Bob Marley já tinha status de astro internacional quando chegou ao Brasil, em 1980, para uma visita de dois dias no Rio. Aos 35 anos, o ícone do reggae veio à cidade para participar da festa de lançamento da gravadora Ariola, no Morro da Urca. Durante aquela que foi sua única passagem pelo país, onde era mais conhecido pelo megahit “No woman, no cry”, o jamaicano não fez nenhum show, mas exibiu suas limitadas habilidades futebolísticas em um histórico jogo no campo do time Polytheama, do compositor Chico Buarque (então artista da Ariola), na Barra da Tijuca.
Com artistas como Moraes Moreira e Toquinho, a pelada teve ainda a adesão do então craque da seleção brasileira Paulo Cézar Caju, que a estrela do reggae ficou feliz de conhecer.
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Autor de sucessos como “Exodus” e “I shot the sheriff”, o astro jamaicano foi embora pensando em voltar para fazer um show, o que nunca aconteceu. Pouco mais de um ano após sua passagem pelo Brasil, em maio de 1981, ele morreu vítima de um câncer diagnosticado em 1977.
“O samba e o reggae são a mesma coisa, têm o mesmo sentimento de raízes africanas”, disse o músico ao chegar na cidade, no dia 18 de março de 1980.
Chamado pela imprensa nacional de “rei do reggae rock”, Marley interrompeu as gravações do disco “Uprising” e embarcou em um jato particular de Londres, onde morava, para o Brasil. A aeronave pousou primeiramente em Manaus, no Amazonas. Seria uma parada só de reabastecimento, mas houve momentos de tensão com a Polícia Federal. A ditadura não estava confortável com a chegada do cantor, militante do pan-africanismo e da legalização da maconha. Após horas de negociação, o avião foi liberado, mas os agentes não concederam visto de trabalho ao cantor, que, portanto, não poderia se apresentar no país, sob risco de prisão.
Marley chegou ao Aeroporto Santos Dumont por volta das 18h30 de uma terça-feira. Na comitiva do jamaicano estavam Jacob Miller, cantor da banda Inner Circle; o guitarrista Junior Marvin, dos Wailers, banda que acompanhava Marley; o produtor Chris Blackwell, fundador da Island Records, e a atriz e modelo Nathalie Delon, ex-mulher do ator Alan Delon. Marley e sua trupe se hospedaram no Copacabana Palace. No dia seguinte, ele deu umas voltas pela cidade. Diz-se que foi à Rocinha, mas imagens ou relatos são difíceis de encontrar.
Mesmo que já fosse uma estrela internacional, o cantor não era muito conhecido por aqui, então pôde circular sem assédio de fãs. Ele caminhou pelo calçadão de Copacabana e cantarolou enquanto bebia um suco num restaurante local. De acordo com a edição de 20 de março de 1980 do GLOBO, Marley e seus amigos compraram US$ 1 mil em equipamentos de esporte para levar à Jamaica, além de violão, cuíca, atabaques e maracas. Como o grupo veio ao Brasil sem um cozinheiro para preparar refeições I-tal, comida própria para o consumo de adeptos da religião rastafári, Marley se alimentou só de sucos e frutas (disse, aliás, que adorou manga e maracujá).
O músico chegou ao campo do Polytheama, no KM 18 da Avenida Sernambetiba, na Barra, por volta das 16h de uma quarta-feira. O atraso de quase três horas não tirou o ânimo dos participantes que esperavam para estar em campo com o jamaicano, que tinha paixão declarada pelo futebol brasileiro.
“Rivelino, Jairzinho, Pelé… O Brasil é o meu time. A Jamaica gosta de futebol por causa do Brasil”, comentou o artista ainda no vestiário, onde trocou a camiseta com a inscrição “Copacabana, Rio, Brasil” pela camisa da gravadora que estava sendo lançada no país.
Reverência a Pelé e Caju
A partida durou 20 minutos. Em um time, estavam Marley, Toquinho, Paulo Cézar Caju, Junior Marvin, Jacob Miler e Chico Buarque. No outro, jogaram Alceu Valença, o músico Chicão e funcionários da Ariola. O placar ficou em 3 a 0 para o elenco do jamaicano, com gols dele próprio, de Chico e de Caju. Marley ganhou uma camisa 10 do Santos e abriu um grande sorriso, reconhecendo o uniforme e o número do rei Pelé.
Depois, o artista disse aos jornalistas que, de música brasileira, só conhecia mesmo Gilberto Gil, que havia regravado “No woman, no cry” como “Não chores mais”. O mito contou ainda que estava feliz por ter sido apresentado a Caju, que já tinha visto nos jogos da seleção pela TV europeia.
Naquela quarta-feira, o lançamento da Ariola nas Noites Cariocas levou cerca de 800 convidados ao Morro da Urca, com apresentações de músicos como Moraes Moreira e Baby Consuelo (hoje, Baby do Brasil). Havia muita expectativa para uma performance surpresa de Marley, mas a polícia estava no local, e ele e sua equipe temiam que o astro fosse preso caso subisse ao palco, já que não obtivera o visto. O jamaicano conversou com algumas pessoas, mas foi embora sem a tão esperada canja.
O produtor Marco Mazzola chegou a propor o retorno de Marley para um show, mas a saúde do músico se deteriorou devido ao melanoma detectado anos antes. Ele morreu em 1981, aos 36 anos, em Miami, onde foi hospitalizado, quando estava a caminho da Jamaica natal.
O último álbum, “Uprising”, lançado um ano antes, carregou um pouco de brasilidade: o megahit “Could you be loved” foi composto na volta do Rio para Londres e tinha entre os instrumentos usados na gravação a cuíca comprada na viagem.
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