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Marisa Monte reflete sobre quase 40 anos de carreira e 58 de vida: ‘Tempo foi generoso comigo’

BRCOM by BRCOM
julho 27, 2025
in News
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Marisa Monte — Foto: Fernando Tomaz

Até os 4 anos, Marisa Monte praticamente não falava. “Eu era uma criança muda”, conta. Aos 20, em seu show de estreia, encantou a plateia com o inconfundível timbre que logo garantiria a ela um lugar no panteão das maiores intérpretes da música brasileira. E, ao longo de quase quatro décadas de carreira, sagrou-se como voz ativa em defesa da cultura, das mulheres, do meio ambiente e da educação. “Quando finalmente comecei a me comunicar, nunca mais me calei. Acho que, de certa forma, todo o silêncio da infância se transformou em música e em palavras que depois ganhariam o mundo”, afirma a cantora e compositora carioca.

Nesta edição que celebra os 100 anos do GLOBO, Marisa — que desde 1987 foi capa do jornal 35 vezes, sem contar as centenas de matérias internas — revisita o passado, celebra o presente e vislumbra o futuro. Na entrevista, fala sobre mudanças na indústria fonográfica, conquistas da mulher na música e responsabilidades que vieram junto com o título de Doutora Honoris Causa. Também disserta sobre a criação dos filhos Mano Wladimir, de 22 anos, e Helena, de 16, e adianta, em primeira mão, detalhes do novo projeto musical: uma série de concertos com uma orquestra sinfônica composta por 55 músicos. Com estreia no dia 18 de outubro, no Parque Pampulha, em Belo Horizonte, chegará ao Rio no dia 1º de novembro, na Brava Arena Jockey, e seguirá por São Paulo, Curitiba, Brasília e Porto Alegre.

Confira os melhores trechos a seguir.

Marisa Monte — Foto: Fernando Tomaz

As reportagens do Globo sobre você contam a história recente da indústria fonográfica no Brasil: do LP “MM”, em 1989, passando pela venda de três milhões de cópias de “Tribalistas”, ao lançamento de “Portas” no streaming, em 2021. Como avalia as mudanças?

A nossa geração é muito peculiar por estar vivendo a transição entre o mundo analógico e o digital. Meus filhos, por exemplo, nunca vão ter a experiência de ir para casa esperar um telefonema nem a emoção de ir à loja comprar um LP que saiu naquele dia. Em termos de relação com o público, também mudou completamente. Hoje, cada artista tem um canal direto com os seus fãs por meio das redes. Em muitos sentidos é melhor, em outros, pior, ou simplesmente diferente. A gente tem que se adaptar. Porém, alguns direitos ficaram pelo caminho, principalmente no que diz respeito aos músicos, o elo mais frágil da cadeia. Os que recebiam direitos pela execução pública no rádio não recebem pela execução pública no streaming. É preciso batalhar para resgatar esse direito mais do que justo e constitucional e proteger os indivíduos da ganância das grandes corporações. Diz respeito ao patrimônio intelectual da Humanidade: a música tem que continuar sendo uma atividade que vale a pena.

Pelos nossos cálculos, só de capas suas no jornal, nos últimos 38 anos, foram 35. Você guarda algum recorte antigo?

Todos! Tenho em casa um bom arquivo físico, além de todas as reportagens digitalizadas em uma grande nuvem.

Como consome notícias nos dias de hoje?

Tenho jornal físico, assino O GLOBO. Gosto de ler no papel. Também vejo as plataformas digitais e sigo veículos de imprensa internacionais nas redes sociais. Acompanho bastante as notícias de vários assuntos.

Marisa Monte — Foto: Fernando Tomaz
Marisa Monte — Foto: Fernando Tomaz

Você é uma das maiores vozes da música brasileira. como Lida com esse tipo de reconhecimento?

