‘NÃO SOU EU’
Confesso que achei graça na primeira história que me contara: um bêbado usava o meu nome em um bar, tomando grande uiscada à custa de um meu admirador — a quem agradeço a intenção. Depois passei a achar menos graça: o falso Rubem Braga aparecia chorando na estação das barcas, ou gritando dentro de um lotação, ou fazendo comício na Rua Farani. Volta e meia ouço outras proezas desse cavalheiro que perambula pela cidade, dando vexames em meu nome — e agora parece que está agindo pelo Bar Vinte e Leblon.
Ora, eu já posso ser culpado legitimamente de tanta coisa que não me agrada acumular os pecados de outrem. Peço às pessoas que me não conhecem pessoalmente que, quando aparecer um Rubem Braga falando alto, citando crônicas e dando alteração, tenham a fineza de chamar a polícia. Não quero que maltratem o rapaz, mas uma noite de xadrez deve lhe fazer bem, e talvez ele perca essa mania insensata de assumir a personalidade deste apagado cronista.
Com este pedido estou correndo o risco de ir eu mesmo em cana, como se fora um falso eu. Em todo caso, o vexame ficará entre mim e eu, ou entre eu e mim — tudo em família…
17 de abril de 1961
Especialista em ver o simples com outros olhos, escreveu para o jornal em 1947, com crônicas da Europa do pós-guerra, e entre 1959 e 1961
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