Havia mais de 200 policiais na Ponte Osvaldo Cruz, perto da Ilha do Fundão, às 6h50 daquela sexta-feira, 20 de fevereiro de 1976. Todos achavam que participariam de alguma operação na Ilha do Governador, ali perto. Mas o ponto de encontro fora marcado naquele local da Zona Norte apenas para evitar vazamento de informações sobre a verdadeira missão.
Por volta das 7h, a tropa recebeu ordens para tomar o rumo do Morro da Mangueira. De acordo com uma reportagem do GLOBO publicada no dia seguinte, o objetivo da “Operação Arco-íris” era prender criminosos na favela vizinha ao bairro de São Cristóvão, mas a mobilização ficaria marcada por detenções sem justificativa clara e por agressões à família de Agenor de Oliveira, o célebre compositor Cartola, que chegou a ser esbofeteado por um dos policiais.
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Antes de subir o morro, os agentes ouviram de delegados a orientação para tratar os moradores da favela “com a máxima urbanidade”. Minutos mais tarde, começaram a efetuar prisões sem explicação. Eram tempos de ditadura militar. Todos que não tinham carteira de trabalho assinada no bolso eram logo detidos, em alguns casos amarrados uns aos outros, pelas mãos e até pelo pescoço. Depois, levados a camburões.
Filho de Cartola, Ronaldo Silva de Oliveira foi abordado e também estava sem carteira de trabalho. De nada adiantou dizer que era funcionário público. Alguém o apontara como motorista do assaltante Antônio Branco, bastante procurado na época. O filho do músico confirmou que havia dirigido para o bandido uma vez, mas só porque estava sob a ameaça de um revólver.
Moradores que acompanhavam a ação disseram aos policiais que aquele era o filho do conhecido sambista da Mangueira, algo que foi logo confirmado por Euzébia Silva de Oliveira, a Dona Zica, mulher do artista. Mas, em vez de ouvir a moradora, os policiais começaram a empurrá-la em direção ao camburão, com a intenção de levá-la junto.
Cartola foi chamado e tentou conversar, mas o baluarte da Mangueira, então aos 69 anos, acabou levando uns tapas no rosto enquanto argumentava. A certa altura, um delegado tentou apaziguar os ânimos. O autor de “O mundo é um moinho”, indignado com toda aquela situação, dizia que não podia admitir a agressão sob a justificativa de que “enganos acontecem”.
Enquanto o compositor descia o morro caminhando em direção ao asfalto, para tirar satisfação na delegacia, alguns moradores em volta dele o saudavam e cantarolaram versos da então recém-lançada canção “Os meninos da Mangueira” (Sérgio Cabral e Rildo Hora), em que o “Mestre Cartola” e Dona Zica são citados. Na Delegacia de Vigilância Norte, o policial responsável recebeu o sambista em sua sala, cercado por repórteres e curiosos. Horas mais tarde, Ronaldo foi liberado sem pedido de desculpas.
Segundo O GLOBO, entre os 60 homens detidos durante a operação, apenas um tinha contra si uma condenação na Justiça. Os outros 59 presos se mostravam preocupados com a informação de que só seriam liberados depois do carnaval daquele ano. Mas o diretor do Departamento Geral de Polícia Civil, Sérgio Rodrigues, que considerou a Operação Arco-íris um sucesso, garantiu à imprensa que só ia ficar em cana “quem estiver devendo”.
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Uma mobilização parecida aconteceu na Favela do Rebu, em Senador Camará, na Zona Oeste do Rio, no dia 17 de setembro de 1982, quando 50 soldados da 1ª Companhia de Polícia do Exército, da Vila Militar, e mais cem agentes do 14º BPM e da Polícia Civil, subiram o morro e detiveram 86 homens sem carteira de trabalho assinada, alegando que todos seriam levados à delegacia para averiguação de possíveis antecedentes criminais.
Segundo uma reportagem do GLOBO no dia seguinte, o delegado Amin Chaim justificou a operação alegando que a favela era “um antro de marginais”.
Os moradores detidos foram reunidos num campo de futebol de terra, onde eram obrigados a formar fila e entrar nos camburões lotados rumo à delegacia, vigiados por agentes montados a cavalo. Os policiais não deixaram a imprensa falar com nenhum “suspeito”, mas garantiram que no meio deles havia “homicidas e assaltantes”.
Entre os presos, estava o mecânico Ronaldo de Oliveira. Como tantos, ele alegou que nunca se envolvera com crime, mas os policiais não deram ouvidos. Quando Ronaldo foi obrigado a entrar no camburão, sua cadela, July, da raça pastor alemão, pulou junto com ele, para a surpresa geral. Os agentes se esforçaram para tirar o animal de lá, mas não conseguiram. Até que o delegado Chaim desistiu e resolveu liberar o mecânico. O homem saiu do camburão sob uma explosão de gritos e aplausos da multidão de moradores que observavam a cena.
No dia seguinte, a foto de Ronaldo saindo para a liberdade (abaixo) ilustrou a primeira página do jornal, com o título: “Cadela não larga o dono e o salva da prisão”.