Se você tem redes sociais e se interessa por qualquer conteúdo sobre boa forma e saúde, os algoritmos já te convenceram: o treino virou trend. É absolutamente impossível não ser impactado por diversos influencers — muitos deles professores, outros nem tanto — dispostos a oferecer um estilo de vida em que o shape está acessível a todos os que estão comprometidos com uma mudança. Só no YouTube, o volume de vídeos de fitness cresceu mais de cinco vezes em 2020, ano em que a pandemia disparou gatilhos universais de saúde mental e física.
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Tem mais. É cada vez mais comum o uso de apps que acompanham batimentos, redes sociais que conectam corredores do mundo inteiro (inclusive para encontrar o amor), e se proliferaram ecossistemas digitais que analisam e otimizam a nutrição, a performance e o estilo de vida.
A partir daí, cursos e produtos são oferecidos para você tornar sua imagem mais vencedora ou sedutora, seja no Instagram, nos apps de paquera ou mesmo em redes corporativas, como o LinkedIn. Quem trabalha com marcas e tendências de mercado já compreendeu muito bem isso.
Para Patrícia Barão, professora do MBA online de Marketing da FAAP (Fundação Álvares Penteado, de São Paulo), o treino deixou de ser um momento isolado para se tornar uma camada de identidade. Uma extensão de quem a gente é e do que comunica para o mundo. Em um contexto em que mais pessoas buscam hubs para compartilhar seus valores e interesses e mostrar tudo o que sabem dentro desse aspecto, o esporte passou a preencher muitos desses quesitos.
— Cuidar de si passou a ser sinônimo de disciplina, e aí escolher uma refeição ou completar uma corrida deixa de ser apenas uma ação individual. É um gesto social, que afirma categoricamente com quem você se parece e o que você valoriza. A prática esportiva virou uma infraestrutura simbólica: é o que organiza a vida, o que orienta o consumo, o que ativa conversas ao gerar conteúdo e circular com alguma autoridade entre comunidades que compartilham códigos de estilo de vida — afirma Patrícia, que também fundou a agência de estratégia e conteúdo Hey B.
A professora observa que o corpo virou uma espécie de projeto, destacando que os executivos, por exemplo, formam hoje um dos grupos que mais se levam a sério como atletas. No Brasil, o perfil predominante no triatlo é composto por homens entre 30 e 40 anos, empregados, com boa renda e formação superior.
— Deixou de ser apenas um exercício: na verdade, transferiu-se para o corpo a mesma lógica da gestão, com planilhas, métricas, progresso, cumprimento de metas. Ironman, provas longas, treinos duas vezes ao dia. Dentro dessa lógica, o triatlo virou o novo MBA — diz Patrícia.
É lógico que nem todo mundo tem acesso a esse tipo de rotina, e muita gente recorre até a fraudes em apps de treino para fazer crer que tem uma grande dedicação ao exercício. Mas a maior ajuda, ou ao menos a mais honesta, parece ter vindo da moda. O crescimento do athleisure, tendência de moda que combina peças esportivas com roupas casuais, fez com que a roupa de treino se transformasse em uniforme de trabalho e, assim, até quem não treina o tempo todo consegue projetar a ideia de que todo dia consegue investir seus 45 minutos de movimento intenso.
— E isso importa, porque traduz o desejo de se mostrar em movimento, produtivo, saudável, funcional. Mesmo que a realidade nem sempre acompanhe. Além disso, mostra um determinado status. Se você pode andar com a roupa de academia o dia inteiro, você chegou lá, você controla seu tempo — observa Patrícia, destacando que o mercado global do setor girou cerca de US$ 300 bilhões em 2023, podendo mais que dobrar, ultrapassando US$ 700 bilhões até 2032.
Para Márcio Atalla, colunista do GLOBO e um dos principais divulgadores da necessidade de bem-estar e saúde do Brasil, é indiscutível que mais gente recebeu a informação de que ter saúde é importante em um contexto no qual a longevidade aumentou. Passar os últimos 20 anos da vida com total independência tornou-se uma necessidade, e a maioria das pessoas já tem consciência de que isso depende dos exercícios.
O problema, para o educador físico, é que vivemos um tremendo paradoxo: os números não acompanham o boom de informação e estímulos em redes sociais. Para Atalla, a percepção de que as pessoas estão fazendo mais exercícios é enganosa
— É o que eu chamo de paradoxo do bem-estar. Nunca tivemos tanta informação, mas 75% dos brasileiros não atingem o mínimo de movimento necessário. Nunca tivemos tanta informação sobre alimentação, e o Brasil tem 68% da população acima do peso e 72% das pessoas relatam dormir mal, apesar de tudo o que já se divulgou sobre a importância do sono.
Transformar essa realidade, para Atalla, passa por políticas públicas que conectem desde o urbanismo — a fim de integrar o exercício físico às rotinas de deslocamento, como, por exemplo, o uso de bicicleta em Amsterdã e Copenhague — a mecanismos de recompensa.
Ele cita Seul, capital da Coreia do Sul, em que, à medida que o cidadão se engaja nesses programas de qualidade de vida, passa a pagar menos pelo plano de saúde, ganhando direito a exames gratuitos.
— Mas não adianta ser só a premiação, tem muita educação ali, tem uma política que vem desde a década de 1970. Então, esperar que, por si só, o ser humano, o indivíduo, tome essa decisão, é algo que vai dar certo apenas para uma minoria mais favorecida, não só na questão econômica mas também na quantidade de tempo de que pode dispor.
