Posicionado logo na entrada do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, o Bendegó vai muito além do impacto que causa por ser um meteorito de mais de cinco toneladas. Ele pode ser considerado sinônimo de resiliência e de resistência. O item, descoberto em 1784 na Bahia e trazido para o Rio em 1888, foi uma das peças que sobreviveram ao fatídico incêndio que acometeu uma área essencial do museu, o Paço de São Cristóvão, em 2 de setembro de 2018, corroendo 85% do acervo. Fundado em 1818, com 207 anos completados em 6 de junho, o primeiro museu do Brasil, vinculado à UFRJ, continha o maior arquivo de história natural e antropologia da América Latina. A falta de recursos ainda impede que se crave uma data exata para a sua reabertura definitiva, o que talvez aconteça em 2028, com alguma novidade em 2026. Porém, quase sete anos depois do acontecimento trágico, o Bendegó vem recepcionando os visitantes da exposição “Entre gigantes: uma experiência no Museu Nacional”, que está aberta desde o dia 2 de julho e segue até 31 de agosto, com entrada gratuita.
Pela primeira vez, o público pode visualizar três ambientes internos do Paço de São Cristóvão, a área expositiva. Os primeiros ingressos disponibilizados em um site de vendas esgotaram rapidamente. A entrada, desde então, se organiza por ordem de chegada, com média de 600 pessoas por dia. No último domingo, o espaço recebeu cerca de duas mil pessoas. Mais de dez mil já estiveram por lá. Números que orgulham, mas não surpreendem o diretor da instituição, Alexander Kellner, que assumiu a função seis meses antes do incidente.
— Eu juro que não quero ser arrogante, mas tinha certeza do sucesso desta iniciativa porque o Museu Nacional é uma instituição muito possante, que mexe com a memória afetiva de todo mundo — avalia o paleontólogo.
A partir da exposição, novas memórias prometem surgir. Além de itens já populares, como o próprio Bendegó e duas esculturas originais de Cibele e Orfeu em mármore de Carrara , uma novidade não passa incólume: o esqueleto de um cachalote de 15,7 metros, que adorna a claraboia do paço. Ele ainda não tem nome, mas a direção do museu lançou a proposta e já recebeu mais de 500 sugestões. O resultado será divulgado ao fim da exposição.
— Um amigo meu falou algo que achei interessante. Para ele, era o museu das múmias; para o filho dele, o museu dos dinossauros . Para a próxima geração, será o museu do cachalote — diz Kellner.
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Desde 2022 como presidente da Associação Amigos do Museu Nacional (SAMN), organização sem fins lucrativos criada em 1937 para apoiar a instituição e seus projetos de conservação, Mariângela Menezes conta que o local é a sua “pátria científica”. A história dela com o museu começou em 1978, como estagiária.
— Após a perda veio o sentimento de dor, depois a raiva pelo descaso com o patrimônio e a esperança. Foi emocionante a abertura destas salinhas — comemora.
Importante parceira do Projeto Museu Nacional Vive, a SAMN mantém uma conta para receber doações de pessoas físicas e jurídicas.
— A verba que entra vai para a reconstrução do palácio, a reforma da biblioteca e outras burocracias. O trabalho que a gente faz é de alta complexidade — diz.
As paredes chamuscadas mantêm acesas as recordações da noite de 2 de setembro de 2018, quando TVs, rádios e sites anunciaram para o mundo o fogaréu que tomava conta do Museu Nacional. No dia seguinte, uma legião de incrédulos foi para a frente da construção, na Quinta da Boa Vista, perplexa com o ocorrido e com a destruição imensurável daquele que, por si só, já é um legado histórico.
— Não existe um canto que não tenha sido afetado — lamenta Kellner.
Uma joia da cidade, o Museu Nacional foi fundado por Dom João VI como Museu Real em 1818 e é a mais antiga instituição científica do país. Em 1892, passou a ocupar o palácio da Quinta. Recebeu visitantes ilustres como Santos Dumont, que testou alguns inventos no Jardim das Princesas. Em 1938, o Paço de São Cristóvão e a Quinta da Boa Vista foram tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iphan). Em 2009, ele voltou à cor original, o amarelo.
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Com 15 mil metros quadrados, o Paço de São Cristóvão é a área mais conhecida, ainda em reconstrução após o acidente. Mas o museu abarca mais duas partes: uma de 40 mil metros quadrados, onde ficam o Horto Botânico e a Biblioteca Central; e uma de 43 mil metros quadrados, adjacente à Quinta, em que se localiza seu campus, com os laboratórios de pesquisa e as áreas de coleções.
