O presidente Javier Milei está reforçando a defesa da moeda da Argentina antes de outro grande leilão de dívida local faltando poucos dias para a eleição legislativa de 7 de setembro na província de Buenos Aires — onde vive um terço do eleitorado nacional —, e menos de três meses para as legislativas nacionais, de 26 de outubro.
Isso amplia a pressão sobre o sistema bancário e a economia em geral, enquanto Milei combate a inflação e o ajuda a escapar da crise de popularidade agravada pelo escândalo de corrupção que envolve sua irmã, Karina Milei, secretária-geral da Presidência e uma das figuras mais influentes do governo.
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Ontem, o presidente teve de ser retirado de uma carreata em meio a protestos com arremesso de pedras contra ele.
O governo oferece notas em peso e títulos de dívida atrelados ao dólar nesta quarta-feira em um leilão — o segundo em duas semanas — que visa refinanciar cerca de 9 trilhões de pesos (US$ 6,6 bilhões) em vencimentos futuros.
Esse é aproximadamente o montante disponibilizado em 13 de agosto, em uma venda que ficou aquém das expectativas e levou as autoridades a restringir a liquidez para proteger o peso.
Desta vez, eles não estão correndo riscos. Nesta segunda-feira, os dirigentes do banco central aumentaram novamente o percentual de depósitos que os bancos comerciais devem manter na autoridade monetária, o que, essencialmente, forçou os bancos a comprar mais dívida do governo. Estas medidas drenaram a liquidez e sustentaram a frágil moeda que ameaçava reavivar a inflação.
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Tudo aponta para um cálculo simples feito por Milei antes das eleições para o Congresso em outubro: depois de anos de aumentos desenfreados de preços ao consumidor e uma moeda em queda livre, os argentinos se preocupam mais com a inflação do que com o crescimento econômico.
— O governo parece priorizar uma taxa de juros real muito alta que afeta a atividade econômica para moderar a alta da taxa de câmbio — disse Matias Montes, chefe de estratégia da EMFI Securities.
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A política deu um respiro ao peso nesta terça-feira, que interrompeu uma onda de vendas de quatro dias, já que o mercado prevê que nenhum novo peso entrará na economia mesmo que o leilão de quarta-feira não atinja a meta de rolagem. A moeda chegou a se valorizar 1%, após atingir a mínima de três semanas no dia anterior.
— A equipe econômica antecipou uma possível baixa rolagem e modificou a política de reservas compulsórias antes deste novo leilão — disse Diego Chameides, chefe de Pesquisa e Estratégia do Banco Galicia. — (Com as mudanças) o Tesouro tem garantida uma demanda de aproximadamente 5 trilhões de pesos nos títulos de dívida que está oferecendo.
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As autoridades podem estar ganhando tempo. Os eleitores vão às urnas na província de Buenos Aires em 7 de setembro para eleger parlamentares locais e vereadores municipais. Os resultados indicarão se Milei conseguirá criar momentum para as eleições legislativas de meio de mandato em outubro, e tranquilizar os investidores de que a agenda de reformas tem força de sobra.
Enquanto isso, a defesa do peso apresenta um custo alto. Os rendimentos das notas locais, conhecidas como Lecaps, quase dobraram no último mês e ultrapassaram 90% em relação aos leilões anteriores. Atualmente, estão em 75%.
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A alta dos rendimentos eleva os custos de financiamento e reduz as margens de lucro dos bancos, que já se recuperam do aumento da dívida vencida. As ações dos maiores bancos argentinos em Wall Street — como o Galicia, o Banco Macro e o Supervielle — caíram até 47% nos últimos três meses.
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À medida que a liquidez se esgota, o crescimento dos empréstimos bancários desacelera. O setor, que no governo anterior se acostumou a lucrar com investimentos em papéis do Tesouro, quase dobrou os empréstimos privados em março em relação ao ano anterior — uma das principais conquistas de Milei no setor financeiro.
Entretanto, a turbulência cambial em julho interrompeu abruptamente essa tendência, pois as políticas de dívida do governo levaram os bancos a tirar recursos do setor privado e canalizá-los para papéis do governo.
Os ativos argentinos estão sob pressão devido a uma série de problemas políticos e econômicos que os investidores temem que possam deteriorar a imagem de Milei antes das eleições de outubro.
Após os esforços de Milei para conter os gastos públicos sofrerem um revés no Congresso, novas alegações de corrupção surgiram nos mais altos escalões do governo, envolvendo a irmã de Milei, Karina. Embora não esteja claro como a situação afetará os eleitores, ela abala a marca anticorrupção do presidente.
Enquanto isso, as expectativas dos investidores em relação à inflação aumentaram nas últimas semanas. A taxa de equilíbrio dos títulos locais de curto prazo subiu acima de 2% ao mês para setembro e outubro, acima de 1,7% no mês anterior, de acordo com a corretora local Amauta Inversiones.
A percepção de risco também aumentou. O spread extra exigido pelos investidores para manter a dívida da Argentina se ampliou para 829 pontos-base, o nível mais alto desde que o país assinou um novo acordo com o Fundo Monetário Internacional em abril.