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Guerra traumatiza milhares de ucranianos com lesões faciais e longa jornada de recuperação; veja vídeo

BRCOM by BRCOM
agosto 10, 2025
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O Dr. Parag Gandhi, ao centro à direita, e sua equipe da missão “Face to Face” realizam uma cirurgia ocular em um paciente em Lviv, Ucrânia — Foto: Laetitia Vancon/The New York Times

Após mais de três anos de guerra, milhares de ucranianos lutam contra o trauma físico e emocional causado por graves lesões faciais. Os médicos utilizam métodos de ponta, como a impressão 3D, para reconstruir rostos. A recuperação é árdua, com feridas que prejudicam a alimentação, a fala e até mesmo o senso de identidade.

Os pacientes dependem dos médicos para curar suas feridas físicas e do apoio da família para seguir em frente. O rosto é a janela para a identidade e a emoção. Tê-lo desfigurado não é apenas estar ferido, mas estar desligado do próprio senso de identidade. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, muitos ucranianos sofreram ferimentos faciais graves, um testemunho brutal do poder das armas modernas e da vulnerabilidade da carne.

— Um soldado perde uma perna e a sociedade o chama de herói — disse Andrii Kopchak, chefe do Departamento de Cirurgia Maxilofacial da Universidade Nacional de Medicina Bogomolets, em Kiev, Ucrânia. — Mas perder o rosto? Você se torna um fantasma.

Os cirurgiões fizeram avanços significativos no tratamento dos feridos da Ucrânia, principalmente com o uso da impressão 3D. Ao criar implantes e guias cirúrgicos específicos para cada paciente, a tecnologia permite uma reconstrução mais precisa de mandíbulas, maçãs do rosto e órbitas oculares destruídas — restaurando não apenas a função, mas os contornos da identidade de uma pessoa.

O Dr. Parag Gandhi, ao centro à direita, e sua equipe da missão “Face to Face” realizam uma cirurgia ocular em um paciente em Lviv, Ucrânia — Foto: Laetitia Vancon/The New York Times

O New York Times passou dois anos visitando homens e mulheres cujas vidas foram destruídas e conhecendo os médicos e voluntários que trabalham para ajudá-los.

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  • Lutando para voltar à batalha
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Lutando para voltar à batalha

— É a mesma luta, por você mesmo, pela sua vida — disse Volodymyr Melnyk. — Assim como nas trincheiras, o mesmo vale para a cama do hospital após a lesão.

Durante toda a sua recuperação, Melnyk foi movido por um desejo ardente: voltar à luta.

A guerra destruiu seu rosto; A tecnologia ajudou a reconstruí-lo.

A guerra destruiu seu rosto; A tecnologia ajudou a reconstruí-lo.

Cirurgiões ucranianos e estrangeiros fizeram avanços significativos no tratamento dos feridos. Os médicos afirmam que as cicatrizes psicológicas podem ser ainda mais difíceis de curar.

Melnyk, 32, foi ferido em 2023, quando sua unidade invadiu uma posição russa no topo de uma colina e, após um intenso combate, assumiu o controle dela. Durante a batalha, estilhaços rasgaram seu rosto.

— Todos os nervos do lado direito do meu rosto foram cortados — disse ele. — Todos os ossos foram esmagados. Eu não conseguia enxergar com meu olho.

Volodymyr Melnyk, que passou por mais de 50 cirurgias, em sua casa em Kiev, Ucrânia — Foto: Laetitia Vancon/The New York Times
Volodymyr Melnyk, que passou por mais de 50 cirurgias, em sua casa em Kiev, Ucrânia — Foto: Laetitia Vancon/The New York Times

Melnyk passou por várias cirurgias. Placas foram colocadas incorretamente, abcessos se formaram e estilhaços ficaram dentro do corpo. Somente após quase dois meses, voluntários do projeto “Médicos para Heróis” intervieram, ajudando a transferi-lo para um novo hospital e um novo programa para reconstruir seu rosto.

— Nós escaneamos o crânio, criamos um modelo digital e imprimimos placas de titânio camada por camada — disse Kopchak, mostrando uma tomografia computadorizada da mandíbula esmagada de um paciente. — É como reconstruir um vaso quebrado. Cada fragmento é importante.

Melnyk passou por mais de 50 operações. No outono passado (primavera no Brasil), ele se preparava para o que esperava ser a última.

— O principal era poder mastigar e comer, porque isso é a energia para uma pessoa, especialmente um soldado — disse ele.

Desde então, ele voltou ao serviço na linha de frente.

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Artur Tkachenko voltou da linha de frente esperando ter deixado o pior da guerra para trás. Apenas algumas semanas depois, quando ele, sua esposa, Julia, e sua filha de 20 meses visitavam seus pais, o míssil atingiu a casa. A explosão que matou seus pais também feriu sua esposa e filha, lançando a menina a mais de 20 metros de distância. Quando recuperou a consciência, Tkachenko, agora com 37 anos, não reconheceu o rosto no espelho.

— Estava muito diferente — disse ele de uma cama de hospital em Kiev, ainda lutando para encontrar palavras. — Eu não conseguia sentir partes da face. Eu nem conseguia falar.

Ele sofreu graves danos no crânio e nos ossos faciais.

— Estilhaços ficaram incrustados profundamente em sua cabeça, um deles estava até mesmo saliente quando ele chegou — disse Roman Kozak, cirurgião que realizou a cirurgia reconstrutiva inicial no ano passado.