É na biblioteca, cercado por cuidados especiais, que está sendo guardado um Manto Tupinambá, que estava na Dinamarca desde o século XVII. O artefato raro chegou ao museu pela campanha Recompõe, que envolve ações como a captação de recursos e a doação de acervo. Da Bacia do Araripe, no Ceará, vieram 1.800 fósseis.
— O que se foi, se foi. É fato que o museu ficará diferente, mas com novas peças incríveis, como um crânio de pterossauro que é a peça mais bonita que já vi — pondera Kellner, que lamenta, entretanto, a falta de adesão à iniciativa.— Todo museu de história natural tem muitos exemplares. É melhor que fiquem numa gaveta ou expostos no maior museu de História Natural da América do Sul?
“E a Luzia?”. Uma das atrações mais populares do acervo, o fóssil humano mais antigo das Américas, de 11.500 anos atrás, sofreu danos em meio ao fogo, mas está sendo restaurado e em breve voltará a encantar os visitantes “com o destaque que merece”, avisa Kellner.
— Ela tem que ter um sala própria. Assim como artefatos e objetos que contam a história do planeta. Mas precisamos de recursos para colocar em prática os próximos passos — desabafa.
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Já faz sete anos, mas até hoje o arqueólogo e egiptólogo Pedro Von Seehausen se lembra do exato momento em que encontrou a estatueta do sacerdote Menkheperre em meio aos destroços do incêndio do Museu Nacional.
— Era um sábado de manhã. Eu comecei a gritar irracionalmente “não acredito!!”, e as pessoas acharam que tinha caído algo em mim. Quando me viram, eu estava com ele no colo, comemorando — relembra ele, o encarregado de fazer o resgate da coleção egípcia do museu.
Para leigos, pode parecer um simples boneco. Mas a peça, de bronze, tem um significado imensurável para a egiptologia: é a única representação do sacerdote de saia, o que significa que chegou a faraó.
— É uma peça definitiva. Ver peças como estas sendo reconstruídas dá uma dimensão do que a gente pode ter de volta no museu. Uma forma de ressignificar um trauma, uma tragédia — descreve Von Seehausen, que é editor de Arquivos Tridimensionais.
Havia 700 peças na coleção do museu, e cerca de 300 delas, ainda que o número seja impreciso, foram recuperadas. O trabalho minucioso da equipe começou ainda no resgate, quando foi preciso identificar estelas (pedras erguidas na linguagem antropológica) camufladas em meio a escombros. No segundo momento veio a montagem delas, como num quebra-cabeça, em que cada pedacinho precisa encontrar seu encaixe perfeito. Em seguida, o trabalho de restauração realizado no Laboratório Central de Conservação e Restauração (LCCR), que fica no campus adjacente à Quinta.
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Para auxiliar no processo, a instituição fechou uma colaboração com o Museu do Cairo, no Egito, que enviou um restaurador ao Brasil. Junto com os profissionais daqui, ele pensou formas de restaurar a coleção e a melhor maneira de conservá-la.
— Elas têm uma especificidade, pois são peças egípcias em clima tropical. Foi um bom intercâmbio cultural que a gente conseguiu fazer — festeja o arqueólogo.
No LCCR, as técnicas usadas variam de acordo com os itens, como explica a restauradora Iamanda Riehl, responsável pelo acervo histórico-antropológico. A patologia da peça e sua degradação influenciam no processo escolhido para o restauro.
— Além de terem milhares de anos, elas ainda passaram por um incêndio significativo. Então, temos que seguir conceitos como não alterar a peça, independentemente da nossa opinião sobre ela — diz Iamanda, enquanto trabalha na restauração de um Hórus, que na mitologia egípcia é o deus do céu, sendo representado na forma de um falcão.
A peça chegou ao laboratório fragmentada em três partes, mas seu material não havia sido quimicamente alterado. Ela explica que, então, o processo foi mais simples, com a união dos fragmentos, a consolidação e a aplicação dos adesivos.
— É essencial observar como a peça reage aos materiais, ao gel de limpeza — frisa.
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E o mais importante é que não se trata de uma questão estética, mas sim histórica. Por isso, os profissionais precisam respeitar todos os aspectos do item e a sua preservação como patrimônio.
— O Hórus geralmente tem uma coroa em cima, mas chegou para nós sem ela. Eu não posso simplesmente decidir colocar uma porque acho bonito — exemplifica ela.
Para Von Seehausen, a recuperação, mesmo que parcial, do que foi queimado reacende a esperança de ver o museu reaberto com um acervo considerável.
— A egiptologia do museu teve que se reinventar. É um renascimento. Fico feliz de ver o interesse das pessoas por esta exposição. E para quem cobra as peças egípcias, calma, elas estão sendo restauradas. Estão sendo feitas muitas coisas em pouquíssimo tempo — argumenta.