Nos quase 80 anos de Graça Machel, a serem completados em outubro, cabem muitas vidas em uma só. “Levaria um dia inteiro para comentar cada evento histórico que presenciei”, diz. Referência na luta pelos direitos de crianças e mulheres, a ativista moçambicana ingressou na política aos 27, pela Frente de Libertação de Moçambique, movimento de resistência ao domínio colonial português. Em 1975, tornou-se ministra da Educação no governo de Samora Machel, primeiro presidente do país recém-independente, com quem se casou e teve dois filhos, Josina e Malengani Machel. Com a morte do marido, em 1986, num acidente aéreo que considera “um assassinato”, mergulhou no ativismo social, com temas ligados à infância e ao combate à violência de gênero. Na década seguinte, sua vida ganhou novo capítulo ao lado de Nelson Mandela (1918-2013).
Foram essas e outras experiências que, no início deste mês, trouxeram Graça da África do Sul ao Rio. Em entrevista de quase uma hora, feita antes de sua palestra sobre o “sentido da vida”, no Rio Innovation Week, ela fez um balanço de suas oito décadas de vida, analisou a trajetória ao lado dos ex-companheiros e refletiu sobre a adultização de crianças.
Confira, a seguir, os melhores trechos.
Em um mundo tão marcado por guerras, injustiça e desigualdade, qual o sentido da vida?
Somos seres humanos. Existimos para sermos felizes e, sobretudo, para nos relacionarmos com outras pessoas. Essas características não mudaram ao longo dos séculos e não mudarão em contextos de conflito, crises climáticas e outras mazelas. Mas devemos entender que a tecnologia precisa estar a nosso serviço, para fomentarmos a união entre os povos e criarmos uma sociedade mais igualitária. Minha esperança de ver o mundo melhor é baseada nisso.
Mas essa mesma tecnologia tem sido usada para “adultizar” crianças nas redes. Como a senhora enxerga esse comportamento?
O problema é que indivíduos com uma mentalidade doentia também têm acesso a essas tecnologias. Instrumentalizam a internet para desumanizar as crianças. Isso é cruel. Não sou capaz de compreender como uma pessoa adulta age dessa maneira. Só sei que esses crimes existem e precisam ser combatidos com leis e uma fiscalização rigorosa por parte dos governos.
Que balanço faz de seus quase 80 anos?
Ainda não parei para fazer esse balanço. Mas estou consciente de que vivi muitas vidas em uma. Sou grata por ter nascido dentro da minha família. Tínhamos grandes carências materiais em casa, mas sempre fomos solidários e amorosos uns com os outros, e isso fez com que nunca nos sentíssemos pobres. Fui a caçula de seis irmãos. Dentro do seio familiar, me incentivaram a cultivar a minha própria identidade.
E numa época em que as mulheres ainda sofriam muitos cerceamentos…
E ainda sofrem. Hoje, temos mais possibilidades de escolha. Mas ainda vivemos cercadas por barreiras psicológicas e posturas machistas que, muitas vezes, se traduzem em leis que cerceiam a nossa liberdade. É na cabeça das pessoas que a desigualdade de gênero persiste. Há quem trate mulheres como seres incompletos. Somos diferentes dos homens, e a questão está em não hierarquizar as diferenças. É dever das novas gerações lutar contra isso e mudar esse paradigma.
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A senhora integrou a luta pela independência de Moçambique. como foi a participação das mulheres na revolução?
Durante a luta, a Frente de Libertação reconheceu o papel das mulheres, criou um batalhão feminino e levou milhares de meninas a serem treinadas e transformadas em guerrilheiras. Mas, da proclamação da independência para cá, a participação das mulheres não foi tão visibilizada e celebrada, tanto que o mundo só tem conhecimento dos líderes homens.
Olhando em retrospecto, arrepende-se de algo?
Com muita honestidade, não me arrependo de nada, mas carrego muitas mágoas e dores. Uma das minhas maiores cicatrizes foi a maneira como Samora, meu primeiro marido, foi assassinado. Fiquei cinco anos de luto, porque ainda estava gerindo, educando a mim mesma a aceitar que ele não voltaria. Tive imensa dificuldade em superar a perda, e foi nosso filho que me convenceu a reagir. Só depois de sete anos é que conheci Nelson Mandela e me apaixonei de novo.
E como esses dois líderes históricos eram como companheiros?
Casei com dois seres humanos extraordinários, amei-os com todo o meu coração e fui muito amada. Eles tinham o costume de me mimar, e olha que nem sou dessas mulheres, mas sou grata. Uma vez, um jornalista questionou Mandela sobre eu ter mantido o sobrenome do meu ex-marido e não ter adotado nacionalidade sul-africana. Ele respondeu: “Eu a conheci moçambicana e com o nome que ela tem. Eu a escolhi sabendo quem ela é e nunca tive a intenção de mudá-la. Pelo contrário, sou eu que preciso agradecer minha esposa por me permitir continuar sendo sul-africano e Nelson Mandela”. Foi esse tipo de pessoa com quem me casei.
Como conciliou a maternidade e política?
Foi um grande desafio. Por muito tempo não soube se havia gerido bem. Toda mãe quer dedicar-se aos filhos, mas também temos responsabilidades sociais e profissionais. Conciliar tudo isso nunca é fácil, porque cada dimensão exige entrega total — e, no caso das mulheres, a cobrança é ainda maior. Hoje, ao ver meus filhos adultos, com consciência social profunda e atuando em causas próprias, sinto que não errei tanto. Quando fui ministra, era a única mulher no governo. Se eu falhasse, diriam: “Está vendo? Colocaram uma mulher e deu errado”. Essa pressão era enorme. Cada mãe faz o melhor que pode, guiada pelo instinto.