Binóculos, canetas que filmam e maletas usadas para escutas são quase obrigatórios nos filmes de detetive. Embora a ficção retrate, há décadas, a atuação de investigadores particulares de forma fantasiosa, esses profissionais não existem apenas em filmes, séries e livros. Eles podem estar mais próximos do que você imagina: bem ali à espreita na sua rua, sob o disfarce de um funcionário em seu trabalho ou passando informações para advogados.
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Sem glamour ou aparelhos mirabolantes na vida real, os profissionais atuam em investigações que vão desde a clássica suspeita de traição conjugal até casos de roubos e fraudes em empresas. Em algumas situações, se infiltram para obter as informações que o cliente quer. Para se ter uma ideia, só na cidade do Rio há 154 inscrições ativas para a atividade de detetive particular, de acordo com a Secretaria municipal de Ordem Pública (Seop). Os bairros com mais alvarás são Centro, com 27; Barra da Tijuca, com 19; e Jacarepaguá, Recreio e Tijuca, com sete cada um.
O campo de atuação hoje para os detetives é bem amplo, mas a suspeita de infidelidade ainda garante boa parte dos contratos. Além da clássica vigilância na “saída de motel”, usada para confirmar a existência de um amante, há quem recorra ao serviço antes mesmo do casamento. Com 30 anos de experiência, o investigador Rogê Castello Branco, de 57 anos, contou que percebe uma preocupação com o futuro do patrimônio da família diante de novos relacionamentos.
Há dois anos, ele foi procurado pelos pais de um noivo — o casamento já estava marcado — para fazer um levantamento. Eles temiam que o filho estivesse se precipitando e alegavam que não conheciam bem a futura nora. Castello Branco montou, então, uma equipe para acompanhar a noiva, inclusive em viagens a outros estados. Após dois meses de apuração, a descoberta: ela mantinha outros relacionamentos, o que levou ao cancelamento da união e de uma festa milionária.
Castello Branco explica que esse tipo de caso, que ele chama de “avaliação de risco”, é procurado tanto por homens quanto por mulheres. A prática, porém, não se limita a relacionamentos amorosos: investidores também recorrem ao serviço para vasculhar a vida de possíveis sócios. Independentemente da situação, ele destaca que o trabalho de detetive está longe de ser divertido e exige grande responsabilidade.
— Quem nos procura nunca está feliz, está sob tensão, com medo. Nosso papel é ouvir a pessoa e compreender o que ela deseja, sabendo que se trata de uma aposta em um quarto escuro, em que não se sabe de que lado está a verdade. Às vezes, a verdade é a versão do cliente. Outras vezes é a versão da parte investigada. E há situações em que a verdade é algo completamente diferente das duas versões. Nosso trabalho é apurar os fatos, não confirmar o que o cliente quer. E eu sempre digo: “Vou te entregar a verdade. Você está preparado para ela?” — diz o detetive.
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— Eles nos contratam justamente para que possamos produzir provas que fundamentem ações em andamento ou para preencher algum detalhe que falta. Nosso trabalho é gerar materialidade por meio de fotografias e filmagens. Por isso, tudo é tão delicado. Precisamos de certeza e comprovação, porque isso pode destruir uma família. Não há espaço para deduções — afirma.
A profissão de investigador particular é reconhecida por lei federal desde 2017, mas não é regulamentada nem exige formação específica. Porém, os que atuam na área afirmam que a especialização é imprescindível, seja por meio de cursos livres ou de tecnólogo. Coordenador do curso de investigação profissional do Centro Universitário Internacional Uninter, Gerson Luiz Buczenko explica que o trabalho de detetive é realizado por meio de contrato para levantar informações, sem se contrapor ao exercício da função de policial. Cabe apenas ao cliente, explica, decidir se o resultado dessa apuração vai levar a um inquérito ou a um processo.
