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‘Sou um cidadão brasileiro com unha encravada e dor de dente como qualquer outro’, diz Tony Ramos

BRCOM by BRCOM
agosto 8, 2025
in News
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Tony Ramos e Maria Fortuna no estúdio na redação do GLOBO — Foto: Leo Martins

Tudo isso é parte de um jogo ele que joga com prazer há 61 de seus 76 anos de idade sem se deslumbrar. Tony sabe que o “sucesso é primo do fracasso”, mantém os pés no chão e a educação no modo on. Isso inclui retornar pessoalmente ligações da repórter e pedir para viajar no banco da frente batendo papo com o motorista Adilson, que o leva à redação do GLOBO após a função no departamento de trânsito.

O ator — que está em cartaz com a peça “O que só sabemos juntos”, interpreta Roberto Marinho no doc “O século do GLOBO” e roda os filmes “Bem na foto” e “Se eu fosse você 3” — participou do videocast “Conversa vai, conversa vem”, no ar no YouTube. A seguir, leia trecho da entrevista com o dono de mais de 152 personagens:

  • Entrevista: ‘Se eu abrir mão dos meus sonhos, como vou ensinar meus filhos a perseguir os deles?’, diz Marina Silva, no ‘Conversa vai, conversa vem’
  • Carolina Dieckmmann: ‘Acho bobo pensar que envelhecer é ter menos colágeno’

Você poderia estar no olimpo, mas é gente como a gente. Essa consciência foi sempre um norte para você? É natural ou precisa de atenção?

Não sou diferente de ninguém. E sempre respeitei o próximo. O que me norteou sempre foi não acreditar no fracasso nem no sucesso. Nos corredores da TV Tupi, via Laura Cardoso, Lima Duarte, Juca de Oliveira… De repente, saía Cacilda Becker de um estúdio, onde fazia teleteatro. Sempre ouvi dos mais velhos: “Nunca se deslumbre com essa joça, isso tudo é de brincadeira”. Não vou ser hipócrita e negar que atingi uma condição. A fama é gratificação de uma dedicação absurda. São 152 personagens de uma trajetória de sucesso. Mas isso não me qualifica como ser humano. Desde quando ser afamado te qualifica como cidadão acima de qualquer coisa? Sou um cidadão brasileiro, com unha encravada, dor de dente e vontade de dizer “hoje não quero saber de nada” como qualquer outro.

É doce, educado. Não se irrita nunca? O que te tira do sério?

A soberba. Fico irritado com o ser humano que se acha dono da verdade absoluta. Isso não existe. “Não possuímos nenhum corpo, nenhuma verdade, nem sequer uma ilusão”, trecho de poema de Fernando Pessoa. Existe um ser maior. Tem gente que não acredita. Pode ser ateu. O que direi, então? Vou atacá-lo? Você pode falar um monte de palavrão como catapulta para provocar o riso. Conheço 350 palavrões. Nada contra o palavrão, senão parece aquele velho chato (risos). Já xinguei juiz de futebol, fico chateado com notícia, dei topada em quina de mesa. Mas tenho compromisso com o público, e ele começa comigo mesmo. Há heterogeneidade na plateia que me assiste. Existe um bom senso. Quando você chama de fofura… é o mínimo. Fui criado pela minha mãe, minha saudosa avó e sempre conversando sobre vida. Havia ausência do pai. Foi minha avó que falou primeiro de sexo comigo.

Me chamou e disse: ‘Filhinho, você anda pensando, assim, não sei, vontade de mulher?”. Arregalei o olho. Essas coisas marcam. Tinha 13, 14 anos. Ela continuou: “Isso é normal, se você sentir vontade, quando um dos seus tios chegarem, conversam com você”. Talvez, só quisesse dizer alguma coisa sobre, enfim, um lugar onde houvesse profissionais, sei lá… Depois um dos tios disse: “Sua avó andou falando comigo, mas não tá na hora, relaxa, quando for, eu te aviso”.

  • Conversa vai , conversa vem: Veja a entrevista de Juliana Paes
  • Debora Bloch: Atriz conta como lida com haters e fala da importância do teatro em sua formação e do estudo em tempos de rede social

Mas você já estava pensando? Teve uma educação sexual depois?

