Fundado em 20 de abril de 1924 por operários do Cotonifício Crespi — fábrica de tecidos que abrigou 6.000 funcionários em seu auge e foi palco do início da primeira greve geral do Brasil, em 1917 —, o Clube Atlético Juventus é um dos últimos times de bairro de São Paulo. Seu estádio na Rua Javari, na Mooca, Zona Leste da capital, é mais conhecido por ter abrigado o “gol mais bonito de Pelé” (segundo o próprio Rei do Futebol), em 1959, e pelos concorridos “cannoli” do Seu Antônio, do que pelo futebol que recebe atualmente.
Sem atividade profissional desde março, o Juventus desistiu de disputar a Copa Paulista (competição dirigida a times sem espaço em divisões nacionais) no segundo semestre e só voltará a abrir suas portas em 2026, para o Paulistão da Série A2. Neste período sem bola rolando, o clube enfrenta um importante e tumultuado processo político, que começou com a reeleição do presidente atual por apenas dois votos, em abril, e continua com a aprovação de uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF), ocorrida há um mês e alvo de questionamentos de conselheiros opositores.
Após a aprovação da SAF pelos sócios do clube, com o placar de 322 votos favoráveis e 68 contrários, parte da torcida organizada foi ao bar do Tostão, ao lado do estádio, não para comemorar, mas para se despedir. “Acabou”, “O Juventus morreu” e “Fizemos a nossa parte” foram algumas das frases proferidas pelos membros da Setor 2, entre abraços e choros. Anos antes, a mesma torcida havia criticado a instalação de um placar eletrônico na Rua Javari — após um temporal queimar os circuitos do aparelho, a diretoria voltou com a antiga placa de madeira que existia antes. Não poderia ser diferente, afinal, a mais emblemática frase escrita nos “trapos” amarrados no alambrado a cada jogo diz “Ódio eterno ao futebol moderno. Mesmo entre alguns torcedores que não são da organizada, a transformação do clube de origem operária em uma empresa “de fora” acabou com a alma do Juventus.
– Vou a quase todos os jogos em casa desde 1999. A meu ver, a partir de agora, foi fundado um outro time, não o Juventus que conhecemos. Tradição não se vende. O clube pelo qual aprendi a amar acabou e não vou mais aos jogos – afirma o professor Henrique Gil, 32 anos, morador a 100 metros do estádio. – Não posso dizer que é algo definitivo, como meu pai assegura ser para ele, mas de qualquer forma não será a mesma coisa.
O presidente do clube, Tadeu Deradeli, afirma que os sentimentos dos torcedores são infundados.
– Futebol raiz morre. Tem que organizar para sobreviver. O clube é o mesmo, o Juventus é o mesmo de antes, as cores são as mesmas, os direitos federativos são os mesmos. Não vai mudar nada – afirma Tadeu, que é acusado pela oposição de “passar o trator” em conselheiros contrários à SAF, incluindo a suspensão de pelo menos seis deles.
Agora que a SAF foi aprovada, o clube (cuja sede fica a 3 quilômetros do estádio, na Rua Juventus) vai receber R$ 20 milhões para ceder seu futebol às empresas Contea Capital e Reag Capital Holding S/A. Além disso, a parte social receberá um aluguel mensal de R$ 25 mil, visto pela oposição como irrisório. Segundo Tadeu, os montantes serão reajustados a cada ano, mas ele não quis especificar os percentuais. Além disso, a nova dona do futebol juventino promete investir R$ 480 milhões nos próximos dez anos.
Outro ponto obscuro na criação da SAF é a reforma imediata do estádio. Tombado parcialmente em 2019 pelo órgão municipal de proteção ao patrimônio (Conpresp), o Conde Rodolfo Crespi tem asseguradas a manutenção do muro, fachada, pátios internos, prédio principal da arquibancada, gramado e alambrados, assim como a volumetria das arquibancadas laterais. Alterações nesses pontos precisam passar pelo crivo do Conpresp. Porém, os novos proprietários do Juventus prometem aumentar desde já a capacidade do estádio de 4.500 para 9.000 pessoas (alterando a volumetria tombada), além de construir um hotel, restaurantes, camarotes, spa, entre outros. Procurada, a Reag afirmou que a obra será executada em conformidade com as diretrizes e normas estabelecidas pela gestão municipal.
– Estão enganando todos os que gostam do Juventus. O tombamento inviabiliza boa parte do que anunciaram, além de a Rua Javari ser estreita, não comportar uma miniarena e de o clube já ter recebido os créditos municipais por causa da resolução que tombou o estádio. A SAF pode até ser viável, mas o projeto que anunciaram é a maior “fake news” que o bairro já viu – afirma o empresário Marcello Betone, ex-candidato a presidente do clube, cuja eleição foi vencida por Tadeu Deradeli por apenas dois votos a mais.
Após a eleição, Magrão, como é conhecido, foi um dos seis conselheiros afastados pelo clube, sob a alegação do descumprimento de normas internas, e agora responde a um processo de expulsão do Juventus.
– Vamos brigar na Justiça, tanto para rever essas injustiças, como para anular a eleição do Tadeu, pois encontramos diversas irregularidades – anuncia.
Pelo gramado do Estádio Conde Rodolfo Crespi passaram importantes jogadores formados na Mooca, como o meia Julinho Botelho (jogou a Copa de 1954), o goleiro Félix (campeão da Copa de 1970), o “Coringa da Vila” Lima, fiel parceiro de Pelé no Santos, entre muitos outros. O atual técnico do Vasco, Fernando Diniz, também foi cria da Rua Javari, onde atuou de 1993 a 1996. Seus últimos passos também foram no clube da Mooca, em 2008 .
Aliás, a contratação de atletas veteranos também era uma marca do clube. Por ali jogaram o ex-volante Vampeta (2008), o atacante Viola (2006) e até o ícone do futebol argentino César Luis Menotti (1969), campeão do mundo pela Argentina, como técnico, em 1978, entre muitos outros. Após a queda no Paulistão de 2008, porém, essas duas marcas — criar talentos e receber veteranos — foram se tornando cada vez mais raras na Rua Javari.