Enquanto Carlos e Flávio, no ápice dos 20 e poucos anos, disputavam eleições e cumpriam as missões políticas impostas pelo pai, Eduardo Bolsonaro mantinha uma vida fora dos holofotes, embalada por chopadas da faculdade, peladas de futebol e as ondas do Arpoador e da Joatinga, no Rio. Política era “coisa dos irmãos”, dizia aos colegas da Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio (UFRJ) o agora parlamentar, que classificava o então deputado Jair Bolsonaro como um “coroa meio doido, mas gente boa”.
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Hoje pivô das investigações que colocaram Bolsonaro em prisão domiciliar e da crise com os Estados Unidos, país no qual costura medidas contra o Brasil, o deputado de 41 anos foi, entre os irmãos de idade parecida, aquele que mais demorou para disputar uma eleição — só o fez em 2014, aos 30. Até ali, teve muitas personalidades, mas nunca uma que se possa chamar de politizada.
A adolescência de surfista, quando circulava pela Tijuca e na orla do Rio, rendeu-lhe, o apelido, dado pelo próprio pai, de “vagão”, modo abreviado de chamar alguém de “vagabundo”. É como Bolsonaro o classifica até hoje, conforme expuseram as mensagens apreendidas pela Polícia Federal na investigação sobre a tentativa de obstrução de Justiça com base na atuação nos EUA.
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Entre os amigos da época estavam integrantes da banda Forfun, que importou para o Rio o pop punk e o ressignificou com letras sobre praia, paquera e good vibes em geral. Com os cabelos louros lisos que mantinha antes de entrar na política — e do advento da calvície —, Eduardo chegou a aparecer em um clipe do maior hit da banda, “História de verão”, no qual abre uma lata de cerveja diante da câmera.
Logo no início da faculdade de Direito, a cabeleira loura fez Duda ganhar outra alcunha: He-Man. Sujeito “gente boa”, o “clássico playboy tijucano”, Eduardo assumiu a nova identidade, e assim passou a ser conhecido nos corredores do Palácio do Conde dos Arcos e nos eventos sociais da vida universitária.
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Seus lances, além do surfe, eram futebol e cerveja. Não perdia as chopadas, os Jogos Jurídicos e as peladas no Aterro do Flamengo que atravessavam a madrugada.
Nos Jogos Jurídicos, além de praticar o futebol — é descrito como bom jogador, mas nada acima da média —, destacou-se como videomaker. Hoje excluídas de tudo quanto é lugar, as gravações eram aguardadas com ansiedade naquele mundo da primeira década do século XXI em que a internet ainda engatinhava. Quando saíam, logo circulavam no antigo MSN e por e-mail. O He-Man Bolsonaro, bem-humorado que era, batizou a produção audiovisual de Castelo de Grayskull Produções.
O máximo de envolvimento que Duda teve com política no período foi um cargo que carregava indícios de “fantasma”: foi nomeado assessor no gabinete da liderança do PTB, ao qual o pai era filiado, na Câmara dos Deputados. Estudava no Rio, mas ficou lotado por um ano e quatro meses no gabinete de Brasília.
Na sala de aula, naquela época de clima político menos acirrado no país, o filho de Bolsonaro não polemizava. Fora dela, dava-se bem até com o pessoal do centro acadêmico, dominado por partidos como PCdoB e PSTU. Achava aquele tipo de “micropolítica” inútil, mas não falava dela de forma odiosa, tampouco tinha inimizades com os grupos. Na atlética, um dos amigos mais próximos era filho de um ex-prefeito petista de Angra dos Reis, município da Costa Verde do Rio.
Um raro sinal de alinhamento que manifestou com a agenda política do pai no período, indica um colega, foi quando comentou o caso de Champinha, que virou durante anos um mote para Bolsonaro defender a redução da maioridade penal. Em 2003, o jovem de 16 anos comandou crimes bárbaros de estupro e assassinato de um casal na Grande São Paulo. Eduardo, numa conversa entre amigos, apontou que concordava com a diminuição da idade penal, mas sem fazer disso uma grande causa.
Ávido por uma vida desvencilhada dos gabinetes e plenários, o “vagão” fez intercâmbios nos EUA e em Portugal. A experiência no Maine e no Colorado viraria piada em 2019, quando, cotado pelo pai para ser embaixador nos EUA, defendeu-se com o argumento de que havia “fritado hambúrguer” no país em que hoje está.
Nos cinco anos entre a formatura na UFRJ, em 2009, e a eleição de 2014, virou escrivão concursado da Polícia Federal e deixou no passado o estilo de vida que manteve por tantos anos no Rio. Como morava há um tempo na capital paulista, despontou como um ativo de Bolsonaro para criar uma filial política da família no maior colégio eleitoral do país. Com engajamento do pai, conseguiu se eleger com 82,2 mil votos e dividiu o plenário da Câmara com ele.
O boom viria mesmo em 2018, com a onda bolsonarista, quando foi o deputado mais bem votado da história do país, com 1,8 milhão de votos. Mas, mesmo ali, Flávio e Carlos ainda tinham nichos de atuação mais cristalinos. O primeiro, deputado estadual que se elegeu senador naquele ano, sempre foi o Bolsonaro “da política”, e Carlos achou seu espaço nas redes sociais. Faltava a Eduardo um filão, e foi assim que a percepção de que era preciso integrar o consórcio global da extrema-direita balizou o caminho dele até a conjuntura de hoje.
Na campanha vitoriosa de Bolsonaro, no entanto, Eduardo pouco se envolveu. Como estava dedicado a conquistar seus próprios votos em São Paulo, mal pisou no QG da campanha, montado no Rio.
Foi no segundo mandato como deputado, com Bolsonaro no Palácio do Planalto, que ele cresceu de tamanho na relação com o pai, avaliam conhecedores da família. Ali, ocupou pela primeira vez sozinho o espaço do clã na Câmara, mantido pelo próprio Jair por sete legislaturas. Com o irmão senador fragilizado por causa da investigação sobre as “rachadinhas”, ganhou protagonismo interno junto ao pai.
Pessoas que conversaram com Eduardo nos últimos meses, durante a ofensiva nos Estados Unidos para tentar salvar Bolsonaro da Justiça brasileira e impor sanções ao próprio país, identificam um filho magoado, sentimento explicitado nas mensagens colhidas pela Polícia Federal na investigação. “VTNC seu ingrato do caralho”, disparou ao próprio pai, em uma das mensagens, o ressentido “ex-vagão”.