Só a vida mesmo. Era uma época de tabus. Estamos falando aí dos anos 1950/ 60.

Acha que essa sua criação matriarcal te fez olhar com outros olhos o machismo ou se policiar?

Nunca me policiei porque nunca fui machista. Sei o que sou: macho, do gênero masculino. Macho, mas “chista” não. Nunca tive essa coisa da posse. Olhando nos seus olhos, te digo: nunca me corrigiram nesse sentido. Minha filha, minha companheira de mais de 50 anos (Lidiane Barbosa)… Se não, não teria durado tanto. Até pelo espírito libertário dela. Muita coisa devo, sim, a um olhar maior e não mesquinhamente machista sobre o papel de cada um de nós na sociedade. Vi minha mãe trabalhar em três lugares como professora, tinha uma avô viúva, que cuidava da casa. A vida foi essa e nunca tive problemas por causa disso. Mesmo sem ter o pai, até minha mãe casar de novo.

Tony Ramos e Maria Fortuna no estúdio na redação do GLOBO — Foto: Leo Martins

Com um professor, que se tornou importante figura paterna para você. Mas quem não teve pai presente, sabe que o mundo não acaba, mas que isso marca. Como esse abandono parental te marcou?

Não diria abandono, é um pouco forte. Vivemos épocas melhores. Hoje, um casal se separa e faz questão, pelo bom senso, de preservar os filhos, manter a amizade. Para as crianças saberem que não há inimigos, apenas essa vida em comum que não deu certo. Imagina lá no final dos anos 1950. As pessoas se afastavam naturalmente, havia um bloqueio raro. Casais que se separavam não mantinham essa essa convivência. Me marcou a partir do momento em que fui descobrindo a vida. Algumas perguntas, até sobre sexo mesmo, a gente fica mais mais confortável ao fazer para um homem, no caso, o pai, na hora do jantar… Perguntas que fiz depois para tios, amigos, colegas. Mas tive o olhar dessas duas mulheres com muito vigor e amor.

Não ter tido a pai biológico perto te fez querer ser um pai mais presente para os seus filhos, Andrea e pro Rodrigo?

Sem dúvida. Mesmo não podendo ser tão presente como gostaria, ir nas reuniões de escola. Sempre estava no estúdio ou em externa, chegava à noite e pergunta à Lidiane: “Como foi a reunião?”. Andrea já falava: “Papai, sabemos que alguém tem que trabalhar nessa casa…”. Não sou totalmente em paz com isso, mas minha presença se fazia no leito de cada um. Esse presencial sempre existiu com afeto. Eu sou pai e não herói, apesar de ter feito a novela “Pai Herói”.

É verdade que a felicidade da sua infância era pegar o dinheirinho que a sua avó Dodô te dava e ir para o cinema, e que muito da sua formação se deu ali?

Adorava Oscarito e Grande Otelo, tinha paixão. Imitava em casa. Minha avó dizia: “Para de fazer micagens”. Precisava da notinha do duque, o Duque de Caxias, que era nota de dois cruzeiros. Pagava , o ingresso do cinema e o refrigerante. Sempre tinha um troquinho no bolso. Às vezes, levava um sanduíche que a vovó fazia de carne assada enrolado num papelzinho. Levava um farnel, um casaquinho e era um banquete, um programão. Época de ouro da Metro, da Warner Bros., Century Fox, Atlântida. Depois veio o cinema novo. Aí começo a ver Glauber, aquelas belezas criativas, Joaquim Pedro de Andrade. E as grandes produções com Walmor Chagas, Ewa Wilma. Vários filmes que passam na minha cabeça.

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Devo muito a essa minha criação preocupada com a cultura. Quando disse à minha mãe que queria ser ator, ela falou: “Não vai largar a escola nunca”. Aos sete anos ganhei uma edição de capa dura de Dom Quixote, tratado com tinta nanquim. Era Cervantes servido à mesa. Sempre gostei de ler. Não basta dar um Google aí? Dou um Google aí sempre, mas é preciso profundidade, disciplina e leitura. Não importa a personagem que vá fazer, sempre quero saber mais. Alguém mais rápido vai dizer: “Precisa?” Precisa, sim, em respeito ao espectador.

