No comando do Einstein Hospital Israelita, que acaba de completar 70 anos em São Paulo, o cirurgião Sidney Klajner transformou a prestigiosa instituição. Entre as grandes inovações, incorporou protocolos para criar tecnologias de ponta na medicina e democratizá-las, abriu espaços para desvendar o impacto das mudanças climáticas na saúde. Em homenagem aos 100 anos do GLOBO, Klajner enumerou os 7 maiores desafios na saúde do país para o próximo século.
A poluição provoca cerca de 5,1 milhões de mortes por doenças cardiovasculares no mundo. O aquecimento global impulsiona doenças tropicais, desnutrição e fenômenos climáticos extremos. O desafio óbvio (embora difícil) é conter os estragos ao meio ambiente com medidas ancoradas na ciência.
Porém, também precisamos preparar os sistemas de saúde para responder aos riscos das mudanças climáticas, com planos previamente estabelecidos em caso de emergência, serviços de monitoramento, ajustes na infraestrutura… Nas Américas, 67% das instalações de saúde estão em áreas de risco de desastres climáticos.
Daí a importância de projetos como Veracis, que o Einstein realiza por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS), em conjunto com o Ministério da Saúde. Ele está mapeando questões de saúde ligadas a fatores ambientais no Brasil, com foco em grupos vulneráveis. Ao entender detalhes locais, podemos construir estruturas que antevejam desastres e minimizem suas consequências.
Incorporação responsável de tecnologias emergentes
Atualmente, já aplicamos um tratamento no qual células de defesa do paciente são manipuladas em um laboratório e reaplicadas para destruir o câncer — são as CAR-T Cell. Mas isso não terá um ar futurístico décadas adiante: as terapias avançadas e outras inovações integrarão o cotidiano, principalmente sob o prisma da Medicina de Precisão. O cuidado será altamente personalizado. Por meio de exames genéticos e outros recursos, entenderemos particularidades de cada paciente e, então, delinearemos estratégias individualizadas, inclusive para prevenção de doenças. Não é radical imaginar que, daqui a cem anos, a compreensão do genoma possibilitará a impressão de um órgão praticamente igual ao de uma pessoa que necessita de um transplante, o que traz questões profundas sobre ética e biogenética, aliás.
Isso exige, de um lado, ajustes contínuos na estrutura. Os hospitais do próximo século serão versáteis. Do outro, uma governança rígida para usar quaisquer recursos quando realmente trazem benefícios. Só a infusão da CAR-T Cell custa cerca de 500 mil dólares por paciente, embora pesquisas que o Einstein conduza junto ao PROADI-SUS busquem opções nacionais mais acessíveis. Tratamentos personalizados também passam por decidir o que não oferecer a você.
Mas governança é mais do que isso: o uso ético de ferramentas como a edição genética e a inteligência artificial (o que aqui no Einstein costumamos denominar inteligência ampliada, já que expande a capacidade humana) precisarão ser debatidos para chegarmos a consensos que nos permitam avançar com segurança.
As próximas décadas exigirão, portanto, uma navegação hábil entre a busca pelo novo e a garantia de um uso racional e seguro. Quando criamos a área de big data analytics e inteligência ampliada no Einstein, em 2016, não sabíamos concretamente quais seriam os resultados. Mas vislumbramos um futuro e o colocamos à prova. Hoje, temos mais de cem algoritmos em operação, o que aumentou a eficiência e a qualidade do atendimento. O detalhe é que desenvolvemos uma estrutura capaz de avaliar cada algoritmo, inclusive pela ótica da ética e da diversidade e inclusão. E fizemos o mesmo para cirurgia robótica, telemedicina etc.
Fortalecer ambientes seguros de inovação otimiza o sistema de saúde, especialmente se criarmos mecanismos para que as boas inovações se espraiem rapidamente para o sistema público.
Criação de uma gestão integrada e racional do sistema de saúde
O financiamento do sistema muitas vezes é abordado sob uma ótica simplista, focada somente na necessidade de mais e mais recursos. Para equilibrar as contas e melhorar o cuidado, deve-se investir em excelência operacional.
Um ponto de partida é coletar dados sobre a população e consolidá-los em sistemas interconectados, para que os gestores enxerguem os desafios prioritários. O Einstein, por exemplo, comanda projetos via PROADI-SUS como o Data Initiative for Analytics (DIAna), que vem ajudando a criar uma plataforma com alta disponibilidade de dados na rede pública. Isso vai de informações sobre vacinas a dados sobre autorização de procedimentos laboratoriais.
