Duas cenas valem a exata uma hora e 51 minutos de “A vida de Chuck”, a partir desta quinta-feira (4) nos cinemas brasileiros. Uma, de dança, no meio da rua, sem chuva, mas com um Tom Hiddleston em estado de graça para Gene Kelly nenhum botar defeito, como espectadores jamais o viram. A outra ilustra, com Chiwetel Ejiofor, o fim do mundo. E de forma tão assustadora como bela, numa representação fiel mas também surpreendente do texto de Stephen King no livro homônimo, razão de ser do longa-metragem roteirizado e dirigido por Mike Flanagan, conhecido por adaptações anteriores do autor de “O iluminado”, entre elas “Doutor sono” e “Jogo perigoso”, além da série “A maldição da residência Hill”, a partir do texto da mestra do horror Shirley Jackson.
— O que mais me encantou em Chuck foi o fato de ele parecer, no papel, um sujeito comum, vivendo uma vida bem mais ou menos, com um emprego desimportante. Mais um na multidão. Até algo extraordinário acontecer. Que o faz deixar sua pasta no chão e dançar, dançar, dançar, numa explosão de alegria e liberdade — diz ao GLOBO, via chamada de vídeo, Hiddleston, que vive o personagem-título.
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Pode até não parecer pela conclusão do raciocínio do ator londrino de 44 anos, mas o extraordinário, no caso de Charles Krantz, o Chuck, é a descoberta de um tumor no cérebro. Algo que muda sua vida completamente, de uma hora para a outra. E King, com seu estilo inconfundível, para o bem e para o mal, desenvolve a história a partir da tensão entre o que se passa dentro do personagem e fora dele. Com um detalhe: leitor e agora espectador não sabem, num primeiro momento, se o que lhes é apresentado é real ou se existe apenas dentro da cabeça do protagonista.
— Confesso que não conhecia o livro quando topei fazer o filme. Li primeiro o roteiro e, como sou um curioso incorrigível, fui atrás do original depois. Aí percebi que as estruturas eram muito parecidas, o que, por um lado, é um elogio ao Mike, mas, por outro, me fez arquear as sobrancelhas: como é que ele iria resolver cenas que tinham enorme força literária? — conta o também inglês Ejiofor.
O questionamento não é exagerado. “A vida de Chuck” é contada em três atos, de trás para a frente. Uma de suas inspirações é o emblemático verso do poema “Canção de mim mesmo”, de Walt Whitman, publicado em 1855, “sou amplo, contenho multidões”. Dentro de Chuck há muitos personagens e, como será explicado mais tarde no filme, o próprio Hiddleston só se apresentará no segundo tomo. O terceiro retratará sua infância (quando é interpretado por Cody Flanagan, filho do diretor), com destaque para o personagem trágico de seu avô, vivido por Mark Hammil, o Luke Skywalker de “Star wars”. É quando a poltrona do cinema se transforma em divã, com as respostas para ações futuras encontradas no início da vida.
— Mas minha preparação foi a menos intelectual possível. Com toda a complexidade estilística, o que a história procura mostrar, creio, é algo muito simples, que não há vidas sem importância. Todas incluem algo de extraordinário, com alegria e dor, grandes amores e perdas terríveis. O mergulho no universo único de cada uma dessas vidas é o que o filme propõe. Complicado mesmo foi aprender a dançar — diz Hiddleston.
O Loki do cinema jura que suou para, em sequência que dura cinco minutos, bailar em seis ritmos, entre eles jazz, swing e o danado do samba, e dez estilos diferentes, inclusive salsa, Charleston, moonwalk e até um chá dançante disfarçado de bossa nova. Sua parceira nas ruas de uma cidade do interior americano foi a atriz Annalise Basso, que vive Janice, com quem o protagonista esbarra por acaso, o que dá ainda mais cor ao inusitado da cena.
— Você foi o primeiro a me dizer que eu sambei direitinho. O gringo aqui fica muito, mas muito agradecido mesmo — reagiu o Loki do cinema ao elogio sincero.
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Premiado com um Olivier, o Oscar do teatro inglês, como jovem revelação, em 2008, e um Globo de Ouro, em 2017, pelo Jonathan Pine da adaptação de “O gerente”, a partir da obra de John Le Carré, Hiddleston foi pensado como o chamariz talentoso de uma produção modesta para os padrões de Hollywood, estimada em US$ 10 milhões e que levou o prêmio do público no Festival de Cinema de Toronto no ano passado, superando, entre outros títulos, “Anora”, vencedor do Oscar deste ano, na preferência popular. Mas “A vida de Chuck” foi reposicionado para ser lançado depois da temporada de premiações e não foi bem na bilheteria nos Estados Unidos. Não arrecadou mais do que US$ 6 milhões por lá desde a estreia, na primeira semana de junho. A receita de drama, fantasia e ficção científica, com uma pitada de horror e recheada por muito sentimentalismo, não encontrou seu público.
Indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante em 2014 por “12 anos de escravidão”, Ejiofor vive no filme Marty, um professor que acaba de se separar de sua mulher e brilha na primeira metade do filme, inclusive ao tentar entender por que seu mundo parece estar chegando ao fim. Ele conta que teve duas epifanias ao começar a filmar. Uma relacionada à pandemia e outra ao ofício que escolheu para si:
— A gente tinha acabado de sair da Covid-19 e filmamos com a clareza de que a vida está, se pensarmos bem, sempre por um triz. Por isso é preciso vivê-la intensamente, da melhor forma possível. Ao mesmo tempo, sempre sofro para aceitar o término de meus personagens, não aprendi a dizer adeus. Não acho que eles seguem vivendo dentro de mim, mas que eles existem, existem. E às vezes, juro, sento com eles no escuro sozinho e temos longas conversas noite adentro.
— Exatamente como no filme, sou todos e nenhum deles ao mesmo tempo. Sei que os personagens que fiz, incluindo o Chuck, não são de carne e osso, mas em algum lugar, para muita gente, eles vivem. Como é bom poder atuar.