Atração da 23ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde participa neste sábado (2), às 21h, da mesa “Roçar a língua de Camões”, o escritor, tradutor e professor Caetano Galindo lembra de um filme do italiano Nanni Moretti para explicar seu projeto de divulgação da língua portuguesa. Mais especificamente, ele cita uma cena de “Aprile”, em que o ator e cineasta descobre a existência da anestesia peridural e sai correndo pelo hospital gritando “as pessoas precisam saber!”.
Galindo quer que os brasileiros descubram a língua portuguesa como um fato social, uma construção atravessada por preconceito e poder. Seu mais recente lançamento, “Na ponta da língua” (Companhias das Letras), ataca o mito de um idioma puro e imutável. Mais do que investigar a formação das palavras, mapeia o campo de batalha simbólico em que elas foram moldadas.
O autor mostra como o português do Brasil teria sido sequestrado por uma elite determinada a ditar como os outros devem falar – mesmo que isso signifique apagar a riqueza e a invenção de um idioma com origens comprovadamente populares.
— As pessoas precisam ver o quanto existe de maravilhoso e encantador nessa coisa que a gente usa todo dia — diz Galindo, conhecido também por verter para o português autores desafiadores como William Faulkner, Thomas Pynchon e James Joyce (ele recebeu o Prêmio Jabuti de 2013 por sua tradução do monumental “Ulisses”). — E isso vai um pouco além dessa coisa da trívia. É a ideia de buscar o pacote todo da história, o pacote de sangue, de chagas, de beleza, de flores que a gente vem juntando há milhares de anos nessa nossa forma de usar a linguagem.
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De acordo com Galindo, não há hoje como contestar que a língua portuguesa nasceu dos falantes das variedades imperfeitas do latim, já naquela época vítimas de preconceito. O português falado no Brasil, por sua vez, seria fruto do aprendizado das camadas populares.
Da mesma forma que nossos antepassados “corromperam” o latim criando o que hoje é a norma culta do português, os brasileiros contemporâneos seguem realizando transformações na estrutura do idioma. Um exemplo disso, segundo o autor, é a tendência crescente de não marcar os plurais redundantes em sintagmas nominais.
— A gente não fala “as pessoas bonitas e simpáticas chegaram”. A gente diz: “as pessoa bonita e simpática chegaram” — explica. — Essa mudança provavelmente começou há 300 ou 400 anos no português do Brasil. E como ainda é recente, costuma ser vista como erro, como sinal de ignorância. A escola diz que é coisa de gente burra, de gente sem estudo. Mas, afinal, o que essa mudança tem de diferente em relação às outras que a gente hoje considera corretas? Nada. Só o fato de ser mais nova.
Galindo observa que esse fenômeno de simplificação — marcar o plural apenas uma vez — não é exclusivo do português brasileiro. Está presente em várias línguas do mundo, como o francês, o inglês e o dinamarquês.
— Eu tinha um professor de linguística que brincava com a frase: “as minhas velhas amigas americanas”. Ele dizia: “A gente está marcando cinco plurais e cinco femininos. Isso é completamente burro”. Um idioma, diante de uma situação dessas, tende a economizar.
“Na ponta da língua” chega após o sucesso de “Latim em pó”, que explicava as origens do nosso idioma, inesperado “case de marketing” que preencheu uma lacuna editorial. O paranaense também passou a compartilhar em suas redes vídeos curtos em que reflete sobre o uso da língua portuguesa, apontando o que enxerga como viés elitista e desmontando certezas sobre a norma culta. Mas ele não tem nenhuma pretensão de se tornar um “influencer linguístico”.
— As pessoas querem entender de onde veio a nossa língua — diz Galindo. — E alguém precisava contar essa história.
Lendo “Na ponta da língua”, é difícil não lembrar das recentes controvérsias linguísticas em Portugal, onde imigrantes brasileiros —e o sucesso de influenciadores digitais como Luccas Neto do outro lado do Atlântico — são acusados de corromper a fala das novas gerações. Em reportagens da mídia portuguesa, pais alegam que já não compreendem os próprios filhos, numa reação que Galindo identifica como típico pânico moral.
— Tem muito exagero e uso político nessa história — diz o autor. —É uma forma de pintar os brasileiros como uma ameaça cultural, invasores que precisam ser contidos. Mas tem um lado divertido também. Uma parte da gente pensa: “agora engulam, né?”. Somos vinte vezes a população de Portugal. Temos um PIB e um capital cultural infinitamente maiores. É nossa presença na internet que está tornando a língua portuguesa conhecida no mundo.
Para Galindo, está mais do que na hora de os brasileiros tomarem posse da própria língua. Mas ele reconhece que esse processo ainda esbarra em históricos conflitos internos.
— A gente precisa parar de acreditar que tudo aquilo que é nosso é automaticamente inferior —afirma. — Não haveria nada de hostil da nossa parte em virar as costas para a opinião dos portugueses. Não se trata de romper relações pós-coloniais. É apenas a constatação de um fato.