Uma panela de metal grande o suficiente para caber um macaco inteiro é o que Xuxu procura na cidade. Não faz muito tempo, seu povo, os Korubo, cozinhava em caldeirões de cerâmica feitos na floresta. Mas utensílios mais leves e resistentes trazidas por “pessoas brancas” provaram ser irresistíveis.
Xuxu diz que tomou conhecimento da existência de Tabatinga, no limite do Peru com a Colômbia, na tríplice fronteira, quando precisou ser socorrido após uma picada de jararaca. Ele move uma braçadeira em seu poderoso bíceps direito para mostrar onde a serpente venenosa o pegou. A segunda vez na cidade, ele acompanhou um neto doente.
Xuxu é considerado um dos grandes — e bravos — guerreiros que vive em uma das quatro aldeias Korubo perto da confluência dos rios Ituí e Itaquaí, no território indígena do Vale do Javari, onde os 127 korubos foram contatados em 1996, 2014 e 2015. Uma década depois, as consequências trouxeram doenças, novos materiais, maior segurança contra ameaças externas e uma janela para o mundo mais amplo.
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Os korubo são responsáveis por todos os eventos de primeiro contato recentes no Brasil, exceto um. Isso mostra o que pode estar por vir para mais de 60 grupos amazônicos ainda não contatados, caso eles surjam. As terras dos korubos foram inicialmente ocupadas no fim dos anos 1800 por seringueiros, seguidos por madeireiros no século XX. Os guerreiros resistiram com bordunas de madeira maciça, feitas de troncos de palmeira de pupunha, uma característica única entre os povos amazônicos, pois não usam arcos e flechas.
— Eles eram como um escudo para o território — lembra Fabrício Amorim, ex-coordenador da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) no Vale do Javari. — Eles enfrentaram grupos de madeireiros que teriam 10, 15, 20 caixas de munição e muitas armas, e os korubo apenas carregavam esses pedaços de madeira.
Entre 1965 e 1997, os korubo mataram ao menos 25 intrusos não indígenas em seu território. Os invasores tentaram caçá-los, rastreando, atirando e envenenando os indígenas.
— Estávamos em nossa maloca, e as pessoas brancas chegaram e mataram muitos membros da minha família, nossos anciãos — diz Xuxu. — É por isso que nos vingamos, matando pescadores.
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Em meados da década de 1990, a violência levou a Funai a estabelecer contato, quebrando sua política de evitar aproximação. O líder da expedição, Sydney Possuelo, iniciou o contato em 1996, trazendo ao mundo imagens de 18 indivíduos nus, liderados pela matriarca Mayá, inspecionando engenhocas modernas e experimentando roupas. Hoje, pelo menos um grupo Korubo permanece não contatado.
No pátio do centro de saúde indígena de Tabatinga, Xuxu e seu irmão mais velho, Txitxopi, quebram galhos de uma árvore para fazerem assentos. Os contatos em série criaram duas classes sociais: xêni (originais) e paxa (recém-chegados). Xuxu é paxa. Seu cabelo é tradicionalmente penteado, com a parte de trás raspada rente e franja aparada reta.
— Não gostamos daqui, de ficar na cidade. Descemos da aldeia e, às vezes, pegamos outra doença — diz Takvan, outra liderança korubo. — É por isso que estamos lutando para que a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) construa uma grande clínica de saúde com um médico e um assistente médico para trabalhar conosco na aldeia.
Os korubo têm um posto de saúde em uma aldeia e uma clínica flutuante perto de outra, mas continuam indo para a cidade em busca de atendimento e adoecendo. Lucas Albertoni, médico que já participou dos últimos contatos, observou que eles agora vão à cidade mesmo para problemas médicos menores — uma reversão dos tempos anteriores, quando era difícil persuadi-los a deixar a floresta.
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— Agora é o oposto — diz ele. — Tenho que convencê-los de todas as consequências (negativas) das viagens à cidade.
Quatro crianças Korubo morreram no ano passado. A causa da morte de dois deles ainda não foi revelada, mas análises preliminares indicam os mesmos velhos problemas: gripe, pneumonia, diarreia e desidratação.
— Biologicamente, somos exatamente iguais. Esta população (Korubo) não é imunologicamente frágil — diz Albertoni. — Há uma falta de memória imunológica para agentes de doenças que circulam em nossa sociedade.
