Prática milenar, o esporte nunca se viu tão apoiado pelo que se denomina de ciência aplicada. O alto rendimento recruta médicos, nutricionistas, fisiologistas, fisioterapeutas, psicólogos e profissionais de biomecânica, entre outros. São cada vez mais comuns atletas com carreiras mais duradouras, como o goleiro Fábio, de 44 anos, e o zagueiro Thiago Silva, de 40, que defenderam o Fluminense na Copa do Mundo de Clubes.
Com 44 anos de medicina esportiva (16 de seleção brasileira, inclusive no pentacampeonato mundial na Coreia do Sul e Japão, em 2002), José Luiz Runco, ex-diretor médico do Flamengo, relembra quando um médico de futebol era quem elaborava o cardápio dos jogadores na concentração e nas viagens e quem o ajudava no atendimento no gramado era o massagista.
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— As coisas mudaram a partir de 1985, com as chegadas do nutricionista, fisioterapeuta e fisiologista. A medicina esportiva era mais curativa e passou a ser preventiva. Hoje temos as cirurgias menos invasivas, como as artroscopias de joelho, menos agressivas que as feitas com cortes no local. O tempo de recuperação se reduziu — conta Runco, acrescentando que o Flamengo dispõe de uma divisão de ciência e de um departamento médico unificado para todos os esportes.
Outro investimento forte na ciência está no Palmeiras. Segundo Daniel Gonçalves, coordenador do Núcleo de Saúde e Performance do clube, há integração de especialidades ligadas à saúde.
— Creio que o atleta de futebol nos próximos anos ultrapassará a barreira dos 40 anos, com ações que visem à manutenção de qualidade muscular e retardem o envelhecimento, como análises (de laboratórios), ações anti-inflamatórias e proteção às articulações — prevê Gonçalves, acrescentando que os profissionais do núcleo são capacitados em fisiologia e aplicam procedimentos científicos: — O Palmeiras tem um modelo único, em que o atleta está no centro, e ao redor dele há três grandes órbitas: estrutura física, recursos humanos e métodos e processos, baseados na literatura científica.
Para Gonçalves, o comportamento da atual geração de atletas está mudando: eles postam imagens hoje treinando nas férias. Cristiano Ronaldo é citado por ele como um “grande embaixador” dessa mudança de atitude, investindo em empresas de tecnologia esportiva, para acelerar a recuperação e aumentar a longevidade.
— Há a consciência de que a ciência ajuda os atletas — resume.
Responsável pelas delegações brasileiras para os Jogos Olímpicos, Pan-Americanos e Sul-Americanos, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) mantém um laboratório olímpico de 1,7 mil metros quadrados e tecnologia de ponta em seu Centro de Treinamento no Parque Aquático Maria Lenk, na Barra, Zona Oeste do Rio. As metodologias são compartilhadas com confederações de fora do Rio e com atletas no exterior. No Laboratório do COB, atletas são submetidos a uma diversidade de avaliações, desde os exames de sangue e urina a sofisticados testes de biomecânica.
— Desde 2016 já foi possível observar os impactos positivos da ciência aplicada ao esporte através do Laboratório Olímpico. Podemos incluir aí não apenas o Pan de Santiago em 2023 e as Olimpíadas de Paris em 2024, mas os resultados das Olimpíadas de Tóquio em 2020 — enfatiza consultor de esportes do COB, Jorge Bichara, que cita a ginasta Rebeca Andrade, dona de seis medalhas olímpicas em Tóquio e Paris, como uma atleta com desempenho beneficiado pelo laboratório.
— No caso da biomecânica, foram desenvolvidos protocolos que promovem a longevidade musculoesquelética frente à alta demanda de sobrecargas da ginástica artística — explica Bichara. — Além disso, temos a análise com vídeo que permite o retorno instantâneo das execuções em tela, para revisão dos movimentos logo após sua realização.
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Com 37 anos de medicina esportiva, o professor Antônio Herbert Lancha Júnior aponta que com a prática interdisciplinar, se um judoca precisa baixar de peso em 24 horas, a nutrição e a preparação física trabalham em conjunto.
— Os super-homens e as supermulheres já estão aí, e o Brasil é um celeiro para todas as modalidades, pela miscigenação. O que nos falta são espaços de prática esportiva e oportunidades para experimentar — diz.
Presidente da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte e do Exercício, Fernando Carmelo Torres, há 30 anos na especialidade, vê exemplos de longevidade como Tom Brady (do futebol americano, que parou aos 45 anos, em 2023) e LeBron James (que aos 40 continua no basquete da NBA). Mas Camelo acrescenta que já se constata uma elevação na expectativa da população brasileira e do mundo em geral.
— Isso é reflexo de uma melhora no estilo de vida das pessoas — afirma.
A parte mental dos desportistas não pode ser esquecida, reforça Camelo. Eles passam por avaliações de aspectos como ansiedade. Atualmente, há recursos como os wearables (coletes e outras peças que os atletas vestem) e que permitem melhorias no controle de desempenho.
— Mas para que a carreira tenha uma maior duração, não adianta o médico, o preparador, o nutricionista sugerir algo se o atleta não quiser fazer — ressalva.