A partir dessa base, dá para estruturar um sistema de saúde bem coordenado entre os tipos de atenção — a primária, a secundária, a terciária e a quartenária. A lógica é dividir os investimentos de forma equilibrada entre estados e municípios, de acordo com as necessidades. Certos países da Europa, como Holanda e Dinamarca, já vivem esse “futuro”.
Mais do que isso, uma gestão correta usa os recursos mais efetivos para ampliar o atendimento com qualidade. Às vezes, isso passa pela telemedicina. Às vezes, por implantar sistemas digitais que controlem a agenda dos serviços. E, em muitas situações, envolve políticas públicas como as que visam atrair e formar profissionais de acordo com necessidades locais, até para evitar uma alta concentração em poucas regiões e vazios assistenciais em outras.
Formação e mecanismos adequados para constante atualização de profissionais e infraestrutura apropriada
Sempre digo que um médico não será substituído pela tecnologia, mas por outro que saiba lidar com ela. Estimular a adoção de novas práticas exige uma formação que inclua processos de inovação e temas quentes, como ciência de dados, segurança da informação e sustentabilidade. É fundamental garantir que graduações e outros cursos se atualizem constantemente, a partir desse conhecimento sistêmico da saúde.
Ao mesmo tempo, organizações de ensino devem estar antenadas para as “novas profissões”. No Einstein, inauguramos em 2021 uma graduação de Engenharia Biomédica, porque dependeremos de pessoas com essa formação para atuar com robôs cirúrgicos, bioimpressoras… O hospital do próximo século terá mais trabalhadores de fora das ciências da saúde — e mais profissionais de saúde com noções de TI e física.
Investimentos para remodelar a infraestrutura também serão essenciais. Melhorar o acesso à internet de qualidade facilitará os cuidados via telemedicina, ao mesmo tempo que possibilitará cirurgias a distância, duas práticas capazes de aumentar o acesso à saúde. Sim, teremos cirurgias com um paciente em um lugar e o médico a quilômetros comandando braços robóticos, mas a escalabilidade disso dependerá da instalação de antenas e outras tecnologias que levem conexões potentes por todo o globo.
Vigilância contra as futuras pandemias
Novos vírus surgirão com mais frequência, incitados pelo desmatamento e pela migração climática, entre outros fatores. Com a Covid-19, ficou clara a necessidade de não depender de poucos países para a produção de insumos de saúde, de investir em pesquisas, de valorizar a vigilância de patógenos. Mas, cinco anos após o início da pandemia, o Brasil não tem um laboratório de segurança máxima para estudar vírus letais. Verdade que alguns legados permanecem, como o Instituto Todos pela Saúde, que faz um bom trabalho de vigilância epidemiológica, entre outras atividades. Mas precisamos fazer mais, e mais rápido, começando pela capacitação dos profissionais para lidar com essas emergências. As pandemias dos próximos cem anos começam a ser enfrentadas agora.
Promoção de hábitos saudáveis para uma medicina mais preventiva
A prevalência global de diabetes dobrou entre 1990 e 2022. Projeções apontam que 73% da população das Américas terá sobrepeso ou obesidade em 2030. Sobram dados sobre o aumento de doenças crônicas. Mas abordamos a principal maneira de preveni-las — o estilo de vida saudável — sob uma perspectiva individual.
Há evidências de que viver em um local seguro e com disponibilidade de parques aumenta a chance de praticar atividades físicas. Para fomentar hábitos saudáveis, um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) defende uma abordagem integrada, que inclua mudanças em setores como transporte e planejamento urbano, em vez de seguirmos apontando a falta de vontade individual como fator preponderante. Temos o papel, enquanto cidadãos, de buscar mais a atenção primária, com visitas frequentes ao médico para prevenir doenças. Porém, também devemos pressionar os governantes para que materializem cidades que nos permitam ser saudáveis.
Combate à desinformação em ciência e a promoção da educação
Movimentos negacionistas ganharam espaço, ao ponto de, após uma pandemia, o Brasil apresentar baixas taxas de vacinação para influenza — por volta de 41% do público-alvo, segundo o Ministério da Saúde. Se oferecem potencial, as redes sociais aceleram a difusão de notícias falsas, que geram confusão e comprometem políticas de saúde. Superar esse ambiente propício à desinformação exige uma formação dos profissionais de saúde que contemple uma boa comunicação com o paciente. E, sobretudo, de uma aliança entre ciência, educação, plataformas digitais, políticas públicas e mídia.
*Em depoimento a Adriana Dias Lopes