Enxerga esse comprometimento e profundidade nas novas gerações de atores?

Sinto falta, às vezes. Eu alerto. Muitos das novas gerações são humildes. Não estou falando de submissão, mas de gente que chega e pede uma opinião. O cara com 61 anos de carreira, né… Perguntam: “Como vai fazer isso, aquilo?”. Aí eu digo: “Leiam!”. Ficar curvado no telefone não dá pano para ninguém. Dá até uma certa depressão futura, tristeza. O que viu nessas duas horas e meia?. A pessoa nem sabe.

Você nem tem rede social…

Esse é um terreno… Falo com cuidado e medo de as pessoas acharam: “Que velho chato”. Mas não é o meu perfil. Às vezes, aparecem usando meu nome. É bom saber: Não faço propaganda de remédio, nem de bebida alcoólica. Não faço mesmo. Nunca recomendei remédio para ninguém em nenhuma rede social. Uma vez, apareceu uma imagem de uma entrevista minha na Ana Maria Braga, uma voz mal dublada à beça, vendendo um remédio para a próstata. O Caruso me mandou dizendo: “Tá sabendo que saiu isso no face?”. Pedi para a Globo dar uma olhada e dessaparceu. Se aparecer, denuncie! Não tenho nada contra rede social. Que sejam felizes, mas prefiro estar com meus cachorros.

A palavra que sempre aparece quando falo sobre você com as pessoas é unanimidade. Existe alguém que não gosta de você? Tem algum desafeto?

Desafeto tenho certeza que não. Nunca briguei com ninguém na minha profissão. Nunca destratei nenhum companheiro ou companheira. Falo e durmo tranquilo. Nunca gostei de fofocagem, lero lero. Pefiro sempre o olho no olho. Fui criado assim pela minha mãe: “Se não viu, não sabe”. Se alguém dizia “fiquei sabendo”, ela falava: “Parou por aqui”. Óbvio que deve ter gente que não gosta de mim, que olha para um vídeo meu falando em qualquer lugar e pensa: “Esse cara chato, que papo, certinho demais”.

A fama de certinho te incomoda?

Já incomodou. Mas se respeito ao próximo, pedir licença, obrigada, por favor, perdão, perguntar se é possível é ser certinho, então eu sou. Se não trair uma amizade, ser leal, pagar impostos, amar e preservar a família que construiu, fazer tudo por ela é ser certinho, eu sou. Sou simples. Minha equação de vida é de primeiro grau. Falando assim parece tudo fácil, mas lidar com tudo, inclusive com a incompreensão, notícias falsas, sua cara vendendo remédio…. Já deixei de ganhar muito dinheiro por causa disso, mas nunca quis. E não estou criticando quem faz, sejamos inteligentes, entendam a língua portuguesa, que por sinal é linda.

Outra característica sua é o bom humor. Quem te conhece sabe que é um piadista…

Uma vida em sem humor é um porre de bebida ruim. Hoje me contenho um pouco com as piadas, tem que ter cuidado. Não pode isso e aquilo, é um pouco chato. Mas nunca fiz piada desrespeitando ninguém, nem com religião, nem com doenças. Longe de mim. Mas o politicamente correto como cartilha em si me chateia. Não quero que seja um alerta para mim. Quando tenho dúvida, pergunto. Já perguntei para homossexuais, trans. Exemplo: “É preto ou negro?” Falo: “Me explica”. Temos que aprender, lidar com novos tempos. O mundo está em constante movimento, a mudança é inexorável. Quantos sofrimentos tantos tiveram? Em nome de quê? Da intolerância, do preconceito, da burrice e da soberba.

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  • ‘Ao ficar famoso, redobre a atenção’
      • ‘Sou um cidadão brasileiro com unha encravada e dor de dente como qualquer outro’, diz Tony Ramos

‘Ao ficar famoso, redobre a atenção’

Quer dizer que Rosane Svartman, autora de “Dona de mim” teve a audácia de matar Tony Ramos na novela?