Artur Tkachenko, à direita, que ficou gravemente ferido por um míssil russo, com sua esposa, Julia, e seus filhos em casa em Novosofiivka, Ucrânia — Foto: Laetitia Vancon/The New York Times
Artur Tkachenko, à direita, que ficou gravemente ferido por um míssil russo, com sua esposa, Julia, e seus filhos em casa em Novosofiivka, Ucrânia — Foto: Laetitia Vancon/The New York Times

Foi um caso extremamente complexo, disseram os médicos, que mostrou tanto as possibilidades quanto algumas limitações da tecnologia.

Kozak e sua equipe colaboraram com bioengenheiros para reconstruir digitalmente o rosto destruído de Tkachenko. Com impressão 3D, eles criaram implantes personalizados para sua estrutura facial única, para manter os fragmentos ósseos no lugar.

— Agora, estamos nos preparando para uma segunda cirurgia para reconstruir sua pálpebra inferior e remover as placas de metal, que representam um risco de infecção devido à sua proximidade com os seios nasais — disse Kozak.

Nelya Leonidova está determinada a ajudar outras pessoas que sofreram ferimentos como os dela. A primeira coisa que Leonidova, agora com 45 anos, lembra depois de ter sido ferida foi a sensação do aço frio pressionando sua bochecha. Ela não sabia onde estava, apenas que estava escuro e que um cheiro forte pairava no ar — uma mistura de antisséptico e morte.

Ela voltava de uma granja de frangos para distribuir alimentos aos moradores locais quando aviões de guerra russos bombardearam a estrada.

— Meu primeiro pensamento, doloroso como uma facada, foi “as crianças” — disse ela. — Morrer não é assustador; agora eu sei disso. O medo é deixar seus filhos sozinhos neste mundo.

Seus filhos mais tarde escaparam do território ocupado pela Rússia, juntando-se a ela primeiro em Kharkiv e agora no oeste da Ucrânia.

Nelya Leonidova, que voltava de uma granja de frangos para distribuir alimentos aos moradores locais quando aviões de guerra russos bombardearam a estrada, em sua casa em Kolomyya, Ucrânia — Foto: Laetitia Vancon/The New York Times
Nelya Leonidova, que voltava de uma granja de frangos para distribuir alimentos aos moradores locais quando aviões de guerra russos bombardearam a estrada, em sua casa em Kolomyya, Ucrânia — Foto: Laetitia Vancon/The New York Times

Ela passou por inúmeras cirurgias, muitas para corrigir operações anteriores. Médicos da instituição de caridade canadense Face the Future usaram um implante de titânio, feito sob medida, para reconstruir sua órbita ocular destruída.

Leonidova agora quer estudar psicologia e abrir um centro para ajudar outras pessoas feridas na guerra. Seus pensamentos mais sombrios desapareceram. Ela e seu namorado, Nazar Zhurba, ficaram noivos.

— Sou uma mulher forte: fachada de titânio, mordida de aço e o olhar de um pitbull após uma briga, criando milagres como Medusa — disse ela com um floreio dramático. — Meu olhar transforma as pessoas em pedra.

Depois que uma mina explodiu e destruiu seu rosto, Bohdan Poplavskyi não queria que seus filhos o vissem. É comum, segundo os médicos, que pacientes com lesões faciais traumáticas queiram se isolar. Pacientes que estão irreconhecíveis para si mesmos podem ter dificuldade em recuperar seu lugar na sociedade.

O progresso de Poplavskyi tem sido lento — ele ainda não consegue falar e tem pouca visão. Poplavskyi luta mais com a perda da visão, disse sua família. Ele acabou se reunindo com seus filhos, que muitas vezes o guiam pelo mundo, e lhe dói não poder vê-los ou observá-los crescer.

Para esses pacientes, “o impacto psicológico é implacável”, disse Kopchak.

— Imagine olhar no espelho e não se reconhecer. Agora imagine sua esposa ou filho vendo você assim.

Ele viu casamentos desmoronarem e famílias se fragmentarem.

— Temos um psicólogo para centenas de soldados — disse ele. — Ele é um bom homem, mas não foi treinado para isso.

A colaboração internacional tem sido uma tábua de salvação, disse ele.

Cirurgiões finlandeses viajaram para Kiev para realizar complexos enxertos de nervos. Especialistas franceses compartilharam protocolos para reconstrução orbital. O grupo “Face to Face” desempenhou um papel fundamental.

A primeira cirurgia de Poplavskyi, no ano passado, durou 17 horas.

— Estamos lidando com a situação graças aos médicos — disse sua irmã, Dina Yakubenko.

Bohdan Poplavskyi, cujo rosto foi desfigurado pela explosão de uma mina, em um hospital em Kiev — Foto: Laetitia Vancon/The New York Times
Bohdan Poplavskyi, cujo rosto foi desfigurado pela explosão de uma mina, em um hospital em Kiev — Foto: Laetitia Vancon/The New York Times

Equipes médicas estão se preparando para usar terapia com células-tronco, na esperança de melhorar sua visão.

Apesar de todo o sofrimento, disse sua família, Poplavskyi, agora com 40 anos, permanece mentalmente estável e, o mais importante, eles estão juntos.

— Somos seu apoio psicológico — disse sua irmã. — E somos o apoio psicológico uns dos outros.

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