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Chico Buarque no GLOBO: leia uma crônica do cantor e compositor

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julho 27, 2025
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Chico Buarque no GLOBO: leia uma crônica do cantor e compositor


‘OS MELHORES MOMENTOS’
Hospedou-se no Hotel Fraternité, perto da Estação do Norte. Quarto de dez metros quadrados, televisão vinte polegadas, pia, frigobar, banheiro no corredor, estava de bom tamanho. Dia dez de junho foi a Saint Denis, misturou-se aos brasileiros na porta do estádio, gritou “ah, eu tô maluco”, tomou o metrô de volta e no Hino Nacional já estava sentado na ponta da cama, a janela escancarada. Vitória do Brasil, e ele ali respirando o clima da copa. Tão logo terminou o jogo ligou para Naná, mas caiu na secretária eletrônica. Naná odeia futebol.
Chegou com dois mil dólares costurados por dentro da calça de moletom, que não tira do corpo. Na bagagem trouxe as cuecas, as meias, doze camisas amarelinhas e o terno xadrez para ocasiões especiais. Descobriu a dois passos do hotel um bar chamado 44 e simpatizou com o garçom tunisiano, pinta de cearense. Almoça ali todo dia por quarenta e quatro francos, gorjeta incluída, prato completo, doce, café expresso, tudo muito bom. Mas também não é lá dessas coisas que ouvia falar. Dá direito a um copo de beaujolais, que é o que ele mais aprecia. “Vinho nacional!”, fala, e o tunisiano ri muito, ri além do necessário, deve entender outra piada.
Foi a Nantes, respirou o clima, gritou “ah, eu tô maluco”, viu a goleada num telão, voltou de madrugada no TGV, coisa de primeiro mundo. No bar repleto de brasileiros tocando corneta, bebeu vinte latas de cerveja com uma japonesa de Tupã, meio barriguda porém meiga. Na chegada a Paris ela disse “foi um prazerão”, entrou num ônibus com seu grupo, e era ele o único brasileiro sem grupo. Voltou a pé para o hotel, chegou às cinco da manhã, meia-noite no Brasil, achou que era uma boa hora para pegar Naná em casa. Secretária eletrônica. De certa forma foi ótimo, porque ele estava assim eufórico e ela era capaz de nem saber quem jogava. A viagem à França é vapt-vupt, foi o que lhe disse no Galeão, porque esse timeco não passa da primeira fase, e Naná com voz mole respondeu “Deus te ouça”.
Entre um jogo e outro, dá tempo de ver o Louvre, Notre Dame, adquirir conhecimentos, mas com duas semanas não restam grandes atrações. Vitrines, passa longe, já tendo escolhido o perfume de Naná, um frasco tamanho família imitando a taça Jules Rimet. À noite compra um sanduíche de presunto e leva para comer na cama com o vinho, que encontra barato no supermercado. Vê a partida, qualquer partida, estuda a tabela, adormece assistindo a uns debates confusos, sonha com o matemático Oswald de Souza, acorda de madrugada com a garganta seca e o aparelho chuviscando. Aí toma água do frigobar, faz xixi na pia, torna a se deitar, apaga tudo. Custa a dormir porque tem pensamentos, e o quarto é abafado, os farelos da baguete pinicam a pele. Mulher, até agora não rolou. Também é verdade que não são dessas coisas que ouvia falar. A melhor que viu, na estação do metrô, era morena e talvez fosse carioca, vista de costas até lembrava Naná. Aproximou-se, quis puxar algum assunto, tossiu, de repente falou “nasceu o bebê da Xuxa”, mas a moça nem piscou, continuou olhando os trilhos com cara de doida.
Para ir a Marselha, o orçamento andava curto. Viu a derrota da ponta da cama e achou mesmo que voltaria mais cedo para casa, pois aquele timeco não ganhava nem do Chile. O hindu que manda no hotel talvez pensasse a mesma coisa, e solicitou em péssimo espanhol que ele pagasse sem embargo a quinzena vencida. Esgarçou o moletom ali na cara do hindu, sacou quinhentos dólares e quitou a conta. Era alta, por causa dos quinze telefonemas internacionais, e ele nem ao menos falava com Naná. Se bem que, só para deixar um beijo no coração e o telefone do hotel — que Naná pode ter perdido quinze vezes — tinha de ouvir umas músicas lentas que ela agora punha na máquina antes do bip. Jurou que nunca mais ligaria, mas não aguenta quando Cesar Sampaio abre o placar contra os chilenos. Secretária. É depois desse lance que, sem mais nem menos, dá pane na televisão, a imagem rateia, fica impossível ver o jogo. Muda de canal, e na tela só vê Naná. Dá um cascudo no aparelho, arranca o fio da tomada e continua a ver Naná na tela, corada, exuberante como em seus melhores momentos. Só que ela evolui num apartamento esquisito, e usa boné, usa short azul e camisa amarela, e grita que está maluca nos gols do Brasil.
Na noite de sexta-feira despiu a camisa para o exercício de torcer contra o Brasil, e era exatamente como se tivesse uma adaga enfiada entre as costelas. Porque a cada arrancada da seleção, sorria sem querer com o corpo inteiro, e se doía todo. Se era a Dinamarca que atacava, falava baixinho “dá-lhe, Dina”, e com isso a adaga se mexia ali dentro. Corria o segundo tempo, o jogo lá e cá, e ele já era um ser contorcido. Mas quando Rivaldo marcou o terceiro gol, saltou contra a vontade, deu um murro no teto, uivou, caiu prostrado na cama e pensou em Naná. Respirou fundo. Tomou um banho no fim do corredor e vestiu o terno xadrez. Saiu em direção a Pigalle, entrou numa boate chamada Les Chiens, pediu uma garrafa de champanhe em balde de gelo e convidou a garçonete para um brinde. Superpintada, voz grave e sensual, peitos grandes, a saia que era um lenço, quando cruzou as pernas parecia a atriz americana, exceto pelos joelhos que eram de jogador de futebol. Entornou três garrafas, deixou a espelunca chutando o balde, rodou pela cidade, voltou ao hotel dia claro. Sentiu culpa por ter feito mau juízo de Naná, telefonou para escutar os boleros e deixar um beijo no coração, mas foi Naná em pessoa quem atendeu, falou “viva o timeco”, soltou uma gargalhada e desligou sem esperar explicação. “Alô!, alô!, alô!”, gritou, e o hindu da portaria respondeu “si?”. Então mandou chamar um táxi para o aeroporto. Amontoou na mala as camisas imundas, as meias, as cuecas, o perfume de Naná, desceu as escadas, meteu as unhas no moletom, jogou os dólares na cara do hindu e saiu batendo a porta do Hotel Fraternité.
5 de julho de 1998
Este conteúdo faz parte do especial em comemoração pelo centenário do jornal. Acesse a página O GLOBO 100 anos para ver mais reportagens.

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