A queda do avião da Voepass, que saiu de Cascavel, no Paraná, rumo ao Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, deixou 62 mortos em 9 de agosto de 2024, quando a aeronave se chocou contra o solo na cidade de Vinhedo, no interior paulista. Um ano depois da tragédia, as famílias ainda aguardam a divulgação do relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão da Força Aérea Brasileira responsável por apurar as causas de quedas de aeronaves.
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A principal hipótese para a queda, até o momento, é uma falha no sistema que deveria evitar o acúmulo de gelo na aeronave. O único órgão capaz de determinar com exatidão a causa do acidente é o Cenipa. Apurações de outras entidades, no entanto, identificaram irregularidades no setor de manutenção das aeronaves da Voepass.
A da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) levou à cassação definitiva do certificado de operação aérea da empresa. A decisão ocorreu após o órgão federal identificar uma série de falhas na gestão da segurança operacional. Relatório da Agência identificou que entre agosto de 2024 e março de 2025 a Voepass operou 2.687 voos com aeronaves que não estavam em condições de manutenção adequadas.
Outra apuração corre na Polícia Federal. O órgão conduz inquérito que poderá responsabilizar os culpados por falhas. Na última quinta-feira, familiares das vítimas se reuniram com o delegado chefe da PF em Campinas, Edson Geraldo de Souza. Segundo o o criminalista Luciano Katarinhuk, advogado que representa as famílias como assistente de acusação, o delegado informou que o inquérito só será apresentado após o relatório final do Cenipa.
— As famílias não estão preocupadas com indenização, mas sim com uma punição, para que esse tipo de acidente não aconteça mais — diz Katarinhuk.
Investigações como a do Cenipa são demoradas pela complexidade das informações analisadas. Em outros acidentes aéreos, como o da TAM, que ocorreu em 2007, e deixou 199 mortos, o relatório final levou dois anos para ser divulgado. Outro acidente, o que vitimou o então candidato à presidência Eduardo Campos (PSB) e outras seis pessoas em 2014, teve o documento conclusivo liberado um ano e meio depois.
Para O GLOBO, o órgão da Força Aérea informou que a investigação está na fase de análise de dados. Foram realizados testes com componentes recuperados no local do impacto e a checagem de 15 mil voos realizados por aeronaves da companhia.
Relatório preliminar divulgado em setembro demonstrou possíveis problemas nos componentes que deveriam evitar o acúmulo de gelo. Segundo o Cenipa, no dia do acidente as condições meteorológicas ao longo do trajeto da aeronave, um ATR-72, favoreciam a formação de gelo severa, com temperatura no ar abaixo de 0ºC.
Antes da queda, o sistema de degelo pneumático, que funciona por meio de botas infláveis que expelem as camadas de gelo das asas, foi ligado e desligado por três vezes. O copiloto também disse a seguinte frase: “bastante gelo”.
Segundos depois do comentário, a aeronave fez uma curva para a direita e o controle foi perdido. O avião entrou no movimento chamado de parafuso chato, dando cinco voltas completas no entorno do próprio eixo, até atingir o solo.
Celso Faria de Souza, engenheiro aeronáutico e diretor da Associação Brasileira de Segurança de Voo, explica que, caso o sistema opere de forma falha, as consequências, de fato, podem ser catastróficas.
— Se você muda a geometria (da asa pelo acúmulo de gelo), ela para de funcionar, e é ela que dá sustentação ao avião. Mas, por enquanto, isso é uma suposição. A expectativa é grande (para o relatório final) — diz Souza.
Falha foi omitida antes da decolagem
Outra informação, divulgada pelo Fantástico, também aponta para o mesmo problema. Segundo reportagem do programa da TV Globo, antes da decolagem, uma falha foi omitida. Segundo um mecânico da companhia, que preferiu não se identificar, horas antes da queda, os sistemas de degelo não estavam operando de forma adequada, conforme relatado por um piloto em um voo anterior, horas antes do acidente.
A queixa não foi registrada oficialmente e a aeronave foi liberada. A pressão para não registrar problemas do tipo viria da chefia, que não queria aviões parados sob manutenção.
Em nota, a Voepass informa que em 30 anos de operação “jamais havíamos enfrentado um acidente”. A empresa disse que confia no trabalho do Cenipa e que a aeronave em questão estava com os certificados de operação válidos e com “todos os sistemas requeridos em funcionamento”. A empresa informa também que deu apoio “integral às famílias das vítimas” e que logo após o acidente formou um comitê de gestão de crise que ofertou psicólogos e suporte funerário.
No dia da queda, em 9 de agosto de 2024, o cenário encontrado pelas equipes de resgate foi desolador. Em entrevista ao O GLOBO uma semana após o acidente, o capitão do corpo de bombeiros Maycon Cristo relatou que a retirada dos 62 corpos se estendeu por dois dias. Como em um acidente de carro, as vítimas de um aéreo podem ficar presas nas ferragens.
— Fomos abrindo a aeronave, retirando a fuselagem, cortando metal, retirando bancos que dificultavam o acesso da equipe de identificação — relatou Cristo à época.
Os corpos foram depois levados para a sede do Instituto Médico Legal (IML) em São Paulo. Uma força-tarefa de mais de 40 médicos legistas identificou todos os mortos em menos de uma semana e concluiu que todas as vítimas morreram de forma instantânea, por politraumatismo, no momento da queda.