Mas tudo passa, tudo passará. O refrão de vogais alongadas — entoadas de maneira passional por Nelson Ned na famosa canção “Tudo passará” — enlaça, num eco pouco óbvio, a profusão de cenas curtas que compõem o espetáculo “Veias abertas 60 30 15 seg”. Difícil deixar o teatro sem cantarolar os tais versos por alguns minutos, horas, dias.
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Marco para a celebração das duas décadas de existência da Aquela Cia, a nova montagem da trupe carioca — em cartaz até domingo (10) no Sesc Copacabana após uma temporada elogiada no Sesc Pompeia, em São Paulo — se inspira na obra-prima do uruguaio Eduardo Galeano para compor um painel estilhaçado sobre aspectos recorrentes na história da América Latina. A trama se sucede, como o título sugere (e como reforça a letra de Nelson Ned, reproduzida várias vezes durante a peça), em 80 quadros breves, que vão diminuindo paulatinamente de 60 segundos para 30, 15, 10 e cinco segundos.
Como os outros 13 trabalhos gestados pela companhia ao longo dos últimos 20 anos, “Veias abertas…” se destaca por uma estética particular, criada em total consonância com a trama que se apresenta no tablado. O resultado da fusão irreverente entre forma e conteúdo chama atenção. Não à toa, há algumas semanas, esgotaram-se os ingressos para a atual temporada — a cada sessão, aliás, formam-se concorridas filas de espera, no teatro, entre quem deseja obter entradas de possíveis desistentes.
— Nossa ideia era falar sobre memória, tal como o livro “Veias abertas da América Latina”. Disso, surgiram dificuldades: afinal, como abarcar, numa peça com uma hora de duração, tantos fatos, exceto por meio da fragmentação? Ao mesmo tempo, a gente se deu conta de que hoje a própria vida torna cada vez mais difícil a apreensão da memória, já que tudo acontece dentro da linguagem das redes sociais — resume o diretor Marco André Nunes. — Entrar num TikTok, por exemplo, significa passar por vários estímulos, todos eles fragmentos de algo. No fim das contas, o que fica?
Grosso modo, a narrativa acompanha os passos de um militar e um funcionário de uma fábrica de bananas em meio a aulas de dança — numa trama que, a princípio, pode parece nonsense… Só que não. O casamento de ambos os personagens coincide com o Massacre das Bananeiras, como ficou conhecida a ocasião em que o exército colombiano matou mais de dois mil trabalhadores de uma multinacional americana, em 1928, para reprimir uma greve.
Na constelação de lampejos cronometrados por alertas sonoros, justapõem-se cenas dramáticas e violentas, números musicais, performances de dança… E por aí vai. Ao fim e ao cabo, sobressai o retrato de um continente que agoniza enquanto faz da queda um passo de dança. A miríade de contrastes que marcam a dramaturgia assinada por Pedro Kosovski e Carolina Lavigne foi “arduamente realçada” pelo diretor junto ao elenco, formado pelos atores Matheus Macena, Carolina Virgüez e Juracy de Oliveira (que, na temporada carioca, entrou no lugar de Rafael Bacelar, indicado ao Prêmio da Associação Paulista de Críticos, a APCA).
— O livro de Galeano aborda a exploração e a dependência econômica na América Latina. Mas existe outro lado, né? Veja bem, a gente faz o carnaval! A gente dança, a gente se diverte… E tudo isso vem quase como uma resistência. E aí estamos nós, artistas, produzindo beleza no meio de tanta dificuldade — exemplifica o diretor. — Por isso, muitas vezes, as cenas são quase intercaladas no espetáculo. Há uma sequência de um relato terrível, mas logo depois vem uma dança ou uma festa ou uma alegria. A vida é assim. A gente está no mundo dessa forma.
A rigor, a atual montagem dá sequência para a investigação de assuntos semelhantes perscrutados em outras obras do grupo. Exemplos recentes são “Cara de cavalo” (de 2012), “Caranguejo overdrive” — fenômeno teatral que abocanhou quase todos os principais prêmios do país entre 2015 e 2016 — e “Guanabara canibal” (de 2017). Todas as montagens desvelaram lados pouco conhecidos das histórias do Rio de Janeiro e, por que não?, do Brasil.
— Este é um tema que a gente persegue, movido pela vontade de olhar para a História sempre com o viés do que não foi contado — ressalta o diretor do grupo, que nas últimas duas décadas jamais contou com qualquer patrocínio. — Acho que companhias com um trabalho continuado deveriam ter algum tipo de apoio constante, sabe? Para nós, cada nova peça representa uma luta, uma batalha por espaços em editais para conseguir pautas em teatros. É como se sempre voltássemos ao zero.