O intelectual marxista León Trotsky, um dos protagonistas das revoluções que derrubaram o Império Russo a partir de 1917, vivia em exílio na Cidade do México, a 10 mil quilômetros de Moscou, mas nem esse meio mundo de distância o deixou a salvo do ditador Joseph Stalin, seu rival na União Soviética. No dia 20 de agosto de 1940, há 85 anos, um espião a serviço de Stalin, depois de se aproximar de Trotsky com uma identidade falsa, golpeou o revolucionário com uma picareta na têmpora, em seu escritório. Aquele foi um dos assassinatos políticos mais conhecidos da História.
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Com o estabelecimento da União Soviética, durante o governo de Vladimir Lenin, Trotsky ocupou o cargo de Comissário do Povo para Assuntos Militares. Ele e Stalin, então secretário-geral do Partido Comunista, divergiam sobre os rumos que o país deveria tomar. O assunto é bastante complexo, mas, basicamente, Trotsky defendia um “estado de revolução permanente” com o objetivo de espalhar o socialismo no mundo e criticava a burocratização do estado. Já Stalin queria que a União Soviética se concentrasse no próprio desenvolvimento. Era a doutrina do socialismo de um só país.
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Sob Lenin, a disputa se manteve latente. Depois da morte do presidente, em 1924, porém, Stalin assumiu o poder, e a rivalidade se agravou até que Trotsky foi expulso do Partido Comunista.
Obrigado a se exilar, o marxista e sua mulher, Natalia Sedova, viveram na França e na Noruega, antes de se fixarem no México, a partir de 1937. Eles chegaram a morar na casa da artista plástica Frida Khalo, com quem Trotsky teve um caso extraconjugal de cerca de seis meses. Depois de descobrir o romance secreto, o pintor Diego Rivera, marido de Frida e comunista declarado, escreveu um artigo alegando razões políticas para romper com com o revolucionário russo. Depois disso, o líder socialista foi morar numa casa no bairro de Coyoacán, na região central da Cidade do México.
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Mesmo longe da União Soviética, Trotsky fazia oposição ferrenha a Stalin, criticando o governante soviético em artigos e entrevistas e se tornando um dos fundadores da IV Internacional Comunista.
Stalin reagia perseguindo qualquer pessoa ligada ao adversário. Familiares e aliados de Trotsky foram executados ou presos por ordem dele, Em maio de 1940, a morte bateu na porta do líder marxista quando um grupo de comunistas mexicanos seguidores do presidente russo invadiram a casa onde ele morava, na Cidade do México, disparando tiros de metralhadoras, mas Trotsky e a mulher dele sobreviveram se escondendo debaixo da cama. O socialista exilado reforçou a segurança da casa, mas não esperava que a segunda tentativa viria na forma de um assassino infiltrado.
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O catalão Jaime Ramón Mercader, militante comunista e agente da polícia política russa, aproximou-se de Trotsky graças a uma secretária que se apaixonara por ele. Identificando-se como o empreendedor belga Jacques Mornard, um empreendedor belga simpatizante do líder socialista, Mercader tinha se encontrado com Trotsky em duas ocasiões. No dia 20 de agosto de 1940, ele chegou à casa no bairro de Coyoacán, na Cidade do México, com a mãe dele, que também era uma espiã soviética, dizendo que tinha escrito um artigo para publicação e que queria a opinião do político marxista.
Quando Trotsky se sentou para ler no escritório, o espião tirou do bolso de seu sobretudo uma picareta com o cabo cerrado e cravou a ferramenta na têmpora direita dele. O socialista russo ainda reagiu e se atracou com Mercader. Os seguranças da casa chegaram a golpearam o agente na cabeça, deixando-o inconsciente. “Não o matem, este homem tem uma história pra contar!”, teria gritado Trotsky, que foi levado a um hospital, mas morreu na madrugada seguinte. Mercader foi condenado a 20 anos de prisão. Em 1961, ele saiu da cadeia e foi recebido como herói pelo governo russo.
O assassinato de Trotsky foi tema de diferentes documentários e de uma ficção lançada em 1972, estrelada por Richard Burton no papel do Trotsky e por Alain Delon, na pele do espião assassino.
Stalin ficou no poder na União Soviética até sua morte, em 1953. Ainda hoje, simpatizantes de Trotsky o criticam pelo autoritarismo de seu governo, que perseguiu e executou opositores. Os defensores de Stalin, porém, alegam que Trotsky adotara medidas igualmente autoritárias enquanto esteve no cargo de Comissário do Povo para Assuntos Militares. Em entrevista recente à BBC, o escritor Leonardo Padura, autor de “O homem que amava os cachorros”, sobre os últimos anos de Trotsky, disse que a reputação do marxista poderia ser diferente se ele tivesse vencido a disputa com Stalin pelo poder.
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