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duas histórias do Acervo O GLOBO

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julho 28, 2025
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Noite do Beijo: manifestação contra portaria do juiz Manoel Morales, que proibiu o beijo em locais públicos de Sorocaba — Foto: Arquivo O Globo

A bailarina Yone Viegas, de 33 anos, chegou em casa de madrugada com o namorado Augusto Lima Fontes Júnior, e os dois foram para o quarto dela. De manhã cedo, os irmãos de Yone, achando aquela situação uma “pouca vergonha”, começaram a bater na porta da moça, decididos a estragar o momento dos namorados. Como o casal se recusava a abrir, eles resolveram, por mais incrível que pareça, chamar a polícia.

Por volta das 10h30 daquela sexta-feira, 4 de setembro de 1981, uma patrulha da PM estacionou diante do prédio, na Rua Santa Clara, em Copacabana, atraindo uma porção de curiosos. Os agentes foram ao apartamento no sétimo andar e bateram no quarto, mas Yone não quis saber, estava irredutível, cheia de razão, e ainda ameaçou se jogar da janela se começassem a forçar a porta para abri-la.

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Sem saber como proceder diante daquela situação inusitada, mas já envolvidos e temendo que uma simples noite de amor entre dois adultos terminasse com uma tragédia, os policiais decidiram chamar… os bombeiros.

Minutos mais tarde, quando a guarnição de socorristas chegou com a sirene ligada nas alturas, mais de 200 pessoas se juntaram em frente ao edifício. De acordo com a edição do Jornal O GLOBO no dia seguinte, era tanta gente reunida na porta do prédio querendo saber o que estava acontecendo que a multidão fechou a rua, gerando um “engarrafamento de quase duas horas”.

Como os bombeiros também não convenceram o casal a abrir a porta, eles tiveram a ideia “genial” de entrar pela janela, descendo de rapel por uma corda presa no andar de cima. Foi um show para quem estava lá embaixo, mas, quando o socorrista alcançou o sétimo andar, Yone e Augusto já tinham saído do quarto, por insistência de um PM que usara toda sua “lábia” para persuadir os namorados.

Ao deixar o prédio, o casal esbanjava bom humor. Mesmo depois de ter as mãos algemadas, sem entender que crime ele havia cometido, Augusto sorria ao lado de Yone, que, fazendo passos de balé, dizia sem nenhum pudor: “Tirem muitas fotos!”. Antes de entrar na viatura, a bailarina puxou o amado e deu nele um beijo de cinema que só foi interrompido pelos empurrões dos policiais.

O casal ainda foi trocando amassos no banco de trás da patrulha até chegar na delegacia, onde um inspetor um pouco mais sensível mandou deixá-los numa sala sozinhos. “Mas não pode fotografar. Depois vão dizer que permitimos isso aqui na delegacia”, disse o agente, com um sorriso de canto de boca.

Minutos depois, chegaram à unidade os dois irmãos da “suspeita”, um tanto arrependidos, pedindo para Yvone não ser processada. Mas nem precisava pedir. O detetive encarregado do caso na delegacia já decidira que não estava diante de um crime, mas apenas uma história de amor entre dois adultos. “A moça é maior de idade e leva para casa quem ela quiser”, disse o policial, decretando o final feliz do episódio.

Mas Yone ficou uma fera com os irmãos. “Eles desrespeitaram minha individualidade”, disse ela. Antes de o casal ser liberado, os dois tiveram de ouvir uma bronca do delegado. “Da próxima vez, você abre a porta. Ou os irmãos apresentam queixa e você pode ser preso”, disse para Augusto. O rapaz ficou calado, mas Yone rebateu com ironia: “Que ótimo! Já imaginou a lua de mel no xadrez, sem ninguém para perturbar?”.

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  • Há beijos que são ‘libidinosos’
      • duas histórias do Acervo O GLOBO

Há beijos que são ‘libidinosos’

O romance de Yvone e Augusto não foi o único a provocar desconforto naquele ano. Meses antes, O GLOBO já tinha informado seus leitores sobre uma ordem judicial bastante autoritária, mesmo para os padrões do período da ditadura militar, que proibira beijos “obscenos” em Sorocaba, no interior de São Paulo.

“Beijos há que são libidinosos e, portanto, obscenos, como o beijo no pescoço, nas partes pudendas e etc., e como o beijo cinematográfico, em que mucosas labiais se unem numa insofismável expansão de sensualidade”.

Com essas palavras, o juiz substituto Manoel Morales justificava uma portaria, editada pelo magistrado em fevereiro de 1981, na qual ele simplesmente proibia casais de beijar na boca em locais públicos de Sorocaba, município paulista com, então, cerca de 270 mil habitantes.