No começo, existia questionamento. Um questionamento que foi se diluindo com o tempo. Mas sempre achei que não deveria ter pressa nem provar nada para ninguém, nem para mim. Lá atrás, eu era comparada a todo mundo: a nova Carmen Miranda, a nova Maysa, a nova Gal Costa. Sempre achei todas maravilhosas, e via como um elogio. Ao mesmo tempo, achava muito cedo para dizerem o que eu era.

Como você vê o papel da mulher na indústria musical hoje?

No último dia 8 de março, fui chamada pela ministra Cármen Lúcia para falar no Painel Mulher, ao lado das queridas Paula Lavigne, Luiza Trajano e Íris Helena Medeiros, exemplos de representatividade feminina. E falei da minha tataravó, Sofia. Há cem anos, ela jamais poderia ter uma vida profissional como eu tenho. Ela cantou para a família em saraus. E até a geração da Rita Lee, nos anos 1970, que coincide com o desbunde, com o surgimento da pílula anticoncepcional, a maioria das mulheres era só intérprete. Os homens compunham na primeira pessoa feminina para elas cantarem. Só depois de Rita vieram Marina Lima, Paula Toller e a minha geração: eu, Adriana Calcanhotto, Zélia Duncan. Todas nós compomos, deixando de ser apenas vozes e colocando na música nossos sentimentos. É muito recente na MPB ter a palavra. Um paralelo ao que acontece na sociedade. Apesar de sermos a maioria numérica da população, ainda somos minoria no Legislativo. Ainda temos muito o que conquistar. E é uma questão de evolução: a Humanidade pode ser muito melhor se houver maior divisão de responsabilidades, seja na criação dos filhos, seja nos cargos de comando.

E Maria Callas? É uma das suas principais referências femininas na música?

Sim, Maria Callas sempre foi uma referência muito forte. Não apenas pelo talento extraordinário, mas pela intensidade com que viveu a arte e o drama. Ela não era apenas uma voz, era uma presença inteira. Cantava com o corpo, com os olhos, com a alma. A frase dela “o canto é a imitação; a gente canta o que ouve” me acompanha até hoje. Porque, no fundo, cantar é isso: um espelho sensível do que nos atravessa, do que escutamos ao longo da vida, nos sons, nas pessoas, no mundo.

Em outubro, estreia turnê com uma orquestra sinfônica. Como surgiu a ideia?

Serão 55 músicos mais a minha banda. Ou seja, comigo somamos 60! É a realização de um sonho antigo. No caminho até aqui, tive alguns encontros com orquestras e interseções com a linguagem sinfônica. Tenho 25, 26 arranjos de músicas prontos. Em vez de pegarmos uma orquestra já existente, resolvemos montar uma especialmente, com equilíbrio entre homens e mulheres, gente jovem. Uma orquestra fresh, com o maestro André Bachur, um excelente parceiro com quem trabalhei no concerto de 90 anos da USP. “Beija eu” e “Ainda bem”, que já tocamos juntos, estão garantidas.

Os concertos serão em parques e arenas. Levar a música clássica a contextos mais democráticos é uma missão que bate fundo no coração daquela jovem que trancou a faculdade de música para estudar canto lírico em Roma?

Profundamente. Cantar em espaços abertos, acessíveis, é possibilitar que a música cumpra seu papel social. Um encontro com a natureza, com o público diverso, com quem talvez nunca tenha pisado numa sala de concerto, mas que tem o mesmo direito de ser tocado pela arte. Quando tranquei a faculdade de música e fui estudar canto lírico em Roma, era movida por uma inquietação: a vontade de expandir minha escuta, de entender a música como linguagem universal. Hoje, poder levar um concerto com orquestra para parques é simbólico. É tornar o sublime acessível. A democratização da cultura, para mim, não é um discurso, é uma prática. É uma das razões pelas quais sigo cantando.

Ano passado, você recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela USP, uma proposta da Faculdade de Educação aceita por unanimidade. Pessoalmente, o que esse título representa?

É uma honra indescritível. E ter vindo da Faculdade de Educação é incrível, pois mostra um reconhecimento pelo meu trabalho de pesquisa, pelos projetos de educação que apoiei durante esses anos todos, como a Escola Mirim da Portela, da qual sou madrinha há 22 anos.

