Os campos de batalha da Europa e do Oriente Médio colocaram frente a frente adversários de tradição e poder militar díspares. Apesar disso, não foram raras as vezes que atores com capacidades relativas inferiores conseguiram cumprir objetivos estratégicos e — em alguns casos — superar o inimigo, usando de planos táticos pouco ortodoxos e de armas não convencionais. A evolução de cada conflito vem sendo observada ao redor do mundo e já pauta a forma como grandes potências se preparam para as guerras do futuro.
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A adoção de tecnologia militar como drones, a introdução de sistemas com inteligência artificial e uma tendência cada vez maior de robotização na linha de frente, mesmo de forma rudimentar, fazem com que estudiosos apontem que os teatros de operação de Ucrânia a Gaza se tornaram palco de uma revolução militar. Grande parte dessa revolução vem sendo escrita por exércitos e grupos paramilitares de menor peso geopolítico, por meio de obtenção, desenvolvimento e a aplicação desses recursos.
Em nenhum cenário, a disparidade é mais visível do que na margem norte do Estreito de Bab el-Mandeb, que divide o Mar Vermelho e o Golfo de Áden, a partir de onde o grupo rebelde Houthi confronta uma iniciativa internacional de defesa naval liderada pelos EUA. Mesmo sem controle territorial total do Iêmen, que é um dos países mais pobres do mundo, os houthis provocam um distúrbio profundo em uma das principais rotas marítimas do mundo, por onde passam 12% do comércio global.
Municiados majoritariamente com armas iranianas, os rebeldes conseguiram acertar alvos em Israel — país contra o qual iniciou hostilidades em 2023, em solidariedade ao grupo terrorista Hamas — e atacou 70 navios mercantes que disse ligados ao Estado judeu, afundando quatro deles. Os houthis também atacaram navios de guerra americanos, parte da marinha mais poderosa do mundo, usando uma estratégia pouco vista.
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— Os houthis estão fazendo um bloqueio naval, algo que oficiais de marinha estudam a vida toda para fazer, sem usar nenhuma embarcação. É um bloqueio naval por meio de mísseis, foguetes e drones — explicou o professor de Ciências Militares Sandro Teixeira Moita, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme). — Há algum tempo, muitos diriam ser impossível. Estamos diante de algo novo, uma transformação no emprego do poder militar.
Com recursos navais limitados a lanchas rápidas, os houthis recorreram ao arsenal montado com ajuda de Teerã. Militares americanos descreveram uma mudança de perfil nos ataques durante os quase dois anos de conflito, que passaram do emprego de um ou dois mísseis por vez, para enxames de drones, muitas vezes voando quase na linha d’água, mais difíceis de rastrear e abater.
Embora o Comando Central dos EUA (Centcom) afirme que nenhum navio foi diretamente atingido — apesar das reivindicações houthis em contrário— ações rebeldes provocaram prejuízo milionário aos EUA. O porta-aviões USS Harry Truman, enviado para operações na região, perdeu três caças F/A 18 Super Hornet, com custo estimado em US$ 67 milhões cada (R$ 373,6 milhões no câmbio atual). Nenhum deles foi abatido, mas um caiu da embarcação durante manobras evasivas a um ataque houthi em maio. Dois marinheiros americanos morreram ao cair de um barco durante uma abordagem.
A difusão de tecnologias e táticas fora do escopo clássico das forças militares, incluindo a adaptação de recursos civis, não é uma exclusividade houthi. O emprego de equipamentos de baixo custo e que eliminam o risco humano para a força agressora mudou a forma de atacar e de se defender, com um debate sobre uso de recursos ocupando um pilar central.
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— O exemplo das guerras travadas por Israel com Hamas e Hezbollah mostra que quando se fala de capacidades ofensivas baratas e em grande quantidade, os sistemas de defesa antiaérea atuais podem ser superados — afirmou Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais da ESPM e colaborador da Universidade da Força Aérea (Unifa). — O caminho para a defesa contra enxames de drones, tudo indica, será o uso de armas de energia concentrada, como a que Israel está desenvolvendo, pra reduzir a centavos de dólar cada interceptação.

Exército israelense divulga interceptação de drone iraniano
Em maio, as Forças Armadas de Israel revelaram ter usado um sistema de lasers para interceptar dezenas de drones lançados pelo Hezbollah no ano passado. Em junho, a empresa de defesa Rafael apresentou um novo sistema, chamado Raio de Ferro, que afirmou que seria somado aos já existentes Domo de Ferro, Funda de Davi e Flecha, para interceptar projéteis menores, como os veículos não-tripulados, a um custo muito menor. O sistema não corre o risco de ficar sem munição, e precisa apenas de uma fonte de energia constante. O funcionamento, porém, pode ser limitado por condições climáticas adversas, como presença de nuvens densas.
A observação dos conflitos também fez com que capacidades ofensivas fossem repensadas. O Exército americano suspendeu, em fevereiro de 2024, um programa para o desenvolvimento de um novo helicóptero de reconhecimento e ataque para substituir seus AH-64 Apache, após investir mais de US$ 2 bilhões no projeto. À época, o chefe do Estado-Maior do Exército, general Randy George, argumentou que Washington estava “aprendendo com o campo de batalha”, especialmente na Ucrânia, “que o reconhecimento aéreo mudou fundamentalmente”.
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— Sensores e armas montados em uma variedade de sistemas não-tripulados e no espaço estão mais onipresentes, têm maior alcance e são mais baratos do que nunca — disse o general.
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Dois projetos em desenvolvimento pela Força Aérea americana também parecem ter sido diretamente influenciados pela nova realidade: o bombardeiro furtivo B-21 Raider, substituto dos B-2, que poderá operar sem tripulação, e o projeto de caça F-47, considerado pelo Pentágono uma capacidade necessária em caso de um futuro conflito com a China, cujo projeto prevê sua atuação como líder de uma esquadrilha de drones.
Os desdobramentos da guerra na Ucrânia são provavelmente os acompanhados mais de perto pelo resto do mundo, pela integração homem-máquina no front. Embora seja um Estado com Forças Armadas regulares, a Ucrânia tinha um orçamento de Defesa de US$ 6,9 bilhões em 2021 — pouco mais de 1/3 do gasto do Brasil no mesmo ano, e um décimo do total gasto por Moscou, segundo dados do Banco Mundial.
Mesmo com a quantidade massiva de ajuda estrangeira, em dólares e armas, a incorporação de tecnologia civil e soluções encontradas sob a pressão do conflito, em um campo de batalha 24 horas patrulhado por drones, rompeu paradigmas militares que pouco haviam mudado em séculos.
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— Você não tem mais trincheira, naquele formato antigo, com 100 homens. O que existe na Ucrânia são pequenas tocas, com dois homens a uma distância de até 200 metros um do outro, o que impede uma concentração sujeita a grandes danos — disse Moita, que acompanha a guerra desde 2014, quando começou o conflito entre Kiev e separatistas do leste ucraniano apoiados por Moscou, a pedido do Exército.
Apesar do orçamento limitado, o Brasil incorporou alguns aprendizados da Ucrânia, disse o professor. Uma delas é a adoção de um modelo de pequenas unidades militares munidas de mísseis antitanque, a serem acionadas em resposta ao uso de blindados. O Exército criou uma unidade específica em São Paulo e preparou outra unidade em Roraima, contou.