Alcançar 100 anos (ou quase isso) de vida não é trivial, reconhece Fernanda Montenegro. A longevidade, contudo, jamais será paralisante se atravessada por mentes impetuosas, como a da atriz e de outros grandes nomes da cultura brasileira. A seguir, Anna Bella Geiger, Eduardo Sued, Haroldo Costa, Jaguar, Laura Cardoso, Nathalia Timberg, Othon Bastos e Zuenir Ventura revisitam algumas memórias e miram no que está por vir.
Viver por quase um século, afirma a atriz, de 95 anos, “é estranhíssimo”. Mas é também um milagre. “Tudo é um mistério porque, como diz Calderón de la Barca: ‘A vida é um sonho’. São 80 anos de profissão, os quais ainda estão sendo realizados”, celebra Fernanda, que finaliza hoje mais uma temporada carioca de leituras de Simone de Beauvoir e Nelson Rodrigues. “Milagre é esta minha resistência, como é a resistência dos colegas-amigos ao meu lado.” E isso inclui aqueles que já partiram, como faz questão de mencionar. Caso do marido, Fernando Torres, e dos atores Sérgio Britto, Ítalo Rossi e Gianni Ratto. Entre passado e presente, a atriz consegue, ainda, projetar um futuro animador. Pelo menos, é o que almeja: “Gostaria que o mundo experimentasse, nos próximos 100 anos, uma real liberdade humanizada”.
Ao acordar pela manhã, o ator, de 92 anos, começa o dia com orações. Ao fim das preces, sempre diz: “Deus, não deixe a velhice me pegar”. Ao que tudo indica, a conexão de Othon com o divino é das melhores. A peça “Não me entrego, não”, que revisita a carreira deste nome fundamental do Cinema Novo e do teatro, é sucesso de público e crítica, com temporadas já agendadas em diferentes cidades brasileiras. “Quando fiz 50 anos, pensei: ‘Estou ficando velho! Onde vou parar?’”, conta, entre risadas. “Chegar a essa idade trabalhando é uma recompensa muito grande. Afinal, viver o presente é mais importante do que a posteridade. Só envelhece aquele que já desistiu de estar vivo.”
Existe um lema recorrente na vida da atriz: “Conhecimento e sabedoria são coisas que ninguém tira”. No caso dela, isso é elevado a uma experiência radical. Afinal, são 97 anos de vida, boa parte deles atravessados diante do grande público, na pele de personagens que serão sempre reverenciadas na história da teledramaturgia. Qual seria, então, o aspecto mais importante de uma trajetória desse nível? “A vida em si”, responde. “A bênção que ela é, com todas as vivências incríveis, embora nem todas sejam flores. Tem a ver com amar tudo como se apresenta, sem reservas e arrependimentos.” Conhecimento que permite à atriz ter clareza e saber o caminho ideal para um futuro melhor: “Gostaria de igualdade em todos os sentidos. Um mundo mais justo, menos intolerante e mais próximo da natureza”.
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A atriz propõe um jeito diferente de “contar” a passagem dos anos. “A minha emoção não é numérica, é emocional. E constato que venho vivendo-a, há bastante tempo, mais do que muita gente”, diz ela, que encerra hoje uma temporada da peça “A mulher da van”, em São Paulo. Aos 95 anos, também não está interessada em categorizar quais experiências foram mais importantes até aqui. E justifica tal postura: “Não tenho essa maneira de classificar qualitativamente as minhas vivências, sejam a qual terreno pertençam. Elas se somam dentro de mim. E, mesmo quando se afastam ou se extinguem, o residual fica.” Elaborações de alguém com profunda consciência sobre o que é realmente essencial. “O mais importante é me sentir palpitante e verdadeira em relação às coisas que me importam”, conclui.
