Carros de luxo avaliados em quase um milhão, viagens internacionais, mansões, jatinhos fretados, roupas de grife como Balenciaga, relógios Rolex e joias cravejadas. Toda essa vida de ostentação exibida pelos 15 influenciadores investigados pela Polícia Civil do Rio era sustentada por esquemas de promoção de jogos de azar online — em que o lucro vinha não das vitórias dos seguidores, mas das suas perdas. Conforme a Polícia Civil do Rio, os investigados na Operação Desfortuna, deflagrada nesta quinta-feira, movimentaram mais de R$ 40 milhões entre 2022 e 2024 com a promoção de jogos como o “Jogo do Tigrinho”, por meio de publicações nas redes sociais.
- Operação Desfortuna: Influencers movimentaram cerca de R$ 40 milhões em dois anos com promoção de cassinos ilegais nas redes
- Bia Miranda, Buarque, Maumau e mais 12 influenciadores são alvos de operação por jogos ilegais; esquema movimentou R$ 4 bilhões, diz polícia
Ainda segundo os investigadores, considerando toda a estrutura criminosa envolvida — que inclui também donos de sites e agenciadores —, a movimentação financeira pode chegar a R$ 4 bilhões no período, como indicam relatórios de inteligência do Conselho de Controle de Atividades Financeira (COAF).
A operação revelou como os investigados — que somam juntos 32,8 milhões de seguidores nas redes sociais Instagram e TikTok — usavam sua popularidade para atrair vítimas. Com promessas de lucros fáceis, diziam que bastava depositar e jogar para conquistar itens de luxo como os que ostentavam. Mas os jogos promovidos eram programados para perder.
Entre os investigados está Anna Beatryz Ferracini Ribeiro, conhecida como Bia Miranda, influenciadora e modelo carioca com 8,7 milhões de seguidores no Instagram e no TikTok. A influencer, que é neta da cantora Gretchen, esbanja em viagens e passeios de lancha. Ela mora numa mansão no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio, a poucos metros da casa do ex-namorado e pai de um de seus filhos, o DJ Buarque — outro investigado.
Foi justamente na residência dele que os agentes encontraram dois dos seis carros de luxo apreendidos na operação: uma Land Rover Defender azul, avaliada em cerca de R$ 700 mil, e outro automóvel de alto padrão. Nas redes, Buarque esbanja joias cravejadas e até viagens de jatinho fretado.
Além desses carros, a polícia encontrou, na casa de outro influencer investigado, Maurício Martins Junior, conhecido como Maumau ZK, que tem 3,5 milhões de seguidores nas redes sociais, um revólver com numeração riscada e duas BMW, modelo que podem chegar até R$ 1 milhão. Na manhã desta quinta-feira, ele foi preso em flagrante, em São Paulo. Além da arma, joias cravejadas e um Rolex também foram encontrados.
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Entre os jogos estão o jogo conhecido como “Tigrinho” e outros cassinos online — que simulam máquinas caça-níqueis, mas em ambiente digital. Embora as apostas esportivas estejam em processo de regulamentação no Brasil, essas plataformas, que funcionam como cassinos eletrônicos, são consideradas ilegais.
Segundo as investigações da Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro (DCOC-LD), os influenciadores promoviam cassinos ilegais com promessas enganosas de lucro rápido. Entre os principais alvos estão nomes que acumularam milhões de seguidores e passaram a exibir padrões de vida incompatíveis com sua renda declarada.
Segundo o delegado Renan Mello, a polícia já identificou dois modelos de remuneração usados pelas plataformas para pagar os influenciadores:
- Entenda: Bia Miranda e outros influenciadores lucravam com cassinos ilegais nas redes sociais, segundo a polícia
- Pacotes fechados de publicações – os influenciadores recebiam um valor fixo por um determinado número de postagens promocionais, independentemente do resultado para os usuários.
- Ganhos variáveis por desempenho – nesse modelo, o pagamento era proporcional ao número de cadastros realizados por meio do link personalizado do influenciador, e principalmente ao valor que esses seguidores perdiam apostando nas plataformas.
Segundo o delegado, ainda não é possível cravar qual forma era mais utilizada por cada um dos influenciadores.
— Estamos buscando individualizar qual foi a modalidade contratada por cada influenciador. Sabemos dessas duas formas, mas ainda precisamos identificar com precisão quem usava cada uma — explicou o delegado.
Para atrair vítimas, os influenciadores publicavam vídeos com simulações de ganhos, dicas de jogadas, e depoimentos falsos dizendo que haviam enriquecido com o jogo. O tom recorrente era o da transformação de vida: muitos diziam que saíram da pobreza graças ao jogo. A realidade, porém, era inversa — os seguidores perderam dinheiro, enquanto eles enriqueciam.
Horas antes de receber a visita da polícia em sua casa, num condomínio de luxo no Recreio dos Bandeirantes, Rafael Buarque, o DJ Buarque, publicou nos stories o depoimento de uma seguidora. Ela dizia ter conseguido um ganho de R$ 1.200 e afirmava que, graças ao DJ, esse dinheiro havia salvado sua vida.
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Estilo de vida luxuoso como isca
Além das postagens diretas sobre os jogos, os investigados também usavam o estilo de vida luxuoso como estratégia indireta de convencimento: viagens internacionais, carros importados, festas, mansões e ostentação nas redes sociais criavam a ideia de que os ganhos com as apostas eram reais e acessíveis a qualquer pessoa.
— O problema não era só a promoção do site. Era a promessa enganosa, a construção de uma narrativa de lucro fácil. Isso induzia milhares de pessoas a acreditarem que apostando também conseguiriam viver como seus ídolos — disse o delegado.