Coitada (risos). Isso nunca me foi escondido. Houve um jantar nosso, no Rio, em que Rosane (e o diretor) Allan Fiterman me convidaram para o trabalho, me contaram a história fascinante da personagem. Estavam reticentes: “Mas ela vai morrer até o capítulo 42”, falaram cheio de dedos. “Ah porque você tem uma trajetória e vamos falar de uma personagem que vai morrer…”. O que é isso, gente? Ficaram malucos? Eu sou um ator, adoro isso! Só não foi no capítulo 42, foi no 80 ou 79. Porque a novela virou um sucesso, e pediram para a Rosane esticar. Mas vou participae, eventualmente, com flashbacks.

Você está em cartaz no teatro após 20 anos afastado. Ainda tem frio na barriga?

Frio na barriga, boca seca, desespero, medo de esquecer o texto. Claro, menina, sou ator como qualquer outro moleque. Esses anos todos de profissão não me qualificam como um ser pronto. Não valeria a pena. Aí, eu fico em casa, né? Fico com o boca seca para gravar as cenas da novela.

Protagonizou o primeiro nu masculino, em “O astro”, em 1977, em plena ditadura militar quando a cena precisou ser negociada pelo diretor, Daniel Filho e pela autora, Janete Clair, com a censura. Como foi isso?

Um constrangimento absoluto. Aliás, eu não fiquei muito nu… tinha um casaco natural de caxemira me protegendo.

Seus pelos… Ficaram arrepiados?

Ficaram nervosos (risos). O que não falta em mim é pelo, né? Agora, estão mais brancos… atrás, nem tanto. Não é confortável ficar nu entre os colegas. Lembro que falei: “Quem ri a mãe não é séria”. Todo mundo riu e relaxou. Essa profissão não admite voyerismo, precisa de cenas. Dois anos depois, em “Grande sertão, Veredas”, também fiquei nu. Não é esse aspecto da profissão que me atrai. Se falarem fica nu hoje, eu vou dizer: “Cara, olha para a minha cara, o tio não tem essa idade”. Tenho que convocar o bom senso de quem propõe uma cena assim. O Daniel (Filho) conversou muito comigo. O personagem fazia um voto a São Francisco de Assis, abria mão da fortuna da família…

Essa brincadeira com o fato de você ser peludo te incomoda ou diverte?

Diverte. O “Casseta & Planeta” fazia uma coisa engraçada. Encenavam “Laços de Família”. Acho que o Reinaldo fazia a minha personagem… O Bussunda era a a Helena, e o Hélio de la Peña, a empregada que varria o chão e falava: “Pedi tanto para a dona Helena que evitasse o rala e rola aqui no quartoe olha quanto pelo”… Havia um saco de lixo enorme já com pelos, e ela enchendo o segundo saco. Isso não é engraçado? Eu ria de chorar. Um dia, Marcelo Madureira me chamou para fazer um número. Era a cena de uma exposição de móveis feitos com meus pelos. Eu ri desbragadamente e falei: “Vou querer 10%”. A cena foi ao ar. Isso é rir de si mesmo, é não se levar tão a sério, não se colocar no pedestal, não se tornar inatingível. Está tudo certo.

Como disse, Lidiane é sua companheira há 56 anos. Ela foi sua primeira e única parceira amorosa?

Eu já tinha namorado, ela também. Mas quando pus os olhos naquela moça chamada Lidiane, Nossa Senhora, abriu-se um novo mundo. Não era só “que menina bonita”, vontade de namorar. Foi maior, é duro de explicar isso. Ffalei: “Meu Deus, essa mulher, casaria com ela amanhã”.

Em mais de meio século juntos, nunca se apaixonaram por mais ninguém? No trabalho…

Não. Respondo sem piscar. A gente sabe que não. E, vocês mulheres, sabem muito mais do que nós homens… A gente tem paixão pelo outro. Às vezes, ela me pede: “Para de falar de mim em entrevista”. Mas não me furto a nada. Podem dizer de novo: “Lá vem o certinho”. Sou apenas sensato. E sempre respeitei minhas colegas. Já houve homens que chegaram para mim na antessala do avião dizendo: “Como é isso, essa profissão? Esse antro de perdição, tem seus filhos…”. Dou uma pausa severa. Não tem nada a ver com profissão. Ela é exposta à curiosidade do público, ok. Quando acabam uma relação e começam outra, vira notícia. Mas eu falo: “Sabe que há muitos advogados e médicos com segundas famílias? Só que são anônimos”. Ninguém tem interesse em falar da vida de um engenheiro, fica ali no círculo deles. Artista, não.

