Revolucionário, vanguarda, original, bem-humorado, alto-astral. Aos 84 anos, o estilista Luiz de Freitas segue fiel aos seus princípios e vibrando diante das novidades. Depois de lançar uma autobiografia em julho do ano passado (“Eu, Luiz de Freitas, Mr. Wonderful”, de Dininha Morgado), ele se prepara para ver sua vida e obra virarem documentário. O projeto é da diretora Susanna Lira. “Nunca imaginei que, ao nascer em Pau Grande (RJ), terra de Mané Garrincha, e filho de operários, viveria isso. É uma coisa que não se encomenda, tem que fazer por merecer. Estou dando cambalhotas de alegria”, exclama.
Um dos nomes mais importantes da História da moda brasileira, Luiz (com z de Liza Minelli, como gosta de frisar) iniciou a carreira na década de 1960 ao vir, com a cara e a coragem, para o Rio em busca do sonho fashion. “Era pobre, preto e gay”, recorda-se o designer, que atropelou os preconceitos. Depois de trabalhar em ateliês e investir no estilo feminino ao criar as marcas Belui e Vinte Anos, injetou frescor na moda masculina, nos anos 1980, com a abertura da Mr. Wonderful, antes chamada de Clínica da Moda. A proposta era desconstruir o machismo por meio de peças de modelagem libertária e paleta de cores alegre, bem distante da sisudez reinante. “Naquela época, não existia apenas um Trump, tinham vários (risos). Para avançarmos, era preciso reduzir as barreiras que engessavam o dress code do homem brasileiro. Corri riscos ao apostar na ousadia”, observa Luiz.
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Para a cineasta Susanna Lira, o documentário — que será rodado neste ano e lançado em 2026 — endossa a importância do trabalho vanguardista de Luiz e a relevância de se preservar a memória da moda brasileira: “Ele foi o primeiro estilista a levar o conceito da alma carioca para o mundo. Traduziu o espírito da cidade como poucos e burlou preconceitos para se tornar o Mr. Wonderful”.
No filme, a diretora pretende reviver a Clínica da Moda (nome da primeira butique masculina do estilista), na qual o designer exercia o poder de escuta e mostrava rumos possíveis para aqueles que estavam abertos ao novo, mas ainda temerosos. “Criou esse conceito para desconstruir padrões de comportamento que aprisionavam as pessoas. Vamos reconstruir esse espaço. Luiz vai receber seus antigos clientes e também tentar entender o novo homem carioca”, explica Susanna. “Será um filme de imersão na sua mente criativa.”
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A jornalista Regina Martelli acompanhou de perto a trajetória de Luiz. “Ele tirou a seriedade da moda masculina, inovou e deu alegria a uma roupa que sempre foi careta”, afirma. Ela destaca a percepção aguçada do estilista. “Sempre teve a visão ampla e um olhar à frente, não tinha nada que pudesse cerceá-lo na criação. Não tinha amarras. Sua roupa sempre foi muito divertida.”
Estilista e figurinista, Biza Vianna enfatiza a questão da negritude. “Luiz foi precursor. Lembro de ter feito, nos anos 1980, uma coreografia para um desfile assinado por ele em que todo o elenco era negro. Além disso, tinha preocupação social e começou o movimento agênero na moda”, enumera. Para o estilista Thomaz Azulay, “é uma pessoa fora da curva”: “Um privilégio falar sobre ele. Imagina um estilista preto, nos anos 1970, fazendo aquela moda, com cadência, para homens?”.
Perpetuar o legado do designer é outro objetivo do documentário. “Pretendo mostrar muitos dos meus enfrentamentos”, comenta Luiz. Susanna corrobora: “Ele é um desbravador. As novas gerações precisam beber na fonte dessa anarquia produtiva. E segue inspirando porque nada tira dele o rótulo de Mr. Wonderful