Por trás da força silenciosa de Edith, personagem da série “Raul Seixas: Eu Sou”, está Amanda Grimaldi, atriz e DJ que tem construído uma carreira múltipla e engajada em projetos que combinam arte, música e potência feminina. Na produção, sucesso do Globoplay e agora também na TV aberta, ela dá vida à primeira grande paixão do icônico cantor baiano, uma mulher norte-americana, filha de pastor protestante, que abandona tudo para viver um amor intenso no Brasil dos anos 1970.
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— Foi um processo desafiador e instigante, porque Edith não é tão conhecida do grande público, mas teve um papel fundamental na vida de Raul. Tive de pesquisar o contexto social da época, mas também me permitir preencher lacunas com sensibilidade. No fim, foi como montar um quebra-cabeça: encontrei uma mulher que viveu intensamente, que me ensinou muito sobre coragem e sobre não abrir mão de sua própria força — diz ao GLOBO.
A personagem, construída a partir de poucos registros biográficos, é apresentada na série como parte essencial da trajetória de Raul Seixas. Para Amanda, isso ajuda a equilibrar a narrativa de um mito historicamente contado a partir de uma perspectiva masculina.
— A presença de Edith mostra que, por trás do ícone da música, existe o homem, a pessoa física de Raul que foi errante e que falhou muito. Contar a história dela é equilibrar a narrativa e, para mim, a série brilha muito em desenvolver uma narrativa que não santifica o Raul e dá luz às companheiras que ele teve, revelando que a força feminina foi essencial na construção desse caminho. As mulheres de Raul sustentaram muitas coisas sozinhas para ele desenvolver a sua carreira.
Essa mesma força que transparece no olhar da personagem está também na trajetória da artista fora das telas. Amanda é uma das fundadoras do duo Transpira, parceria musical com Camilla Molica, que também integra o elenco da série, nascido no Rio de Janeiro e que desde 2018 se destaca no cenário paulistano. No universo ainda dominado por homens, a presença feminina nas pick-ups segue sendo um ato de resistência.
— Eu diria que o maior desafio foi enfrentar um cenário em que a presença masculina não é só maior quantitativamente, mas também maior no acesso às oportunidades, ao respeito e ao reconhecimento. Sinto que mulheres DJs ainda são subestimadas tecnicamente e muitas vezes são reduzidas à aparência. Eu e Camilla precisamos acreditar muito no nosso som e na nossa pesquisa. Se um dia já ouvimos comentários como ‘será que elas seguram o set?’, hoje a resposta está na pista — afirma.
O trânsito entre as linguagens, segundo Amanda, é mais natural do que parece. A música, inclusive, tem papel fundamental em seu processo criativo como atriz.
— A música me dá ritmo, sensibilidade e noção de tempo de cena. Na Transpira, aprendi a criar com liberdade e ousadia, e levo essa mesma coragem para a atuação. No fundo, seja no set ou na pista, tudo gira em torno de conexão: sentir o público, meus parceiros de cena, ouvir o ambiente e responder artisticamente a essa troca — destaca.
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A carreira no audiovisual, que começou cedo, com projetos no teatro e participações em novelas como “Jesus” e “Gênesis” (Record TV), tem se consolidado sobretudo no gênero biográfico. Além da série sobre Raul Seixas, Amanda já viveu personagens reais em “Chacrinha: O Velho Guerreiro” (Globoplay) e no longa “Macabro”, dirigido por Marcos Prado, que lhe rendeu indicações a prêmios como melhor atriz coadjuvante. Embora esses trabalhos tenham surgido de forma inesperada, ela reconhece uma afinidade crescente com esse tipo de narrativa.
— Os trabalhos biográficos chegaram até mim por coincidência, mas cada um deles me revelou a força de contar histórias que não nasceram da ficção. Existe uma responsabilidade grande em dar voz a quem já viveu, mas também uma beleza imensa em perceber como essas narrativas atravessam o público — conta. — Acho que o que me atrai, mesmo sem planejar, é essa intensidade: a chance de me conectar com vidas que existiram de fato e transformar isso em emoção compartilhada — acrescenta.
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Sobre Edith, em especial, o processo foi também marcado por escolhas delicadas de construção.
— Apesar de ser uma pessoa real, o meu maior desafio foi a falta de acesso a materiais biográficos dela. Ao mesmo tempo, isso me trouxe muita liberdade para criar. A Edith, apesar de ser norte-americana, viveu por muito tempo e desde jovem no Brasil. Então, na preparação, a gente decidiu que ela falaria muito bem o português, que o sotaque dela não seria o americano, nem qualquer sotaque brasileiro, mas sim o baiano, já que foi em Salvador que ela viveu naquela época — explica.
Fora da ficção, Amanda também reflete sobre o papel da mulher nas artes, e vai direto ao ponto ao falar sobre protagonismo feminino em setores historicamente dominados por homens:
— Diria para confiarem no próprio talento e trabalho e não aceitarem menos do que merecem. Quando duvidarem de si, lembrem-se dos seus colegas homens que conseguiram conquistar muitas coisas mesmo sendo medíocres. Então não se acanhem ou se sintam impostoras, não. O caminho não é fácil, mas cada conquista abre espaço para outras mulheres. E é importante lembrar: não estamos sozinhas. Então, não espere autorização de ninguém, ocupe o espaço e brilhe.
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Embora reconheça avanços nas produções brasileiras no que diz respeito à representatividade feminina, Amanda ainda vê desafios importantes.
— Houve avanços significativos, com mais personagens femininas complexas e histórias que fogem do clichê. Mas ainda precisamos crescer, principalmente garantindo diversidade também em cargos de decisão, como direção, roteiro e produção. O jogo está mudando, mas o campo ainda não é totalmente justo — avalia.
Entre um set de filmagem e uma pista de dança, ela segue transitando com leveza e intensidade. — O equilíbrio vem da paixão e da necessidade. Atuar e discotecar são linguagens diferentes, mas que se alimentam mutuamente. O que me motiva é a busca constante por expressão e conexão. Às vezes é uma correria deliciosa: quando estou no set sinto falta do palco, e quando estou no palco sinto falta da câmera. No fundo, é tudo sobre estar viva e em movimento com a arte — declara.
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