Marisa Monte — Foto: Fernando Tomaz
Marisa Monte — Foto: Fernando Tomaz

É a terceira mulher a receber esse título, já concedido a 123 homens, em 90 anos…

Sou a terceira mulher, e a primeira na área de cultura, sendo que antes de mim receberam tal honraria duas cientistas: a bióloga Eveline Du Bois, em 1974, e a farmacêutica Maria da Penha, em 2023, que transformou a luta contra a violência doméstica no país. Receber esse título é uma prova de que a arte tem o poder de impactar vidas, de despertar consciências e promover mudanças. Olha, como diria um amigo, mais um título, mais uma responsabilidade. E me abre também a possibilidade de orientar doutorandos, de estar mais envolvida no ambiente acadêmico, vou poder pesquisar junto.

Você já havia sido convidada para ser embaixadora do USP Diversa, programa de bolsas de estudos para alunos em situação de vulnerabilidade econômica. Como é a sua atuação?

Em 2022, fui convidada para dar visibilidade a essa causa, com o desafio de buscar recursos para garantir bolsas de permanência para os alunos cotistas — dos 30 mil cotistas, segundo critério de vulnerabilidade socioeconômica, 17 mil precisam de auxílio financeiro para se manter na faculdade. E, para isso, em parceria com duas amigas, a médica Ludhmila Hajjar e a empresária Cristiane Sultani, presidente do Instituto Beja, estruturamos um fundo patrimonial para captar recursos. Obtivemos bons resultados. Porém, percebemos que resolver essa questão na USP não seria suficiente para o Brasil. E passamos a nos empenhar em transformar as bolsas de permanência em política pública.

Dialogamos com os Poderes em Brasília, recebemos o apoio forte do Senado, da Câmara e do Poder Executivo, e tivemos a felicidade de ter o PL 3.118/2024 aprovado no Congresso e sancionado pelo presidente Lula no último dia 17 de julho. A assistência estudantil para alunos de universidades públicas agora é lei, garantida pela destinação de recursos do Fundo Social. Sinto-me realizada e emocionada, pois isso terá um impacto enorme na vida de muitas pessoas no Brasil.

No mesmo dia 17, foi aprovado o chamado “PL da Devastação”. Como recebeu essa notícia?

Enquanto celebramos avanços civilizatórios como a ampliação da Lei de Cotas, somos brutalmente confrontados por retrocessos como o Projeto de Lei 364/2019, apelidado com razão de “PL da Devastação”. Fiquei indignada. A sociedade civil precisa ocupar os espaços democráticos, pressionar nossos representantes no Congresso, apoiar organizações ambientais sérias. Cabe a nós boas escolhas e não desistirmos do Brasil.

Precisamos, mais do que nunca, exercer a arte de escutar?

As redes amplificaram as vozes, mas, com tanta gente falando ao mesmo tempo, parece que nos falta o silêncio para reflexão e para escutar a própria voz. As redes calaram o diálogo e amplificaram o ruído e a mentira. A música me ensinou que a pausa também faz parte da melodia.

Como é o seu diálogo em casa, com os filhos?

Há uma interlocução. Estou sempre ouvindo como eles se sentem. Mas filho é igual canção: a gente coloca no mundo e não tem controle, não sabe no que vai dar. E acho que, na educação, o exemplo pesa muito. Mano e Helena convivem comigo e com o Diogo (Pires Gonçalves, empresário, com quem é casada desde 2008), que também é muito organizado, trabalhador. É mais sobre ser do que falar.

Marisa Monte — Foto: Fernando Tomaz
Marisa Monte — Foto: Fernando Tomaz

Como é ter um jovem e uma adolescente ?

