Um dos treinadores mais jovens da Série A do Brasileiro, Rafael Guanaes, de 44 anos, chegou em março ao Mirassol e já colocou sua marca na equipe, caçula da primeira divisão e adversária do Flamengo hoje. Ao GLOBO, o técnico — que cumprirá suspensão e será substituído pelo auxiliar Ivan Baitello no Maracanã — analisou o momento do time e compartilhou detalhes de sua rotina longe dos gramados.
A que você atribui o sucesso do Mirassol, hoje quinto colocado no Brasileirão?
O contexto do Mirassol sempre foi de muita coletividade, com ideias de jogo que vêm se carregando ao longo de sua história. É um clube muito família, dos gestores às parcerias, e isso contribui para forma como o time joga. Por mais que seja do interior, é um clube que sempre pensou grande.
Até onde o time pode chegar?
Está muito claro que uma temporada de sucesso para o Mirassol é permanecer na Série A. Conseguir isso entre tantos gigantes, e com a diferença estratosférica que existe para alguns deles, com certeza seria um título para nós. Estamos concentrados nisso e, ao mesmo tempo, trabalhando muito para sonhar mais alto.
Você é um treinador jovem. Como é ver seu nome projetado nacionalmente?
Comecei minha carreira em 2011 como treinador na quarta divisão paulista. Gosto de lembrar minha trajetória, porque aí não me empolgo. Ou, se a coisa não está legal, também não fico devastado. Tenho que ser equilibrado no momento em que a coisa não está funcionando e entender que não sou o pior treinador do mundo, por mais que no Brasil o treinador seja responsabilizado pelos resultados ruins. E, em um bom momento como este, lido com o mesmo equilíbrio. Enquanto o objetivo principal não for conquistado, não ficarei empolgado em momento nenhum.
Como você definiria seu estilo de trabalho?
Sou um treinador que gera mais resultado a longo prazo. Acredito muito no tempo, na maturação das pessoas e dos processos: modelo de jogo, metodologia de treino, relacionamentos… Gostaria que a realidade do futebol brasileiro permitisse ao treinador assinar contratos mais longos e não esses de seis meses ou um ano, que são o padrão.
O que faz fora dos gramados?
Eu sou um cara muito família. Estou casado e tenho quatro filhos. Gosto de sair e ter tempo com eles para ver um filme, almoçar, tomar café… Tenho dois adolescentes que vão fazer 16 anos agora em agosto (Ben e Liri), Sara, de 7, e Gabriel, de 2. Todos moram e sempre viajaram comigo. Fiz as contas… Eles já estudaram em 18 escolas. Quando chega a metade do ano, a escola começa a perguntar sobre rematrícula, e a gente nunca consegue responder.
Tê-los por perto influencia positivamente seu trabalho?
Totalmente. Eu moro a 10, 15 minutos do CT. Às vezes, tem treino em dois períodos. Eu vou para casa depois do almoço e, antes da soneca do meu pequeno, fico com ele um pouquinho. Passo meia hora em casa e volto para o CT. No fim do dia, consigo ver todos eles e participar do desenvolvimento, ser pai. Quem está à distância também consegue conversar, mas não é o mesmo que estar presente.
Qual o seu passatempo favorito?
Eu gosto muito do cinema. Dificulta agora por causa do meu filho pequeno. Mas é algo que eu gosto muito de fazer. Gosto de sair para tomar café, para conhecer lugares, padarias, cafeterias. Geralmente vai à família toda, às vezes vai só eu e minha esposa. E com a família, toda semana tem um filminho com pipoca, isso não falha. Em casa mesmo, todo mundo se encaixota ali no sofá e o difícil é escolher o filme só. São seis cabeças para escolher o filme, mas como um bom líder eu me posiciono (risos). O último foi “Como Treinar Seu Dragão”. Filmaço, recomendo.
Você tem formação acadêmica, certo?
Estudei Educação Física nos Estados Unidos. E gosto de estudar coisas diferentes do futebol. Agora estou estudando neurociência, pensando não apenas no comportamento humano, mas em como correlacionar isso com o método de treino, para que o jogador tenha uma assimilação melhor. Estou atrasado, porque não sobra muito tempo. Mas devagarinho a gente consegue. Fiz também o curso de treinadores da Argentina e os da CBF (licenças B, A e Pro).
Tinha algum plano B, caso não trabalhasse com futebol?
Eu estava indo para a área de Engenharia. Mas não sei como seria esse Rafael engenheiro, não. Para ser sincero, não me via fazendo algo que não fosse relacionada ao futebol. Minha vida sempre esteve muito atrelada a ele. Eu gostava de jogar videogame quando era adolescente, e era tudo futebol: Football Manager, Elifoot…
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Jogava muito Football Manager?
Era viciadaço. Passava horas… Mas hoje não dá tempo. Nem lembro a última versão que joguei. Vou até instalar, porque o banco de dados deles é muito bom e pode me ajudar, trazer uma visão diferente. Mas não dá para ficar viciado, com quatro filhos e um time da Série A. Você enfrenta Flamengo, Cruzeiro… Ou dorme e trabalha ou está ferrado.
Em que técnicos se inspira?
Gosto muito do Tite entre os treinadores brasileiros. Gosto do Phil Jackson no basquete e do Bernardinho no vôlei. No futebol internacional, admiro como as equipes do Pep Guardiola jogam e a intensidade dos times do Diego Simeone.