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Vários anos após o contato, a Funai tentou regular o fluxo de produtos industrializados para o convívio Korubo. O órgão entregou diretamente às aldeias uma lista de itens de que eles precisavam — pilhas, lanternas elétricas, isqueiros, pedras de amolar, facões, machados, sabão. Mas o conceito Korubo de necessidades evoluiu. Com dinheiro de trabalhos da Funai e transferências governamentais, eles compraram barcos, telefone celular, arroz, macarrão, biscoitos e outros itens essenciais. As cédulas de real, com animais estampados, ajuda os Korubo não alfabetizados a manter o controle: uma onça-pintada na nota de R$ 50 faz com que os compradores descubram o número de “onças” necessárias para adquirir determinado produto.
— Às vezes, eles nos enganam — lamenta Takvan.
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Agora, os Korubo querem painéis solares para, assim fornecer eletricidade para iluminação, carregar telefones e alimentar conexões de internet.
— Antes dos celulares, antes da internet, quando alguém era levado para o hospital na cidade, queríamos saber como eles estavam. Eles estão melhor ou pior? Como descobrimos? É por isso que temos celulares agora, e queremos Starlink — diz Txitxopi.
Duas aldeias já têm conexão de internet. Luísa Suriani, que ensina português e alfabetização nas aldeias, diz que os planos de limitar o acesso a certas horas não funcionaram.
— Agora uma aldeia tem acesso a um serviço de internet que funciona o dia todo. Eles são naturalmente fascinados com tudo o que vem de fora, só de imaginar a internet.
A maloca brilha com telas, e Luísa observa que os jovens estão cada vez mais resistentes a tarefas de sobrevivência como caça e cultivo.
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Seatvo é o primeiro korubo a viver na cidade. Quando reconheceu a antropóloga Juliana Oliveira em Tabatinga, ele vestia jeans apertado, tênis brancos imaculados e óculos de sol na cabeça. Antes tradutor em um centro de saúde, ele está procurando novas opções, possivelmente no Exército. Eventualmente, ele quer treinar para ser professor e voltar para casa:
— Estamos cansados de professores que ficam por apenas três meses e depois vão embora — afirma ao GLOBO.
Luísa chama atenção para não romantizar o modo de vida dos korubos nem lamentar sua curiosidade e desejo por objetos materiais usados pelos “brancos”
— O dia a dia Korubo é completamente vibrante.
Menos caça, mais compras
No entanto, dilemas permanecem. Os Korubo estão felizes por sua população estar crescendo, mas a caça se tornou parca.
— Quando construímos nossa maloca, havia muita caça — diz Takvan.
Quase 30 anos após o primeiro contato, Possuelo conclui que há sofrimento entre os povos isolados:
— Eles caem numa dependência daqueles que antes os matavam, os caçavam, tomavam suas terras, roubavam suas mulheres, que faziam tudo (de ruim) para eles. Essas são as mesmas pessoas que agora controlam suas vidas. “Você pode fazer isso, não pode fazer aquilo, você tem que usar roupas, não usar roupas, etc.” É uma caminho sem volta.
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Sobre os não contatados, ele clama:
— Deixem que vivam felizes em seu território pelo maior tempo possível, pois o contato traz um mundo novo que não pede licença, rouba espaço, tempo e conforto. O mínimo que podemos fazer é manter uma distância respeitosa. Se o Estado quer fazer algo bom para os povos isolados, deve preservar seu isolamento. Proteger a natureza para que possam viver como sempre viveram.
No porto de Tabatinga, Xuxu desce da van vinda do centro de saúde. Com sua rede, cipó tatxi e uma cesta com pertences, ele parece meio perdido. Txitxopi o guia para uma loja onde o irmão, com entusiasmo, examina várias panelas. Logo, a transação é feita. Depois, os dois homens Korubo compram frutas numa barraca e, de mãos dadas para enfrentar o trânsito, atravessam para o cais onde está o barco que os levará de volta à floresta.
* Esta reportagem foi produzida em conjunto com o jornal britânico The Guardian (Leia a versão em inglês). Daniel Biasetto é editor de conteúdo do GLOBO. John Reid é coautor de Ever Green: Saving Big Forests to Save the Planet. A série sobre povos isolados tem o apoio da Fundação Ford, Nia Tero Foundation e do Pulitzer Center.