Difícil imaginar algo mais italiano do que as gôndolas de Veneza, os carretos da Sicília e os telhadinhos em forma de cone da Puglia. Mas Domenico Dolce e Stefano Gabbana sempre encontram. Desde que criaram, em 2012, sua própria semana de moda sob medida (a tradicional haute couture só existe na França), os designers à frente da Dolce & Gabbana escolhem destinos fascinantes e paradisíacos da Itália para mostrar o melhor do artesanato local e de criações ‘su misura’ que chegam a custar 300 mil euros. Para os clientes da Alta Moda, da Alta Sartoria (alfaiataria) e da Alta Joalheria da casa italiana, preço não é uma questão, mas experiência, sim. Por isso, depois de temporadas inesquecíveis em Como, na Sardenha e em Veneza, Roma, a Cidade Eterna, foi a eleita da temporada, realizada de 12 a 16 de julho.
“Essa semana é sobre o triunfo da beleza”, resumiu Domenico Dolce, logo depois do desfile, que aconteceu no Fórum Romano, para 450 convidados. Além de clientes de todas as partes do mundo, assistiram às coleções a atriz Isabella Rossellini, o jogador Erling Haaland e a cantora Cher, que se apresentou na festa de abertura da temporada, na Via Veneto, interpretando hits como “Dov’è l’amore” e “Believe”.
Pela primeira vez na História, as ruínas do Fórum Romano serviram de cenário para um desfile de moda. Não qualquer uma, mas da Alta Moda italiana. O conjunto — que já foi o coração político, religioso e simbólico do império mais importante do mundo — virou palco da coleção da Dolce & Gabbana que homenageia a beleza e a tradição.
Inspirado nas vestais, sacerdotisas da Roma Antiga que teriam como missão manter acessa a chama da pureza (tipo belas, recatadas e do lar daquela época), o primeiro bloco do desfile trouxe silhuetas gregas em tecidos translúcidos. “Em seguida, apresentamos looks estruturados como armaduras de soldados”, explica Antonio Pino, diretor criativo de Alta Moda da casa italiana.
A coleção avançou pelos séculos e absorveu referências barrocas até chegar aos anos 1950, quando estúdios da Cinecittà transformaram a cidade no epicentro da dolce vita com os filmes de Federico Fellini e Marcello Mastroianni. Na passarela, isso se traduziu em silhuetas evasê, drapeados de cinturas marcadas e comprimentos mídi. Mas, como de costume na grife de Domenico Dolce e Stefano Gabbana, os vestidos mais icônicos são os bordados que homenageiam os monumentos da região em que a Alta Moda acontece e honram o fatto a mano da grife. Na Cidade Eterna, não poderiam faltar o Coliseu, a Fontana di Trevi e a Piazza di Spagna. “Além de reverenciar a grandeza de Roma, essa coleção retrata o triunfo da beleza. Mostra que o belo expande nossos corações”, disse Domenico, logo após o desfile.
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Um tributo à Cidade Eterna. Foi essa a gênese da coleção de Alta Gioielleria da Dolce & Gabbana, apresentada na segunda-feira, 14, em Roma. Walter Veneruz, diretor de joalheria da casa italiana, explicou que as peças desta temporada evocam o esplendor do Império Romano. Distinguem-se pelo uso de pedras cabochon — entre elas, rubelitas e indicolitas — lapidadas em formas orgânicas e cravejadas como obras de arte. “Queríamos que cada criação parecesse emergir do passado, como um tesouro descoberto em uma escavação arqueológica”, disse ele.
Dois conjuntos principais ancoram a narrativa da coleção. O primeiro aposta em medalhões em miniatura com detalhes pintados à mão e micromosaicos inspirados em moedas antigas. O segundo traz figuras clássicas, heróis e divindades esculpidas em pó de mármore, evocando o trabalho dos mestres escultores da Antiguidade por meio de uma técnica artesanal refinada. O resultado é uma viagem visual por Roma Antiga em forma de joias.
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Imponente às margens do Tibre, o Castelo de Sant’Angelo já foi mausoléu, fortaleza e residência papal: isso faz parte de sua história longa e cheia de simbolismos. Assim como foi o desfile de Alta Sartoria da Dolce & Gabbana apresentado ao cair da tarde da terça-feira, 15, em Roma.
Tudo começou com uma corte de cardeais em togas vermelhas, tal qual as de conclaves da vida real. Na sequência, 106 modelos desfilaram ternos, capas, batas e batinas inspirados na tradição eclesiástica. Além das narrativas políticas de fé e poder, os trajes contavam a história do artesanato italiano, com riqueza e habilidades excepcionais. Tamanho esplendor dessa estética eclesiástica refinada mexia, desde cedo, com a cabeça de Domenico Dolce. Exímio alfaiate, ele percebeu, ainda garoto, que os trajes litúrgicos desempenham um papel central na imagem dos pontífices — dos franciscanos aos suntuosos, de adornos reluzentes.
O que o designer e o diretor de Alta Sartoria, Andrea Marchesi, mostraram nesta temporada foram vestes clericais em paletós de seda cravejados, batas com rendas batismais, batinas com crucifixos e até um mantô com a cena de um conclave bordada. A noite terminou com fogos de artifício e uma certeza: se o diabo veste Prada, os pontífices usam Dolce & Gabbana.
*A jornalista viajou a convite da Dolce & Gabbana.