O mundo inteiro o conhece como Richie, o ríspido e pragmático (mas adorável) “primo” em “O Urso” (disponível no Disney+), uma das séries mais premiadas e relevantes dos últimos anos. No entanto, muito antes de vestir o avental de cozinha (posteriormente trocado pelo terno impecável por conta da mudança de cargo do personagem, que nas últimas temporadas atuou como maître), Ebon Moss-Bachrach vinha construindo uma carreira firme e estável que hoje já soma quase 25 anos. Seus personagens, complexos e emocionalmente intensos, lhe renderam não apenas alguns prêmios e elogios da crítica, mas também o respeito e a admiração de seus colegas.
- ‘Quarteto fantástico: primeiros passos’, com Pedro Pascal, acerta ao unir nostalgia e ambientação retrô, diz crítico
- Oscar Niemeyer no universo da Marvel? Novo filme do ‘Quarteto Fantástico’ tem prédio inspirado em obras do arquiteto brasileiro; entenda
Quem entende do riscado define seu estilo de atuação como “visceral”, “introspectivo” e “profundamente humano”. A verdade é que, ao longo da sua carreira, o ator deu um jeito de fazer com que seus papéis secundários roubassem a cena e até mesmo ofuscassem os protagonistas.
“Sempre fiz o que quis. Nunca tive aquela vontade de ficar rico ou famoso ou algo do tipo. Tudo bem que agora sou mais reconhecido, mas nunca me perguntei quando seria a minha vez”, confessa o vencedor de dois prêmios Emmy em uma entrevista à GQ.
Foram necessários mais de vinte anos, e vários trabalhos, para que o nome de Bachrach estivesse na boca de todos. Na verdade, no momento o ator está em cartaz em dose dupla: nas telinhas, acaba de voltar ao streaming com a quarta temporada da série do Disney+, mas também está presente nas telonas com “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos”, novo filme do universo Marvel protagonizado por Pedro Pascal, Vanessa Kirby e Joseph Quinn, além de Ebon.
Sua história pessoal e artística é tão rica quanto os pratos servidos no restaurante que o catapultou à fama. Nascido em 19 de março de 1977, em Nova York, Ebon Moss-Bachrach cresceu entre livros e música. Seu pai dirigia uma escola comunitária de música e sua mãe tinha uma loja de roupas infantis de segunda mão. Aos 4 anos, deixou a ‘Big Apple’ para passar a maior parte da infância na zona rural do estado de Massachusetts. Ali, passava suas tardes brincando na floresta, andando de bicicleta e tocando piano. No campo, sua paixão pela música também decidiu falar alto, o que o fez formar sua própria banda na adolescência.
Quando chegou a hora de ir para a universidade, Ebon optou por estudar Literatura Inglesa. No entanto, aos 19 anos, conseguiu uma bolsa de verão no Festival de Teatro de Williamstown e descobriu sua verdadeira paixão. “Estava naquele teatro incrível, rodeado de atores e diretores, e ali sim me senti convertido à causa. Pensei que, se pudesse ganhar a vida atuando, construindo, criando e imaginando, faria isso o tempo que pudesse”, revelou à GQ o ator que imediatamente se inscreveu para estudar teatro.
- Uma história centenária em quadrinhos: as tirinhas do jornal O GLOBO
Seus primeiros passos foram no circuito alternativo de Nova York, o que o fez chegar às grandes produções da Broadway. Uma vez consolidado nos palcos, o ator deu um grande salto para o cinema. Seu pequeno papel como o carregador de malas Frederick, em “Os Excêntricos Tenenbaums”, de Wes Anderson e depois como o primo de Kirsten Dunst em “O Sorriso de Mona Lisa” (disponível no Amazon Prime Video) serviram de trampolim para o jogar de vez no mundo do cinema. Na televisão, foi ganhando espaço com participações em séries como “Lei & Ordem” (disponível no Globoplay), “John Adams” (disponível no HBO Max, além do Prime Vídeo e Apple TV+) e “Fronteiras” (no momento indisponível oficialmente no Brasil), mas, sem dúvidas, foi seu papel como Desi em “Girls” (disponível no HBO Max) que começou a lhe dar notoriedade.
A ideia era que aquele músico excêntrico e instável, com quem Marnie (Allison Williams) se casa, participasse apenas de alguns episódios da terceira temporada, porém, sua interpretação causou tanto impacto que acabou ficando até a sexta. Pela primeira vez, o público e os produtores passaram a prestar atenção nele, em seu talento e versatilidade – qualidades que demonstrou ao se juntar ao Universo Marvel para interpretar David Lieberman em “”O Justiceiro” (disponível no Disney+).
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/Y/h/D5gEhMSRaGv0LBrw57IQ/desi-1920.avif)
“No começo, tive anos ruins em que não trabalhei muito. Teve um ano em que trabalhei por um único dia e me perguntava: ‘Ainda posso me considerar ator?’”, lembrou na mesma entrevista à GQ. Naquela época, o ator não imaginava o sucesso que o esperava. “Agora me enviam mais coisas e tenho mais possibilidades de escolher o que quero, mas sempre me senti bem com o que fazia e com o lugar onde estava”, acrescentou.
