Duilia de Mello já descobriu uma supernova, ajudou a desvendar galáxias, contribuiu em inúmeras pesquisas com dados do Telescópio Hubble e conhece de perto os limites do conhecimento científico. Hoje, porém, o que tira o sono da astrofísica brasileira de 61 anos não são os mistérios de um buraco negro ou aquilo que compõe o infinito vazio do universo, mas sim o vácuo de apoio à ciência nos Estados Unidos sob o governo de Donald Trump.
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A cientista, vice-reitora da Universidade Católica da América, em Washington, e colaboradora da Nasa — sobretudo no Goddard Space Flight Center — conversou com o GLOBO sobre sua carreira, os avanços da ciência, os cortes alarmantes em universidades e agências federais americanas e os riscos a missões espaciais planejadas para a década.
Referência internacional, a astrofísica, que também atua como divulgadora científica, estará na próxima quarta-feira na Rio Innovation Week, apresentando uma palestra sobre a astronomia como um caminho inspirador para jovens cientistas, especialmente as meninas.
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A senhora tem feito ciência de ponta por mais de duas décadas, em ambientes de muito prestígio global. O que mudou na forma como se produz ciência desde os anos 1990 até hoje?
A facilidade hoje que nós temos de comunicação. Isso influencia na forma como a gente faz ciência e torna o ambiente científico mais colaborativo. A última década mudou muito, e a próxima vai mudar ainda mais com a inteligência artificial. Na minha vida acadêmica, o desenvolvimento da internet teve um impacto valiosíssimo. Eu me lembro de passar as madrugadas nas bibliotecas, consultando os livros, e hoje é quase tudo digitalizado, e a acessibilidade e a democratização da ciência é muito maior. Mas hoje também se perde mais tempo peneirando as coisas. Há dois lados, a falta e excesso de informação.
A senhora trabalha com dados do Hubble em diversos programas de imagem profunda do universo. Existe alguma imagem, fato ou dado específico que ainda a inquieta ou que, mesmo anos depois, segue sem explicação?
Sempre que você vê uma imagem do Hubble, você tem uma resposta e muitas perguntas. O conhecimento é como um ciclo. À medida que você vai conhecendo mais sobre algo, a fronteira aumenta.
No Nasa Goddard Space Flight Center a gente sempre ficou muito intrigado com a evolução das galáxias, como que em bilhões de anos elas vão modificando até formar outras como a nossa, a Via Láctea. Mas teve uma hora que o Hubble atingiu o seu limite, por causa do tipo de detectores que ele tem. E aí com o James Webb a gente começou a ver as galáxias que nasceram quando o universo tinha “só” 100 milhões de anos, o que é pouco, porque o universo tem 13,8 bilhões de anos.
Então o que eu gostaria ainda de responder é: até que ponto a gente vai chegar mais próximo do Big Bang? A gente vai conseguir ver a luz das estrelas nas galáxias lá do universo primordial?
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E como a senhora lida com essa ideia de limite do conhecimento?
Eu acho intrigante, por exemplo, que a gente ainda não saiba nada sobre energia e matéria escuras. Se as previsões estão corretas, são as maiores constituintes do universo, mas o que a gente vê é menos de 1% dele, uma visão enviesada. Se tivéssemos outros tipos de informações, de repente observaríamos um universo por completo. Ou é isso, ou é as contas estão erradas, e aí dá aquele medo de ter de refazer todos os estudos. Mas temos que ter esse tipo de expectativa com a ciência e o desconhecido.
A Nasa vai lançar a próxima grande missão dela, o Roman Space Telescope, para estudar sobre isso no ano que vem ou no próximo. Vamos torcer. O que me tira o sono hoje é saber que pode ser que a gente não consiga mais desenvolver esses projetos como se fazia até o ano passado, por causa das novas políticas do país.
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Como a senhora mencionou, os EUA estão num momento de cortes tanto em universidades como em agências federais, incluindo a Nasa. A senhora já sentiu algum impacto direto no seu trabalho, tanto como pesquisadora quanto como gestora acadêmica?
Estamos sentindo muito as novas diretrizes do governo na Universidade Católica. Um dos impactos é, por exemplo, a falta de apoio para estudantes internacionais. Grande número dos estudantes nos EUA são internacionais, e eu mesma fui um deles. As universidades estão capengando, essa é a palavra correta. Nessa época do ano, normalmente teríamos por volta de 150 vistos dados para estrangeiros para vir para os EUA [estudar na universidade]. Esse ano são só 52.
Na Nasa, a situação é seríssima. A nossa universidade tem um instituto dentro da agência espacial com cerca de 100 pessoas afiliadas, mas isso deve acabar em breve. Esses institutos são financiados por acordos entre várias universidades e o governo, e foi tudo cortado. Cortes de até 80%, dependendo do projeto.
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Já saíram por volta de 4 mil funcionários da Nasa pelo programa de “aposentadoria acelerada” do governo. Um amigo mais novo do que eu, engenheiro de foguetes, entrou nesse programa porque disse que não conseguia mais funcionar dentro da divisão que ele trabalhava, que tinha 17 engenheiros e agora tem só quatro. Muitas pessoas da diretoria e cargos de chefia também foram mandadas embora.
São pessoas, não cientistas, que estão tomando essas decisões. Pessoas pouco esclarecidas e que não têm visão científica nenhuma.
A missão do Roman está ameaçada? E as da Artemis, programadas para os próximos anos?
Estávamos com medo, mas parece estar tudo bem com a Roman. Mas encerraram outras, como a New Horizons, aquela que foi para Plutão e tirou aquela foto famosa do “coração”. Sobre a Artemis, temos que lembrar que ela enviaria o primeiro negro e a primeira mulher para a Lua [os planos foram adiados em março deste ano]. Mas o governo é antidiversidade. Então, só se derem um outro ângulo pra Artemis. Da forma como ela foi planejada, ela não vai voar. Não tenho esperança, vejo com um certo pessimismo.
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A ciência brasileira tem muitas cientistas mulheres de destaque, mas que raramente são conhecidas fora da academia. Por que a visibilidade continua sendo um desafio?
Não é só a mulher cientista que não tem visibilidade no Brasil, acho que são todos. Se você vai na rua e pergunta o nome de um cientista brasileiro, ninguém sabe. E eu não sei se é uma coisa só do Brasil ou até do mundo. Hoje existe muita informação através da mídia social, as pessoas fazem homenagens, vídeos, contam as histórias… Vejo um certo avanço nesse sentido, mas é pouco. Por que que não tem escola com o nome de grandes cientistas? Ou praças e locais públicos? Acho que seria uma forma de gerar mais curiosidade entre as pessoas.
A divulgação científica de certa forma preenche essa lacuna, vejo com bons olhos. Como já escrevi antes, eu sonho que um dia a ciência seja falada nos botequins e padarias nas esquinas do Brasil. Um dia em que ciência seja tema de escola de samba. Mas, por enquanto, não é.
O que uma menina de 10 anos precisa ouvir hoje para acreditar que pode mudar a ciência?
Eu digo hoje para todos e para as meninas, em particular, que ciência não é para qualquer um. Ela exige muita dedicação, mas, ao mesmo tempo, ela dá muito prazer também. E tem que gostar de matemática, não tem jeito, e tem que se dedicar.
Não precisa ser gênio, não. Eu não sou, nunca fui, já tirei zero, já reprovei. Ser cientista é gostar de aprender e passar esse conhecimento pra frente. E não desistir na primeira pedra, serão muitas pelo caminho.
