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Orlandeli explora memória e herança familiar em ‘Viola’, seu novo quadrinho com Chico Bento

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agosto 10, 2025
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'Mais uma história para o velho smith', HQ de Orlandeli — Foto: Divulgação

Cê deve di conhecê um minino bão dimais chamado Chico Bento, né? Ele é um caipirinha danado de simpático, mas o vô dele, o seu Firmino… aposto que ocê num sabe quem é, não. E nem o próprio Chico sabe também, ué. É que o pai do pai dele morreu antes dele nascê, deixando a vó Dita viúva, coitada.

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O Chico cresceu sem tê conhecido o vô. Aí um dia ele descobre que seu Firmino foi um violeiro arretado, dos bão mesmo! Foi daí que o pai dele deu pro minino a viola que o seu vô usava pra cantá as moda. Só que, olha só, a coitada veio só com duas cordas, em vez das dez que devia tê. Mas, mesmo assim, o Chico resolveu aprendê a tocá ela, pra vê se assim chegava mais perto do seu vô.

É assim, no adorável idioma caipirês — que tentei desgraçadamente emular acima — que Orlandeli conta, mais uma vez, uma HQ de Chico Bento, clássico personagem de Mauricio de Sousa. Em “Viola” (Panini), o quadrinista que nasceu no interior paulista — na pequena cidade de Bebedouro, mas cresceu em São José do Rio Preto — inspira-se em suas raízes rurais ao narrar a saga do menino caipira em busca das suas, assim como o próprio Mauricio fazia.

‘Mais uma história para o velho smith’, HQ de Orlandeli — Foto: Divulgação

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  • ‘É ansim que os Bento toca’
  • ‘Mais uma história para o velho Smith’
      • Orlandeli explora memória e herança familiar em ‘Viola’, seu novo quadrinho com Chico Bento

‘É ansim que os Bento toca’

A viola que dá título ao quadrinho de Orlandeli é uma herança que o menino recebe do pai. O instrumento pertenceu ao avô, que foi um grande violeiro, mas Chico não conheceu. Ao descobrir a história, o menino, fascinado, decide aprender a tocar a viola, mesmo com apenas um par de cordas, como explicado no início, em caipirês.

— Falar do universo do Chico Bento é mergulhar nas raízes do interior — explica Orlandeli. — A ancestralidade tem um lugar de respeito quando se fala em cultura caipira. Queria falar sobre isso. A ideia de usar uma viola veio rápido, tanto pela simbologia com a cultura caipira como por ser algo que pudesse ser passado por gerações. Uma espécie de legado: “é ansim que os Bento toca”.

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Foi aí que o quadrinista bebedourense, de 51 anos, lembrou do avô do personagem:

— Não lembrava dele nas histórias, então aprofundei nas pesquisas e, de fato, fiquei sabendo que ele faleceu antes de o Chico nascer. A única informação que se tinha era o nome, Firmino. Fiquei fascinado. Foi o suficiente para direcionar a história pra valer. Falaria não apenas de memória, ancestralidade… mas de um tipo diferente de saudade, a saudade das coisas não vividas.

“Viola” é a terceira HQ de Orlandeli com Chico Bento, antes vieram “Arvorada” (2017) e “Verdade” (2021). Além disso, é o 44o álbum da série Graphic MSP, selo editado por Sidney Gusman que permite a outros quadrinistas fazerem releituras dos personagens de Mauricio de Sousa.

— Quando o selo surgiu, me passou pela cabeça qual personagem escolheria caso fosse convidado. Curiosamente o Chico Bento não entrava nessa lista — lembra Orlandeli. — Aí, em 2016, recebo uma ligação com uma voz que não se identificou e perguntou “O que você acha do projeto GraphicMSP?”. Estranhei e perguntei “É o Sidão?”. Aí ele caiu na gargalhada, eu soltei um palavrão e também ri muito. Aí o convite veio e lembrei que o Chico é um personagem engraçado e, ao mesmo tempo, com um olhar para as coisas simples, mais humano.

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A memória também é o tema de “Mais uma história para o velho Smith” (Gambatte), porém vista por outro ângulo, mais melancólico, a partir da velhice e “do destino de nossas lembranças depois que elas vão embora”, como o próprio Orlandeli escreveu na contracapa de seu livro:

— Cada um de nós é feito de memórias. Como disse a Vó Dita em “Arvorada”: “Cada momento é um presente embrulhado em um pedaço de tempo”. A forma como nos relacionamos com nossas memórias afeta diretamente nosso estado emocional. É algo que pode tanto trazer uma lembrança agradável, como te levar a uma tristeza profunda. É uma questão humana. Acabo utilizando os quadrinhos para elaborar um pouco melhor a relação com minhas próprias memórias.

No fundo, o trabalho de Orlandeli costuma ter uma pegada mais existencialista, mesmo em tiras de humor mais ácido, como na clássica série “Grump”, sobre um sujeito de temperamento sórdido.

— É algo que foi entrando aos poucos no meu trabalho — esclarece o autor. — Depois de muito tempo desenhando o Grump, comecei a fazer o SIC, que tinha uma proposta diferente. Era bem experimental, uma mistura de nonsense, humor negro e poesia gráfica. Ali era um espaço em que eu conseguia pensar sobre várias questões.

Depois, em 2014, ele criou Yang, um garoto numa jornada de autoconhecimento, numa pegada oriental:

— A tira em si já tinha essa proposta mais existencial, com humor e filosofia. Mas até aí era uma opção. No começo de 2015, quase junto com a estreia do Yang, tive uma notícia daquelas que mudam pra sempre a sua vida. Desde então tento lidar com isso (o autor se refere à perda do filho, aos 11 anos, em decorrência de uma doença grave). Falar sobre questões existenciais é algo muito orgânico hoje em dia. Talvez meio que uma forma de eu mesmo tentar elaborar algumas dessas questões.

Autor: Orlandeli. Editora: Panini. Páginas: 96. Preço: R$ 49,90 (capa cartão) e R$ 69,90 (capa dura).

‘Mais uma história para o velho Smith’

Autor: Orlandeli. Editora: Gambatte. Páginas: 128. Preço: R$ 65.

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