Apesar de já estar há mais de duas décadas trabalhando na indústria, o fenômeno de “O Urso” foi seu grande salto para a fama. Sua interpretação de Richard “Richie” Jerimovich, um personagem tão explosivo quanto vulnerável, lhe rendeu o aplauso unânime da crítica e dois prêmios Emmy de Melhor Ator Coadjuvante em Comédia. É que, mais uma vez, Ebon Moss-Bachrach conseguiu tornar adorável um personagem secundário que, em outros roteiros, teria sido monótono e insuportável.
- Artigo: A mensagem política de novo ‘Superman’ vai além da Faixa de Gaza
Neste drama da Disney+ ambientado em um restaurante de Chicago, o ator dá vida ao explosivo primo de Carmy (Jeremy Allen White), um chef que assume o negócio da família após o suicídio do irmão Mickey. “Se o roteiro está bem escrito, você sempre se sente melhor. Quando é brilhante, eleva você e faz você se sentir realmente bem”, disse em uma entrevista ao El Mundo sobre essa série que lhe rendeu um novo apelido nas ruas. “Estava no topo de uma pequena montanha nos arredores de Quioto e um casal coreano se aproximou para dizer o quanto gost avam da série. As pessoas gritam ‘Primo!’ o dia inteiro para mim”, contou surpreso em entrevista ao The Guardian.
Apesar da fama, Moss-Bachrach leva uma vida tranquila no Brooklyn ao lado de sua companheira há mais de 20 anos, a fotógrafa ucraniana Yelena Yemchuk, e suas duas filhas, Sasha e Mirabelle. Não costuma dar entrevistas, nem desfilar em tapetes vermelhos; tampouco é muito ativo nas redes sociais. “Tive minha primeira filha quando tinha 28 ou 29 anos, então, quando se supõe que tudo é carreira, carreira, carreira, para mim não era. Eu sustentava minha família e estava sempre presente. Era a alegria da descoberta, da paternidade, de estar perto das minhas meninas”, revelou, deixando claro que sua família sempre foi sua prioridade.
- “Ainda Estou Aqui”: Walter Salles comemora novo prêmio em cerimônia da Academia de Cinema da Argentina
Além do talento como ator, Ebon tem várias habilidades para exibir. É músico (toca muito bem piano), fotógrafo (já exibiu muitas de suas obras em exposições) e muito bom cozinheiro. “Na minha casa sou o chef principal. Um dos meus pratos favoritos do mundo é a tortilla espanhola. Na Espanha eu comia todos os dias e não é algo que as pessoas cozinhem muito nos Estados Unidos. Já fiz centenas, sempre de forma bem tradicional: apenas batatas, cebolas e ovos”, confessou ter o costume de frequentar mercados e feiras, escolher meticulosamente os ingredientes e preparar jantares para os amigos.
O presente de Ebon Moss-Bachrach não poderia ser melhor. Enquanto a quarta temporada de “O Urso” já está disponível na Disney+, nas próximas horas o ator vai interpretar Ben Grimm (“O Coisa”) em “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos”, filme que marca uma virada no Universo Cinematográfico da Marvel (MCU, na sigla em inglês).
“Não vi os filmes anteriores. Quando fui contratado para o papel, não achei que fosse produtivo assisti-los. Realmente estamos fazendo algo específico. Estamos contando nossa própria história. Como qualquer grande obra, você pode fazê-la com quatro pessoas e depois reformulá-la com outras quatro diferentes e continuará sendo a mesma obra, mas com uma experiência completamente diferente”, disse o ator na Comic-Con de San Diego.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/F/o/HVzaeEQSqjWAuRszR79Q/afp-20250722-2226402630-v3-highres-thefantasticfourfirststepsworldpremiere.jpg)
Ambientada em um universo alternativo inspirado nos anos 60, nesta nova versão – protagonizada por Ebon em conjunto com Pedro Pascal, Vanessa Kirby e Joseph Quinn – “O Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” estreia em um ambiente fora da habitual Terra do universo Marvel. A trama apresenta a equipe tentando salvar a Terra em que vivem de Galactus, o lendário devorador de planetas. No entanto, falham na primeira tentativa e precisam buscar ajuda na Terra 616, o universo central onde ocorrem a maioria dos eventos da saga.
Embora essa não seja a primeira vez de Ebon no universo Marvel, o certo é que esse papel significou um grande desafio para ele. Seu personagem, o melhor amigo do Senhor Fantástico Reed Richards (interpretado por Pascal) se transforma em uma criatura com pele de pedra e força sobre-humana. Para interpretá-lo, Ebon não usou nenhuma fantasia, o personagem foi criado por computação gráfica por meio de captura de movimentos, um processo que utiliza sensores e câmeras para registrar cada expressão e movimento do ator, que depois são replicados na versão digital do personagem.
Quem lhe deu uma grande ajuda na hora de construir essa atuação e fazer com que sua criação transmitisse carisma e humanidade foi o colega Mark Ruffalo, alguém que já tinha experiência com esse tipo de metodologia por sua interpretação do Hulk nos outros filmes do MCU. “É algo que nunca havia feito antes. Mark soube da minha insegurança e foi muito generoso. Acompanhou todo o processo”, revelou o ator em tom de agradecimento ao colega.
Em 25 anos, essa é a primeira vez que Ebon Moss-Bachrach terá um papel de protagonismo. No entanto, isso não é algo que o deslumbre. Ao longo da carreira, o ator demonstrou grande habilidade em transformar papéis secundários em inesquecíveis.