Já era tradição: todo agosto, Ana Redivo viajava para comemorar seu aniversário em algum lugar diferente, no Brasil ou no exterior. Em agosto de 2024, o destino era Nova York, onde iria celebrar os 31 anos que completaria no dia 12. Mas nada saiu como planejado e sua vida foi interrompida pela queda do voo 2238, da Voepass, que caiu há exatamente um ano em Vinhedo, interior de São Paulo. Ela foi uma das 62 vítimas do acidente aéreo (quatro tripulantes e 58 passageiros) ocorrido em 9 de agosto de 2024. O avião saiu de Cascavel com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, mas nunca chegou ao seu destino.
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A mãe de Ana, Elizabeth Redivo, olha com saudade todos os dias para um retrato da filha na sala de casa. Nutricionista, leonina, moradora de Cascavel, Ana costumava ir todos os domingos a Santa Tereza do Oeste, cidade vizinha onde os pais vivem.
— Era sagrado o churrasco de domingo, todo fim de semana ela estava lá em casa. Esse ano, sem ela, tem sido de dor, de falta, de revolta e de indignação por pensar que uma pessoa tão cheia de vida, no auge de sua carreira, foi podada. Foi uma vida podada. Uma não, várias. E por negligência e irresponsabilidade. Não foi acidente, foi assassinato. Para mim, não está fazendo um ano, é como se tivesse sido ontem — disse ao GLOBO.
Neste sábado, será realizado em Vinhedo um ato ecumênico em homenagem às vítimas do voo 2283, para marcar um ano do ocorrido. Autoridades, lideranças religiosas e representantes de diversos órgãos, entre eles a Defensoria Pública e a Defesa Civil, estarão presentes. O evento acontece na Igreja Batista Água Viva.
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Estabelecer uma nova rotina tem sido tarefa árdua também para Adriana Ibba, que perdeu a filha de apenas três anos no acidente. Liz estava com o pai, que também morreu, e iria para Florianópolis comemorar o dia dos pais com ele. A mãe esperava ver a filha novamente em poucos dias.
— Essa dor é intensa e dura as 24 horas do dia. Tudo que eu olho, imagino: ‘ela iria gostar, nossa, ela iria gostar tanto daquilo’. A minha filha, de três anos e dez meses, usava fralda, mamava de madrugada. Nos primeiros meses, todos os dias, às 4 horas da manhã, eu acordava no horário da Liz mamar — conta.
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Um ano depois, o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) ainda não concluiu o relatório final que vai explicar as causas do acidente, e a Polícia Federal (PF) ainda investiga o caso para identificar e indiciar os responsáveis. Na semana passada, o G1 publicou entrevista com um ex-funcionário da Voepass. Ele revelou que o sistema de degelo do avião já apresentava problemas antes. E que a falha foi omitida do diário de bordo técnico (TLB).
Os familiares recusam chamar o ocorrido de acidente e esperam responsabilização criminal para que o horror por que ainda passam não se repita.
— Foi um crime. E quero o culpado na cadeia. Eu amei, zelei e cuidei da minha filha, não dei (a ninguém) o direito de a matarem. Eu não sabia, mas alguém estava ciente da precariedade daquela aeronave, alguém assumiu um risco. A gente não pode normalizar entrar num avião, como fiz hoje para vir a Campinas, e se sentir inseguro. Pensar “será que está sendo fiscalizado? Será que essa manutenção está em dia?” Todos nós usamos aviões, pode ser um pai, uma mãe sua, um irmão seu. Pode ser qualquer pessoa — desabafa Adriana.
Fátima Albuquerque conversou pela última vez com a filha, Arianne Albuquerque Risso, por telefone na noite anterior ao voo. Arianne tinha 34 anos, era médica e fazia residência em oncologia no Hospital do Câncer de Cascavel, e naquele dia iria para um congresso de medicina em Curitiba. Pegou o voo em direção a Guarulhos, onde faria uma escala. A residência era a realização de um sonho, que começou quando ela cursou medicina em Fernandópolis (SP), onde também iniciara a carreira médica e se casara. Depois, trabalhou em Blumenau (SC) por dois anos, até iniciar a especialização em oncologia. Eram dias inteiros dentro da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e seu o plano era mudar, com o marido, para Fortaleza, em dez meses, justamente para ficar mais perto da mãe, que vive na capital cearense.
— Toda vez que a gente conversava, ela dizia: “quantos dias falta, mãe, para a gente morar juntas?” A gente contava os dias, os meses, porque ela nunca quis ficar longe. Eu dizia “minha filha, está tão perto, só faltam dez meses pra gente ficar definitivamente do lado uma da outra”. Ela já tinha passagem comprada para novembro para vir para Fortaleza para começar a procurar onde morar — conta Fátima.
A notícia de que sua filha era uma das vítimas do voo 2283 veio como um choque. Primeiro, ela viu na televisão que um avião vindo de Cascavel havia caído. Pouco depois, recebeu a ligação do genro, que não precisou nem detalhar o que havia acontecido. Estranhando a ligação no meio do dia, quando normalmente ele estaria trabalhando, Fátima já sabia que havia algo muito errado
— Ele nem falou, eu só disse: “A Arianne estava no voo, né, Léo?”. E ele disse que sim. Foi desesperador, a pior coisa do mundo. E foi a pior forma de saber. Você está vendo sua filha ser queimada ao vivo, e isso é um impacto psíquico que não tem tamanho — relembra, com tristeza — Estamos há um ano lutando por justiça, foi uma tragédia anunciada, não um acidente. Essa é a única força que a gente tem nesse estado de dor que vivemos. Um ano é um tempo relativo, ele não existe dessa maneira para nós. Para mim o avião caiu hoje, cai todo dia, minha filha queima todos os dias.
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Foi desse sentimento de busca por justiça que nasceu a Associação dos Familiares das Vítimas do Voo 2283, da qual Fátima é uma das idealizadoras. O grupo representa todas as vítimas, tripulantes e passageiros, e por meio dele houve reuniões para que as famílias buscassem acordos de indenização.
O Ministério Público do Paraná e o de São Paulo, a Defensoria Pública do Estado de Paraná e a de São Paulo, e a Fundação Getúlio Vargas (FGV) criaram um núcleo para possibilitar acordos de reparação financeira com as famílias que assim desejassem, de forma voluntária. Cada acordo é sigiloso e o valor da indenização foi individualizado. Ao todo, 53 famílias fecharam acordo com a Voepass, mas, devido à confidencialidade, não foram divulgados os valores das reparações.