Noite do Beijo: manifestação contra portaria do juiz Manoel Morales, que proibiu o beijo em locais públicos de Sorocaba — Foto: Arquivo O Globo

O país estava nos anos finais da ditadura. Era um período em que a população começava a reconquistar liberdades individuais que haviam sido suspensas pelos militares durante os anos de chumbo. Portanto, aquela decisão, sem base nem mesmo na Constituição de 1967, promulgada pelos generais, provocou reação popular imediata.

O movimento secundarista, que havia recuperado força com a flexibilização política, começou a organizar um protesto no centro de Sorocaba. Batizada de “Noite do beijo”, a manifestação contaria com apresentações musicais e teatrais de artistas amadores, além de dezenas de cartazes com palavras de ordem e, claro, muitos beijos na boca. Contudo, o ato, ocorrido no dia 8 de fevereiro de 1981, terminou em confronto com a polícia e tumulto generalizado nas ruas.

“Os organizadores acharam que haveria algo em torno de 30 pessoas, mas apareceram milhares. Um protesto daquele tamanho era algo inédito na história da cidade”, contou, em uma entrevista recente ao Blog do Acervo, o hoje professor Henrique Soares Carneiro, da Faculdade de História da Universidade de São Paulo (USP), que participou do protesto. “Para conter a manifestação, vieram policiais de tropas de choque até de cidades vizinhas. Houve repressão, e as pessoas reagiram, dando início a enfrentamento e correria. O tumulto só foi dispersado de madrugada”.

Na sua infame portaria, o juiz Morales determinava que quem desrespeitasse a proibição deveria ser processado criminalmente. Até policiais criticaram, afirmando que a medida enfraqueceria os esforços para coibir crimes de verdade. No ato de 8 de fevereiro, as pessoas demonstravam sua revolta exibindo cartazes com frases e dizeres como “Beijem-se. Sejam criminosos!” e aos gritos de: “Mais beijo, mais pão, abaixo a repressão!”.

“O episódio mostrou o esgotamento popular com a repressão. Quando se fala em ditadura militar, muita gente pensa em fechamento do Congresso, de sindicatos… Mas o pior da ditadura é a relação com o guarda da esquina”, analisou Carneiro, que, em 1981, era presidente da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (Upes). “Naquele caso, o autoritarismo chegou ao ponto de proibir beijos em locais públicos. Era a expressão de uma ditadura que tentava controlar a vida cotidiana”.

Até por volta das 20h, havia poucas pessoas reunidas na Praça Coronel Fernando Prestes, no centro de Sorocaba. Jovens circulavam com esparadrapos colados na boca, enquanto grupos cercavam casais gritando “Beija! Beija!”. Quando verificaram que a aparelhagem de som não estava funcionando, as apresentações artísticas foram canceladas, e os organizadores optaram por começar uma passeata.

Enquanto os manifestantes gritavam críticas contra o então governador de São Paulo, Paulo Maluf, e o então presidente da República, João Figueiredo, cada vez mais pessoas aderiam à caminhada, que acabou se tornando um grande protesto com cerca de 5 mil pessoas. De acordo com a edição do GLOBO do dia 9 de fevereiro, o clima começou a ficar pesado quando um automóvel Chevette investiu contra a multidão, atropelando algumas pessoas que estavam participando da manifestação de forma pacífica.

Quando a passeata chegou ao Largo do Rosário, os organizadores, temendo perder o controle da situação, tentaram encerrar o ato. Mas era tarde demais. Muita gente decidiu voltar à praça, que, então, foi tomada por milhares de manifestantes. Ainda segundo o jornal, uma viatura foi atingida por uma pedra em seu para-brisa, e os policiais militares revidaram espancando algumas pessoas. A multidão, por sua vez, partiu para cima do efetivo de soldados, que havia recebido um reforço de 60 homens. Teve início um tumulto generalizado, que só acabou por volta de 1h da madrugada.

Diversas pessoas foram detidas, e algumas ficaram feridas. As autoridades ameaçaram usar a Lei de Segurança Nacional contra os líderes da manifestação. Mas, com o passar do tempo, os ânimos se esfriaram, e a portaria de Morales foi extinta.

Em 2009, o ex-líder secundarista Carlos Batistella, um dos principais organizadores do protesto, lançou o livro “Noite do Beijo”, com o seu relato sobre a histórica manifestação. Em 2016, estreou o documentário “Noite do beijo — Ontem e hoje”, realizado pelo professor universitário e cineasta Bruno Lottelli.

– É um registro político-afetivo dos movimentos de juventude de Sorocaba, a partir da mítica “Noite do Beijo”. A importância é investigar as relações corpo e espaço público e transformações sociais – comenta Lottelli. – A importância do resgate é no sentido de construção social, mostrar forças e apontar caminhos coletivos de forma saudável.

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