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O ator e jornalista solta uma gargalhada quando indagado sobre ter “quase um século de vida”. “Ainda não cheguei lá, mas espero não só chegar, como ultrapassar”, planeja, aos 95 anos. “Como nunca parei de trabalhar, a idade passou a ser secundária.” Diz isso enquanto finaliza o livro “Histórias do Brasil na boca do povo”, no qual vai reunir fatos históricos descobertos pelas escolas de samba. A festa popular, como se sabe, é uma de suas grandes paixões. “Quando criança, morava na Lapa, epicentro da boemia carioca. Então, vivi toda essa evolução”, recorda-se, sobre a folia vista com preconceito no passado. “Hoje, nada é mais brasileiro e carioca do que o carnaval. É também mutante. O deste ano não será igual ao que passou.” E como escola de samba não dá ré, Haroldo tem na ponta da língua o enredo perfeito para o futuro: “Que o mundo tome juízo”.
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É no ateliê em Jacarepaguá, cercado por obras — muitas em produção —, que o pintor centenário recebe a reportagem. Sentado numa cadeira de balanço, mira o fotógrafo com curiosidade e gesticula com as mãos, como se estivesse num jogo com a câmera. A irreverência, traço marcante da personalidade do artista, segue latente em seu corpo. “Acho incrível falar que tenho 100 anos. Pô, é muita coisa! Fico espantado”, diz, com os olhos vidrados, tecendo comentários também sobre as ideias que o movem. E lança mão de um jeito “meio Sued de ser” para falar sobre o assunto: “A inspiração vem do nada que está no fundo de mim e vira tudo. É algo muito apreciável e que me toca de modo cada vez mais profundo e presente. Com 100 anos, penso mais, sou vivo e assim pretendo continuar”.
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Ao revisitar a própria trajetória, o jornalista, de 94 anos, costuma dizer que “tudo aconteceu por acaso”. Afirma, por exemplo, jamais ter imaginado que fosse virar escritor. Mesmo assim, seu livro “1968 – O ano que não terminou” tornou-se um clássico, assim como “Cidade partida” e outras obras. Um legado com fôlego o suficiente para levá-lo ao posto de imortal da Academia Brasileira de Letras. “Ter sido testemunha, narrador e, por vezes, personagem de tantos acontecimentos ao longo desses quase 100 anos me trouxe muitas alegrias”, reconhece. “Ganhei muito mais do que esperava, em especial, uma família amorosa, ao lado de meus filhos, netos e uma companheira inseparável, minha mulher, Mary, com quem estou junto há quase 63 anos. A vida foi generosa.”
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Um papo com a artista visual, de 92 anos, é como mergulhar numa tela infinita e multicolorida. Não bastasse a projeção internacional de Anna Bella, cujas obras estão em museus de todo o mundo, ela coleciona histórias impagáveis. São casos como o dia em que esbarrou com Salvador Dalí, em Nova York, e o desprezou, e o saco de cinco quilos de pigmento azul dado a ela por um assistente do ateliê de… Yves Klein. “Cheguei a usá-lo em algumas obras”, conta, sobre a cor que é marca registrada do artista francês. Saudosismos? Nenhum. “A vida sempre correu de uma maneira normal. A partir da arte, encontrei a mim mesma e consegui fazer o meu trabalho”, afirma, com exposições agendadas para os próximos meses. “Tenho mais amor à vida, à criação e à família do que desânimo. Nunca houve um momento em que dissesse: ‘Não tenho mais condições de trabalhar’.”
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Gaiato que só, o cartunista não é dado a sentimentalismos na hora de refletir sobre a idade. “Isso é indiferente”, diz, quanto aos 93 anos. Prefere demonstrar o apreço pela vida contando, na sala de casa, uma penca de histórias divertidas. Solta risadas ao narrar o dia em que invadiu o Copacabana Palace com amigos, durante o carnaval, e jogou os hóspedes na piscina; a homenagem atrapalhada recebida de um prefeito que o confundiu com o colega Lan; ou a fundação do semanário “O Pasquim”, cujo nome foi ideia dele. Isso sem falar na alta boemia vivida ao lado de gente como Tom Jobim, Oscar Niemeyer, João Ubaldo Ribeiro e Chico Caruso. “Tive uma vidinha boa. Não me aprofundava em meditações, ia vivendo o momento”, diz. E ainda é assim? “Mais do que nunca! Não planejo o futuro nem lamento nada do que fiz.”
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