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Pedro Paulo Amorim tem 34 anos, mora no bairro de Maria da Graça, na Zona Norte carioca, e já se tornou uma marca de inspiração para quem vive, treina e sobrevive no Rio: Treinador PP, que já soma 538 mil seguidores no Instagram. Não se trata, porém, de mais um coach de alta performance vendendo planilhas de corrida com promessas de milagre em três semanas.
Apesar de ter formação em Educação Física, PP é outra coisa: é um contador de histórias em movimento. Um sujeito que correu porque precisava, que descobriu que gostava disso — e que convidou as pessoas a entenderem melhor a cidade e como ela, mesmo não sendo a ideal, ainda pode ser funcional. De quebra, ainda popularizou um bordão simples: “Correr é bom demais!”.
Foi num momento de crise, há dois anos, ainda durante a gravidez de sua mulher, Camila, que PP calçou o tênis para “esfriar a cabeça” depois de uma discussão, saindo de casa perto das 3h da manhã:
— Ela me deu uma bicuda na perna, dizendo que eu tinha batido com o braço na barriga dela, e eu saí correndo para não me estressar. Só que eu acabei levando o celular comigo, coisa que eu nunca faço. E filmei.
Correu de Maria da Graça até o Estádio Nilton Santos, casa do Botafogo do seu coração. Filmado o trajeto, postou.
— Essa postagem teve um resultado muito diferente dos outros. Meus próprios alunos disseram: “Pô, só vim treinar hoje por causa do seu vídeo” — conta ele, que retomou assim outro velho hábito, ainda da época dos primeiros estágios como professor: o de driblar as agruras do trânsito no transporte coletivo por meio da corrida, encurtando espaços e potencializando a própria saúde.
Hoje ele se vê como um influenciador que não planejou ser. Um sujeito que superou questões de saúde mental durante a pandemia — com um par de tênis de menos de R$ 400, o que ainda não mudou — e que hoje consegue parcerias e patrocínios para seu próprio sustento, mas que também se deixa alimentar pelo carinho que recebe de seus seguidores:
— Tem dias que eu não posto nada. Aí recebo uma mensagem bonita, dessas que mexem com a gente. Penso: tem alguém que vai levantar da cama porque viu um vídeo meu. Então, eu posto.
PP tem traços bastante curiosos, que vão na contramão do corredor planilheiro que as redes sociais e as plataformas de corrida consagraram. Quando indagado sobre sua distância preferida, responde simplesmente que pensa mais em tempo de prática:
— Gosto de correr entre uma hora e uma hora e meia. Até duas horas vou bem, sem hidratação. Depois disso é só desgraça.
Mas é no cenário que esse tempo se revela muito precioso. Em sua conta de Instagram (@treinadorpp), ele documenta uma geografia alternativa do Rio. Sua trilha preferida na cidade é a que leva ao Morro da Urca, a partir da pista Cláudio Coutinho. Para PP, o fato de poder subir por dez minutos e chegar de graça a um ponto turístico, no primeiro patamar do bondinho, torna esse caminho democrático. Mas, descartados os cartões postais, a corrida raiz de que mais gosta é a que acompanha parte do metrô.
— A linha 2, da Pavuna até a Cidade Nova, é incrível. Você passa por lugares que ninguém imagina, sente o pulso da cidade de outro jeito. E outra coisa que eu gosto demais é sair da estação Uruguai, subir o Alto da Boa Vista e chegar até a estação do Jardim Oceânico. Para quem nunca correu, vai precisar de um dia, mas aquilo tudo é bonito demais.
Mas há locais também percorridos por PP em que o Rio se revela charmoso e brutal ao mesmo tempo. Ele conta, sem situar o lugar, que certa vez, na madrugada, foi reconhecido por um integrante de um grupo armado.
— Vinha passando aquele bonde cheio de gente e o último cara me reconheceu, pediu para tirar foto. Foi assustador. Mas é isso… Eu sou só um cara que corre. E só isso — diz PP, como uma espertíssima cria de Maria da Graça e de tantos outros lugares onde o carioca aprende desde cedo a gerir seus próprios riscos na marra. E responde categoricamente quando indagado se haveria um lugar em que ele não correria:
— Não existe. Tudo depende da hora, do clima, do corpo, da intuição.
Ainda assim, ele denuncia a precariedade urbana que dificulta a vida de quem quer apenas correr. Se pudesse mudar algo nos trajetos por que passa na Zona Norte, no Centro e na Zona Oeste, é a falta de espaço para o corredor. Aponta que as calçadas são ruins, e o trânsito, hostil. Não há educação para dividir a rua com quem corre ou pedala.
PP diz que não monetiza os treinos. Dá assistência gratuita a antigos alunos, enquanto afirma que seu foco mudou: quer desenvolver projetos voltados a quem está começando:
— Muita gente chega sem saber o que está sentindo, o que está acontecendo com o próprio corpo. Quero explicar o processo, ensinar como mente e corpo evoluem juntos.
Com Camila, sua parceira de vida — e agora também de corridas esporádicas —, e o filho Lucas, hoje com um ano e oito meses, Pedro Paulo leva adiante a missão de inspirar. Ele ainda não se vê como uma espécie de embaixador do Rio, nem mesmo depois de ter arrastado uma bela parcela da torcida do Botafogo numa corrida pelas ruas de Buenos Aires, à época da conquista da Copa Libertadores da América do ano passado:
— Que embaixador nada. Mas acabou que eu influenciei um pouquinho de gente, sim.
Márvio dos Anjos foi editor de esportes do GLOBO