Ótimo. Prefiro filho grandinho do que bebê, porque a troca é mais de igual para igual. Depois de uma certa idade, eles começam a tomar as próprias decisões. As preocupações, claro, sempre vão existir. Falo para a Helena: “Anda na rua com oito olhos abertos”. Ela gosta de cantar, mas é mais para consumo doméstico. Também toca piano. Não sabe ainda o que vai fazer profissionalmente. Já o Mano está fazendo faculdade de Design e pintando muito bem. Ele tem um lado visual forte que herdou da família do pai (o músico Pedro Bernardes).

Neste ensaio, você aparece de jeans pela primeira vez. Está se deixando experimentar?

Arte de Giovanni Bianco, com certeza. Pode dar esse crédito a ele. Não sou fashionista, mas admiro o trabalho e a criação artística de grandes designers de todos os tempos. Gosto de entrar na brincadeira e aprender com meus amigos. Sou mais para alternativa, mas sempre busquei um jeito próprio de me vestir.

Você acabou de fazer 58 anos. Como lida com a passagem do tempo?

Olha, não me lembro de ter tido crise em idade nenhuma, nem nos 30, 40 ou 50. Fui passando e só agradecendo por estar viva. Não brigo com o tempo e procuro fazer o melhor uso possível dele, com a saúde em dia. Não tenho do que reclamar. Acho que o tempo tem sido generoso comigo.

O que quer ser quando envelhecer?

Minha alma sempre foi velha. Nunca fui da Coca-Cola, da rave. Sempre achei que já nasci velha. Então, a minha alma vai encontrar meu corpo, na minha idade física. Vou ficar dando aula, fazendo tricô, tocando violão, tipo a Dona Canô, a mãe da Bethânia e do Caetano. Curtindo a vida. Feliz.

Gostava mais quando era criança. Na vida adulta… Sempre é um dia muito atípico, com um monte de recado, um monte de bilhete. É um dia, digamos, intenso. Antigamente, ficava envergonhada quando fazia aniversário em dia de show. Na segunda música, a plateia já começava a cantar “Parabéns”. Aprendi que é melhor botar a banda para tocar de uma vez e todo mundo cantar junto logo para conseguir seguir com o show.

Qual o futuro da música no Brasil?

Responder sem bola de cristal? (risos). Tenho certeza de que a produção musical brasileira vai continuar vibrante, intensa, para todos os tipos de gente. Acho que a música vai sobrevivendo às tecnologias, às mudanças sociais e culturais. E vai continuar sendo uma paixão nacional.

Quem você tem escutado dos novos?

Difícil listar sem correr o risco de esquecer de alguém. Mas eu gosto de Ana Frango Elétrico, da Dora Morelenbaum, da Júlia Mestre, que é da Bala Desejo com a Dora. O João Gomes é maravilhoso. A Alice Caymmy. Tem muita gente bacana por aí. O Rubel é um grande compositor.

Você já afirmou que “para ser cigarra, tive que ser muito formiga”. Qual o conselho daria para jovens cantoras?

Essa frase “para ser cigarra, tive que ser muito formiga” é quase um manifesto íntimo. A cigarra encanta, canta, é a imagem da leveza, mas para que o canto seja livre, há muito esforço que não se vê. E isso tem tudo a ver com ser mulher, com fazer arte e seguir trabalhando todos os dias em um país onde a cultura muitas vezes é desvalorizada, e onde tantas de nós acumulamos jornadas no palco, em casa, nos afetos, nos cuidados com o corpo, com a mente, com a dignidade. A voz e arte sempre deram sentido à minha existência. Às jovens cantoras, eu diria, antes de tudo: respeite seu tempo e a si mesmo. Não se apresse em se moldar a um formato ou a uma expectativa que não seja sua. Descubra quem você é, escute seu coração e o que você tem a dizer, e cante a partir disso. A voz da gente não é só som: é história, é vivência, é escolha. Estude, escute, cultive referências diversas, mas nunca abra mão da sua verdade. O caminho artístico é feito de muitas renúncias, mas também de grandes encontros. A arte não é sobre perfeição, é sobre expressão e identidade. A arte tem o poder de transformar o mundo, mas precisa começar transformando quem a faz. A música me transformou em quem eu sou.

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