para que seu pai e treinador pudesse orientá-lo para além do limite da regra, dá a dica os futuros talentos da nobre arte: cuidar do corpo, ter disciplina e exercitar o respeito.
— Não vou falar que estou 100% porque ainda não criei um atleta olímpico, de ponta. Mas estou 90% próximo de fazer grandes campeões aqui no Brasil — diz Esquiva, antes de dar suas dicas para os iniciantes:
— O objetivo de um atleta hoje é cuidar de corpo, alimentação e disciplina. Tem que ter muita disciplina. Ter um objetivo e ir atrás. Treinar, nunca faltar treinamento. E respeitar as pessoas, o próximo e o esporte. Dentro e fora da academia.
As aulas, todavia, não inviabilizam os compromissos no boxe profissional. Com cartel de 30 vitórias e apenas duas derrotas no boxe profissional, Esquiva se prepara para voltar ao ringue no dia 2, quando enfrenta Vinicius Barros pelo Fight Night. Além do circuito profissional, ele também tem feito lutas de exibição, como quando enfrentou Yuri Fernandes e Morrama Araújo pelo Fight Music Show.