O texto chama o projeto para construir cerca de 3,4 mil casas em uma área conhecida como E1 — entre Jerusalém Oriental e a região central da Cisjordânia — de “inaceitável e uma violação do direito internacional”. Os países criticam de forma explícita o ministro das Finanças e uma das principais vozes contrárias a um Estado palestino em Israel, Bezalel Smotrich, que disse, na semana passada, que o plano “enterra a possibilidade de um Estado palestino, porque não há nada a erconhecer e ninguém para reconhecê-lo”.
“Isso não traz benefícios ao povo israelense. Em vez disso, corre o risco de minar a segurança e alimentar ainda mais violência e instabilidade, afastando-nos ainda mais da paz”, diz o comunicado, que exige a reversão imediata do plano e acrescenta que o governo israelense “ainda tem a oportunidade de impedir” sua concretização.
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O texto foi assinado por representantes de Austrália, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estônia, Finlândia, França, Islândia, Irlanda, Itália, Japão, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Holanda, Noruega, Portugal, Eslovênia, Espanha, Suécia e Reino Unido, assim como pela chefe da diplomacia da UE.
O plano começou a ser desenhado no segundo mandato do premier Yitzhak Rabin, nos anos 1990, e desde 2005 estava engavetado por razões políticas. Contudo, a presença de um Gabinete no qual a extrema direita, favorável à anexação completa da Cisjordânia por Israel, tem voz soou como oportunidade para políticos como Smotrich, um defensor dos assentamentos judaicos em terras palestinas.
De acordo com lideranças palestinas e organizações israelenses que se opõem ao plano, a construção de 3,4 mil casas na área E1 eliminará a única reserva de terra ainda existente entre os principais centros urbanos palestinos da Cisjordânia — Jerusalém Oriental, Belém e Ramallah. Além disso, o novo bairro criaria uma linha contínua de assentamentos do centro da Cisjordânia até Jerusalém, dividindo o território em duas partes. Na prática, isso poderia inviabilizar um futuro Estado palestino com base nas fronteiras pré-Guerra dos Seis Dias, em 1967, o que incluiria toda a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.
Apesar das críticas, o plano foi aprovado na quarta-feira.
“A ação unilateral do governo israelense mina nosso desejo coletivo por segurança e prosperidade no Oriente Médio. O governo israelense deve interromper a construção de assentamentos, em conformidade com a Resolução 2334 do Conselho de Segurança da ONU, e remover suas restrições às finanças da Autoridade Palestina”, diz o comunicado, se referindo à resolução de 2016 que condena a expansão dos assentamentos.
O governo israelense não se pronunciou.
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Nas últimas semanas, além da pressão pelo fim da guerra em Gaza e por medidas que permitam o aumento do volume de ajuda disponível no enclave, Israel está sob críticas da comunidade internacional por causa da violência contra palestinos na Cisjordânia, protagonizada por suas tropas e por colonos. Há cerca de duas semanas, um ativista que participou da produção documentário vencedor do Oscar “Sem Chão”, Awdah al-Hathaleen, foi morto por um colono, um crime registrado em imagens mas que não levou ao indiciamento do assassino.
Também nesta quinta-feira, o governo britânico convocou a embaixadora israelense no país, Tzipi Hotoveli, para apresentar suas críticas às construções na área E1: em comunicado, a Chancelaria britânica disse que “se implementados, estes planos de colonização constituiriam uma violação flagrante do direito internacional e dividiriam um futuro Estado palestino em dois, comprometendo gravemente uma solução de dois Estados”.
Em julho, o premier britânico, Keir Starmer, anunciou que seu governo reconhecerá o Estado palestino no mês que vem, durante a Assembleia Geral da ONU, caso Israel não adote medidas concretas para encerrar a guerra em Gaza e para amenizar a catástrofe humanitária no território. Além do Reino Unido, países como França e Canadá também prometeram reconhecer a Palestina. Para Israel e seus aliados em Washington, a decisão é um “presente” ao grupo terrorista Hamas.