Quando tenho cena de cama, de beijo, sempre pergunto à colega: “Como quer? Te abraço por aqui? Onde não quer que eu te toque?” Pode perguntar para qualquer uma. Claro que tem que fazer uma coreografia convincente da paixão dos dois, mas que não fira nenhuma suscetibilidade. Isso é respeito básico. Dizem: “Tem que fazer para valer!”. O quê? Beijar como beijo a minha mulher, nunca beijei ninguém. Nasci para essa companheira, e ela para mim. Tenho confiança absoluta no grande amor que nos une. Não é só querer estar junto. É calor. Quando deita e põe a mão, o braço, a vida se manifesta.

Foi Lidiane quem te encontrou com metade do corpo caído da cama quando sofreu um hematoma subdural ano passado, quando enfrentou duas cirurgias. Você deu um susto na gente, Tony…

Dei um susto em mim mesmo. Veio a noção da finitude. Quando acordei na UTI, senti uma mão aqui…era Lidiane. Estava filmando, tive uma dor no miolo da testa e pedi a ela que me acordasse quando o carro da filmagem chegasse. Tirei o sapato e não lembro de mais nada. Quando me encontrou, Lidiane se apavorou ligou para a médica, que mandou a ambulância. Acordei preocupado com o filme, falei com o pessoal da peça e lembrei do poema do Fernando Pessoa: “Eu não possuo o meu corpo como posso eu possuir com ele?”, como se repetisse cenas da peça. Depois da última ressonância, o Paulo Niemeyer (neurocirurgião) olhou para mim e falou: “Bora, rapaz, trabalhar! Vai terminar teu filme e volta para a sua peça”.

Teve medo de morrer? O que acha que acontece quando a gente morre?

Menor ideia. Eu nem pensei nisso. A finitude poderia ter acontecido quando tive a convulsão e precisou fazer a segunda cirurgia. Eu não mudei. Sou o Antonio, o Toninho da minha mãe, o Tunico dos amigos mais íntimos, o Tony que está dando esta entrevista. Continuo o mesmo cara, o mesmo homem preocupado com democracia, com liberdade, com o não ao preconceito, à intolerância, com a vida dos netos, dos filhos.

O que te move a continuar vivo?

O trabalho. E é olhar pra Lidiane de manhã e pensar no café da manhã. Não penso em aposentadoria. Sou aposentado pela lei, e isso ninguém me tasca. Mas posso diminuir o ritmo para aproveitar um pouco mais.

A dor de ir perdendo as pessoas queridas é a pior de envelhecer. Aliás, sempre pegam Tony Ramos para comentar a partida dos artistas que partem…

Normal que me perguntem. Sempre procuro lembrar as coisas boas que aquela figura deixou e estarão sempre presentes . A gente sobrevive às perdas dos amigos, das referências, das mentes brilhantes, mas a dor ninguém supera. Perdi um primo para a Covid. Sou pela ciência, pela lógica, pela vida, por uma presença que eu não sei qual é e chamo de Deus, pelos meus anjos da guarda. Aprendi com os indianos. Conheci um físico quântico indiano que nos orientava em “Caminho das Índias” .Quando perguntei como era ser físico e hiper-religioso ele fez assim (abre os braços e como se convocasse o mistério): “Mr. Ramos, acha que é mesmo o acaso?” Vamos caminhando e lidando com perdas, alegrias, nascimentos. Sou bem resolvido sobre quem sou. Um homem que não segue modismos, tendências. Viver é honrar o chão que piso e amar.

Que conselho gostaria de ter recebido no início da carreira e agora pode passar adiante?

Uma coisa que nunca me disseram foi: “Ao ficar famoso, redobre a atenção”. Digo a todos, seja para um político, um artista, uma cantora, um futebolista. “Não deixe que a Glória e o nome te enfastie e você fique obeso na alma. Saiba que você é igual a qualquer outro”. Prêmios são prêmios. O fracasso é primo irmão do sucesso. Fracasso tem que te estimular, e o sucesso não é para te acomodar.

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