Na pequena ilha de Lazzaretto Vecchio, o festival de cinema mais antigo do mundo ensaia seu futuro. Desde 2017, a ilha, antiga estação de quarentena para vítimas da peste, serve como palco para o Venice Immersive, a seção do Festival Internacional de Cinema de Veneza dedicada à produção de filmes em realidade estendida (XR). O trajeto de vaporetto leva apenas alguns minutos. Mas ao desembarcar, você pode muito bem estar a anos-luz do Lido, a base principal do festival de cinema, com sua agitação alimentada por celebridades, fãs e paparazzi.
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Na ilha, dezenas de vídeos, experiências e outros projetos que usam realidade virtual (RV), aumentada e mista para criar mundos digitais imersivos ganham vida em espaços internos labirínticos que totalizam mais de 4.600 metros quadrados. Elegante e surpreendentemente intimista, o cenário está muito longe das convenções da indústria e dos centros de tecnologia onde esse tipo de trabalho é frequentemente revelado.
Cerca de metade dos projetos selecionados também concorrem a três prêmios oficiais, concedidos na cerimônia de encerramento do festival, com os Leões de Ouro e Prata. O festival começou na quarta-feira (27) e vai até o sábado (6).
Em seu anúncio da seleção oficial no fim de julho, Alberto Barbera, diretor artístico do festival, orgulhosamente chamou o Venice Immersive, agora em sua nona edição, de “a competição de referência no mundo para todos aqueles que lidam com essa forma de expressão”.
Liz Rosenthal e Michel Reilhac, curadores do Venice Immersive, selecionaram a safra deste ano de 69 títulos — 30 dos quais concorrem aos prêmios do festival — entre cerca de 450 projetos.
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Em 2016, Reilhac foi o curador de um programa experimental de realidade virtual como parte do mercado do Festival de Cinema de Cannes. Depois que Cannes decidiu não continuar o experimento após o primeiro ano, Reilhac convenceu o Festival de Cinema de Veneza, que faz parte da Bienal de Veneza, a deixá-lo tentar algo semelhante. Ele e Rosenthal desenvolveram uma versão beta do Venice Immersive, chamada VR Theater, no final daquele ano.
— Poucos meses depois de Cannes, foi novamente um sucesso incrível — explicou Reilhac. — Com base nisso, a Bienal, no ano seguinte, decidiu: vamos dar a vocês os meios para realmente crescer e construir algo significativo.
Em 2017, a seção começou a premiar e se mudou para o Lazzaretto Vecchio, onde permanece até hoje, exceto por dois anos, quando a pandemia a forçou a ser online. (Cannes iniciou sua própria competição imersiva em 2024.)
— Estamos vendo o crescimento de uma tendência que está preenchendo a lacuna entre o cinema e a RV em termos de abordagens criativas — disse Reilhac sobre a programação deste ano, em uma entrevista em vídeo conjunta com Rosenthal no início de agosto. — Temos muitos projetos que usam a linguagem e a gramática do cinema e despertam emoções ao contar as histórias que contam.
— Michel e eu sempre abordamos isso como uma forma de arte que não é um artifício tecnológico.
Um dos projetos deste ano que ela destacou durante a entrevista foi “On the Other Earth”, do coreógrafo Wayne McGregor. O projeto, anunciado como “a primeira instalação coreográfica pós-cinematográfica do mundo”, é a colaboração inicial da Venice Immersive com a Bienal de Dança, da qual McGregor é curador, e ganhará vida no Arsenal de Veneza, o antigo estaleiro e depósito de armas da cidade, em vez do Lazzaretto Vecchio. Ele usa um formato totalmente novo, uma tela circular gigante de LED 360 com óculos de realidade mista — disse Rosenthal. — Você tem a sensação de estar realmente lá, com uma performance ao vivo.
Ela e Reilhac esperam trabalhar em conjunto com as outras seções da Bienal — arte, música, teatro e arquitetura — em edições futuras.
A cineasta taiwanesa Chen Singing levou para casa um dos principais prêmios do Venice Immersive 2022 por “The Man Who Couldn’t Leave”, um curta-metragem em 360 graus que mergulha o espectador em um episódio histórico angustiante de repressão política em Taiwan no pós-guerra.
— Sou muito grata a Liz e a Michel por fornecerem uma plataforma realmente ótima para muitos criadores e cineastas e por ajudarem a apresentar todos esses mundos virtuais de todo o mundo — disse Chen em uma recente entrevista em vídeo.
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Ela falava por meio de um tradutor de seu escritório em Taipei, Taiwan, onde dava os retoques finais em sua instalação de realidade virtual, “The Clouds Are Two Thousand Meters Up” (As Nuvens Estão a 2 Mil Metros de Altura), um dos 30 projetos selecionados para competir na programação deste ano.
O novo trabalho de Chen também recebeu financiamento adicional do Venice Production Bridge 2023, o mercado cinematográfico do festival e outra forma pela qual o festival apoia produções audiovisuais e imersivas. Inspirado em uma história do autor taiwanês Wu Ming-yi, o novo é uma experiência de RV para um único usuário, com liberdade de movimento, na qual as interações do participante são acionadas inteiramente pelo movimento da cabeça e pela caminhada.
— A RV é uma mídia muito nova e tudo ainda está em desenvolvimento, inclusive a parte técnica — avalia Chen. — Todos os anos, eu e minha equipe vamos ao Festival de Veneza e o que mais esperamos é ver como essas obras estão melhorando do ponto de vista técnico e narrativo.
Além dos recursos financeiros, tecnológicos e organizacionais que o Festival de Cinema e a Bienal de Veneza oferecem, Reilhac disse que a atmosfera única do Lazzaretto Vecchio foi fundamental para a identidade da seção e para o seu sucesso.
— Estar na ilha nos ajuda muito, porque você tem que fazer o esforço de pegar o barco, mesmo que leve apenas dois minutos para atravessar. A ilha é pequena, e todos estão lá porque a comunidade imersiva ainda não é enorme — conta Reilhac, acrescentando que muitas conexões profissionais e criativas ocorreram durante os coquetéis noturnos.
A presidente do júri de três pessoas deste ano é Eliza McNitt, diretora americana de filmes imersivos, bem como daqueles que usam tecnologias mais tradicionais. Ela também é uma veterana do Venice Immersive. Em 2018, “Chorus of the Cosmos”, a primeira parte de sua trilogia imersiva sobre o espaço sideral, “Spheres”, ganhou o prêmio máximo da seção.
— Veneza é notável porque é o festival de cinema mais antigo e está abraçando as mais novas formas de tecnologia — disse McNitt.