Um furacão passou em 2025 pela vida do empresário, cantor e compositor Evandro Fióti. Em abril, vieram a público os lances da disputa com o irmão, Leandro (o rapper Emicida) pelo controle da Laboratório Fantasma, a empresa que criaram em 2009 para cuidar da carreira de Emicida, e se expandiu para diversas áreas do entretenimento, tornando-se um negócio milionário.
- Leandra Leal sobre adoção: ‘Amor incondicional escolhido’
- Lembra dele? Autor do hit ‘Just another day’, Jon Secada lança álbum em homenagem a Nat King Cole
O irmão acusava Fióti de saques indevidos no valor de R$ 6 milhões e este alegou que tinha informado Emicida das retiradas. Os dois deixaram até de se falar. Só voltaram a trocar palavras em julho, quando veio a morrer, aos 60 anos de idade, a mãe, Jacira Roque de Oliveira, figura central em suas vidas e carreiras.
— A gente esteve junto na passagem da minha mãe, e conversou dentro daquele contexto ruim para todo mundo. Foi uma conversa respeitosa, familiar. Foi difícil, mas era o que a nossa mãe queria que a gente fizesse — explica Fióti, dizendo esperar que a situação com Emicida (que foi procurado por O GLOBO mas preferiu não se manifestar) possa ser resolvida “com respeito ao que ambos construíram”. — A Laboratório Fantasma nasceu no seio da casa da minha mãe. É uma história bonita, mas a vida pede transformação. Dá para a gente ser ponderado, equilibrado e justo, que é o que minha mãe me ensinou.
As transformações na vida de Fióti estão em curso — com as bençãos de Dona Jacira. Domingo (6), ele faz no SummerStage (no Central Park novaiorquino), ao lado de Iza e do Ilê Aiyê, o show da retomada de sua carreira musical, deixada de lado por causa das funções executivas que assumiu na Laboratório. Na apresentação, Fióti faz a estreia de “Se acolhe”, primeira canção de um álbum a ser lançado no ano que vem, em que fala do poder curativo da música. A emotiva faixa, composta em um momento de crise profissional e pessoal de 2021, abre com um poema da mãe, recitado por ela.
— Quando eu era criança, o que me influenciou foram muitos daqueles programas de televisão com os artistas dos anos 1980 ou dos anos 1990. Não se falava tão abertamente sobre a questão racial como se fala hoje. Mas foi muito importante para mim ver um Thiaguinho na televisão — lembra Fióti.
Esse pensamento voltou na hora em que ele propôs uma restruturação na vida profissional, familiar e espiritual de quem até então era, basicamente, produtor executivo e empresário (“toda vez que eu lançava alguma música de outro artista, meus fãs perguntavam: ‘E você, que horas você vai lançar seu trabalho?’”).
— Hoje tenho 36 anos e quero cada vez mais usar a criatividade, o meu dom, a minha arte, para fazer bem às pessoas. Começo isso fazendo um bem a mim mesmo, que é voltar a minha essência — diz o músico. — Esse sonho nunca deixou de estar dentro de mim. E nunca deixou de contribuir para todas as realizações profissionais que tive. Só que agora quero que a maior parte da minha vida profissional esteja hoje nesse objetivo.
Fióti revela que “Se acolhe” (que deve ir para as plataformas de streaming em setembro) nasceu quando estava “muito mexido, principalmente com a escalada dos números de pessoas com depressão e ansiedade”.
— Ao passo em que fui mudando algumas relações, continuando o meu processo de análise e entendendo que estava em alguma medida distante de mim mesmo, foi que me vi também nessas estatísticas — conta. — Você vai tomando decisões por urgências, por emergências, e as suas horas do dia acabam direcionadas para outras coisas. Senti que era muito importante, antes de cantar para os outros, cantar para mim mesmo. Essa música é como eu dizendo para o Evandro da infância que está tudo bem.
Aí volta a figura de Jacira, que criou sozinha os filhos, os estimulou desde cedo a buscar a arte, que os protegia (“quando saí daquele ambiente acolhedor do seio da minha família, fui jogado dentro desse ambiente escolar e educacional, onde você começa a sofrer uma série de estereótipos e de violências”, recorda-se Fióti). E não só foi enfermeira e escritora, como parceira de Emicida em canções, como a pungente “Mãe”. Dona Jacira, que por 28 anos fez hemodiálise e ainda assim cuidava da saúde física e mental de outras mulheres, tinha que estar no disco novo do filho. Mas, principalmente, em “Se acolhe”.
— Fiz esse convite a ela e falei: “Acho que tem tudo a ver com nosso momento enquanto seres humanos, enquanto mãe e filho, a gente completar essa música como se fosse um quadro, queria convidar a senhora para pintar essa obra de arte comigo.” — diz, informando que a proposta foi feita numa época em que ela já apresentava limitações de saúde. — Ela me pediu um chapéu, um charuto e disse que ia que ia conseguir gravar, que tinha terminado a poesia e estava muito feliz de fazer aquilo. Na hora em que ela começou a declamar, tive uma sensação de não querer acreditar (na iminência de sua partida). De olhar pelo lado poético e não pela possível realidade, talvez, que as palavras estivessem traduzindo ali.
Fióti relata que sua mãe batalhou para viver até o último segundo. Além disso, estava feliz com o novo álbum e a maior dedicação do filho à carreira artística.
— Ela foi sem querer ir, era a força de uma mulher de Iansã. Acho que a gente tem que enxergar a vida assim. Preta Gil também passou por isso aí e nos ensinou muito nesse sentido dessa transição da vida para essa continuidade no mundo espiritual — avalia. — No hospital, ela me perguntou: “Você vai ficar, vai produzir o show dos outros ou vai produzir os seus?” Minha prioridade era 100% minha mãe. A depender do que acontecesse, eu ia ter de ligar para o SummerStage, falar que ia cancelar, não sei. Era uma oportunidade excepcional na minha vida artística. E ela ficava falando: “Não, vai dar certo. Você vai, sim”.
O cantor diz que “Se acolhe” acabou ganhando um simbolismo maior depois do que aconteceu.
— Estou montando um espetáculo sobre fé, esperança, ancestralidade e amor-próprio, que é o princípio de todos os amores. Tem mamãe em tudo. Vou manter a memória dela viva — promete Fióti, na reta final de preparação de um álbum “de música brasileira, pop, leve”, com algo entre 9 e 12 faixas, participações de Rael, Rashid e Gabriel Moura e produção de craques como Mario Caldato Jr. (de discos de Jack Johnson, Seu Jorge e Marcelo D2). — O projeto não vai ser lançado pela Laboratório Fantasma, vai ser independente. Eu, que sempre negociei como empresário, agora negocio como artista, com as gravadoras, com os agregadores, para lançar as próximas etapas.
Mesmo em sua nova fase, Fióti diz querer continuar dando consultoria para artistas. E espera que tudo se resolva com o irmão “da melhor forma possível, o mais rápido possível, em paz, para que todos possamos seguir nossos caminhos”.
— O meu caminho já estou traçando aí, graças a Deus, estou muito feliz com ele. Isso que era o sonho da minha mãe e o meu sonho, o sonho dos meus ancestrais, é o que eu quero fazer daqui para frente — diz. — A gente é sócio ainda (na Laboratório Fantasma). E o processo para lidar com essa, vamos dizer, separação agora vai impor caminhos diferentes. Como empreendedor, a gente teve uma história muito exitosa nesses 16 anos, que mudou muito a carreira de muitas pessoas. E essa história não se apaga, nem que a gente quisesse.