Morto em setembro do ano passado, aos 84 anos, o poeta Armando Freitas Filho deixou em luto várias gerações de admiradores que inspirou e estimulou. E foi particularmente essencial na formação de suas conterrâneas Alice Sant’Anna e Laura Liuzzi, que realizam nesta 23ª Festa Literária Internacional de Paraty uma singela homenagem ao mestre.
Hoje, às 20h, na Casa Sete Selos + Gama, Megafauna e Supersônica, as duas lançam “Urca”, uma “plaquete” (publicação artesanal de formato e tiragem pequenos) com seis poemas que dialogam com o universo de Armando. O título é referência ao bairro da Zona Sul carioca em que o autor nasceu e morou a vida toda. Alice e Laura também participam de um bate-papo sobre o homenageado.
— Armando era um leitor interessadíssimo e muitos poetas o procuravam com seus primeiros livros — lembra Laura, autora dos livros “Calcanhar” e “Desalinho”. — Comigo foi assim. E mudou tudo. Eu não teria publicado se ele não tivesse me incentivado. Mais do que isso: se eu não tivesse lido o Armando desde criança, sem entender muita coisa, acho que eu não teria riscado um verso sequer.
Para Alice, Armando foi uma espécie de “avô poético”. Ela o conheceu aos 15 anos, quando acompanhou o pai fotógrafo a um ensaio com o autor. Levava na mochila alguns contos, que entregou a Armando ao fim da visita. No dia seguinte, acordou com um e-mail dele comentando os textos, sugerindo leituras e iniciando uma troca afetiva e literária que duraria mais de duas décadas.
— Ele era um poeta em tempo integral, sempre pensando no próximo poema — diz Alice, que, além de autora de livros como “Pé de ouvido” e “Acrobatas”, é editora da Companhia das Letras.
— Ele pensava assim: “Ah, enquanto eu não lanço um livro para valer com muitos poemas, eu lanço um entrelivro” — conta Alice. — Era uma maneira dele continuar sempre pensando em livro e em poesia. A nossa plaquete é uma homenagem ao modo como ele entendia a poesia: como algo contínuo, orgânico, parte da vida.
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“Urca” nasce como um projeto colaborativo, que ainda contou com a participação dos pais das poetas, o fotógrafo Alexandre Sant’Anna e o designer Sergio Liuzzi, ambos amigos de longa data de Armando. O primeiro cedeu um retrato do poeta e o segundo produziu o projeto gráfico da plaquete.
— Assim que ele partiu, decidimos fazer a homenagem — diz Laura. — A escrita a dois foi deliciosa. Nos divertimos e nos emocionamos lembrando os hábitos do Armando e o jeito dele de falar. Acho que essa alegria está nos poemas.