— Existe uma grande diferença em relação ao que se vê em séries e filmes, em que os investigadores muitas vezes burlam a lei para conseguir provas. Nós não podemos violar direitos de outras pessoas, acessar imagens indevidas ou invadir questões privadas, porque o próprio detetive estaria sujeito às sanções legais. O profissional particular trabalha mediante contrato até obter a evidência para a qual foi contratado — diz Buczenko.
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Investigador particular e vice-presidente da Associação Nacional dos Detetives do Brasil (Anadip), Marcelo Carneiro de Souza, de 44 anos, conta que trabalhou em um caso em que foi procurado pelo sócio de uma indústria têxtil para investigar uma suspeita de desvio de mercadorias. Para verificar, uma pessoa se infiltrou na empresa e se aproximou de funcionários. Paralelamente, outro investigador passou a acompanhar o transporte de mercadorias, realizando diligências externas.
— Depois de dois meses, descobrimos que o furto das mercadorias realmente acontecia, mas não era cometido por quem o empresário desconfiava. Na verdade, o autor era um colaborador da empresa sobre o qual não recaía qualquer suspeita, alguém com quem ele já trabalhava havia anos — contou Souza.
O detetive Gutemberg Meira, de 45 anos, entrou na profissão há dez anos levado por um amigo que já atuava na área. Especializado em perícia grafotécnica — que verifica a autenticidade de assinaturas —, ele também é muito acionado para comprovar casos de traição conjugal, localizar pessoas desaparecidas e até verificar a autenticidade de licenças médicas.
— Tem empresas que contratam a gente para checar se um funcionário está falsificando a licença médica ou se, durante o afastamento, está trabalhando em outro lugar. Também atendo empresas estrangeiras que contratam brasileiros e querem saber mais sobre esses profissionais. E tem pessoas que mantêm namoro à distância e buscam confirmar a veracidade do que o parceiro relata — explica Meira.
Saber a verdade tem seu preço. Investigadores ouvidos pelo GLOBO afirmam que um serviço simples pode custar entre R$ 200 e R$ 500 por dia de investigação. Já casos mais complexos, que exigem campanas prolongadas, chegam a sair por cerca de R$ 40 mil. Mas nem sempre o serviço pode ser concluído. Um detetive que não quis se identificar contou que abandonou um trabalho quando descobriu que o investigado era um bicheiro. Buscar informações em áreas de risco também costuma inviabilizar a apuração.
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No dia a dia desses “descobridores de mistérios” que atuam no Rio, não faltam pedidos para a realização de ações ilegais, que vão de invadir redes sociais e acessar mensagens privadas até interceptar ligações e instalar rastreadores em veículos. De acordo com o vice-presidente da Anadip, é fundamental que os profissionais não apenas recusem esse tipo de serviço, mas também orientem os clientes.
— Nada disso é permitido, tudo é ilegal. O detetive não pode assumir esse tipo de caso e deve esclarecer o cliente quando surge um pedido assim. Quem oferece esse tipo de “serviço” não é profissional — alerta Marcelo de Souza.
Segundo Castello Branco, durante uma investigação particular, imagens só podem ser feitas em locais públicos, sempre preservando a privacidade e em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
— Você pode filmar ou fotografar a pessoa em restaurantes, bares, na rua, ao sair de um hotel ou ao entrar em um cinema. O que não pode é, por exemplo, entrar no hotel e levantar a porta da garagem para registrar a placa do carro lá dentro. Neste ponto, já há invasão de ambiente privado — explica.
Investigar o Investigador
Os profissionais recomendam que, antes de contratar um serviço desse tipo, o cliente investigue o próprio detetive: se ele realmente faz parte das entidades que afirma integrar, se possui um local fixo de atendimento e, no caso de ter CNPJ, se o mantém ativo há bastante tempo. No Rio, é possível consultar o cadastro municipal dos profissionais por meio do portal Carioca Digital, já que a inscrição municipal é obrigatória para qualquer atividade econômica. Para isso, basta informar o CPF do profissional (em caso de MEI), o CNPJ ou o número da Inscrição Municipal.