- Lauro Jardim: Além do Centrão, movimento em favor de Master e BRB vem das cortes superiores
- Enquanto isso… Perda de independência do Fed seria ‘perigo sério’ para o mundo, diz presidente do Banco Central Europeu
O movimento do requerimento de urgência é encabeçado pelo PP, com o deputado Claudio Cajado (PP-BA), vice-presidente do partido, como autor do requerimento. O documento foi endossado com a assinatura de líderes de legendas do Centrão, da oposição e até da base do governo.
Os líderes do PP, MDB, PL, PSB e Republicanos na Câmara endossaram o requerimento de urgência. Somadas, as legendas totalizam mais de 300 deputados, mais do que os 257 que serão necessários para aprovar o regime que acelera a tramitação de um texto.
- Senado aprova projeto que fecha cerco a ‘devedor contumaz’: aumentam exigências para venda de combustíveis
O projeto é de 2021 (mesmo ano em que a autonomia foi aprovada e sancionada pelo então presidente Jair Bolsonaro) e muda a regra de autonomia do BC. O texto estabelece que o presidente e os diretores do BC serão exonerados caso haja requerimento aprovado pela maioria absoluta da Câmara “quando a condução das atividades do Banco Central for incompatível com os interesses nacionais”.
Para isso, a proposta de exoneração ficará condicionada à aprovação, por maioria absoluta, do Senado.
- Dívidas futuras: Brasil capta US$ 1,75 bi com emissão de títulos em dólar
A autonomia do BC é considerada por economistas e analistas de mercado uma conquista. Além de isolar a autoridade monetária de pressões políticas, ela ajuda no controle das expectativas de inflação e na contenção de preços que poderiam retroalimentar a inflação.
Com a autonomia do BC, os diretores passaram a ter mandato de quatro anos. Pelas regras de hoje, apenas o presidente da República pode exonerar a cúpula do BC.
E isso só pode ocorrer a pedido do titular do cargo; no caso de acometimento de enfermidade que incapacite o titular para o exercício da função; quando sofrerem condenação, mediante decisão transitada em julgado ou proferida por órgão colegiado, pela prática de ato de improbidade administrativa ou de crime cuja pena acarrete, ainda que temporariamente, a proibição de acesso a cargos públicos; e quando apresentarem comprovado e recorrente desempenho insuficiente para o alcance dos objetivos do Banco Central.
Compra do Master pelo BRB
A iniciativa ocorre no momento em que o BC se prepara para finalizar a análise da compra do Banco Master pelo BRB. A expectativa é que o processo de análise do negócio entre BRB e Master no BC termine nesta semana.
Responsável pela recomendação sobre a operação à cúpula do órgão, o diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução, Renato Gomes, é o mais reticente com a aprovação, porque qualquer contestação futura da transação recairia sobre ele pessoalmente.
A movimentação do Centrão tem como objetivo abrir espaço para que os parlamentares possam influenciar as decisões da autarquia.
Campos Neto: ‘passo atrás’
A redução pela metade do perímetro da operação, que, conforme a última divulgação do BRB, vai envolver cerca de R$ 25 bilhões em ativos, tornou o negócio mais palatável. A preocupação neste momento é com a porção do Master que ficará de fora da operação com o BRB. A tendência, porém, é que seja fatiada em partes.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2024/d/8/12LfNbREmNtNRSZpBAsQ/108194951-sp-eco-sao-paulo-sp-19-08-2024-entrevista-com-roberto-campos-neto-presidente-do.jpg)
O ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto criticou a proposta.
— Este projeto seria muito ruim para a autonomia do BC. Seria um passo atrás em uma grande conquista da sociedade brasileira — disse ele ao GLOBO.
Campos Neto foi o primeiro presidente do BC com mandato por conta da autonomia.
BC conquistou autonomia em 2021
As discussões sobre a autonomia do Banco Central (BC) se estenderam ao longo de 30 anos no país. Mas a autoridade monetária só conquistou a autonomia operacional com a lei complementar n.º 179, sancionada em 2021 pelo ex-presidente Jair Bolsonaro após aprovação pelo Congresso Nacional. A lei tornou o BC uma autarquia de natureza especial.
O objetivo da mudança era blindar o órgão de pressões político-partidárias, tornando mais transparente a condução da política monetária. Dessa forma, a autonomia legal do BC separa o ciclo político do ciclo de política monetária. A lei define que o presidente do BC terá mandato de quatro anos não coincidente com o do presidente da República.
Com a legislação em vigor, todo novo presidente do BC começa seu mandato no terceiro ano de governo, com dois dos oito diretores sendo renovados anualmente. Com a Lei da Autonomia, os presidentes do BC só podem ser exonerados em caso de enfermidade que impossibilite as funções, desempenho insuficiente comprovado e recorrente ou condenação transitada em julgado.
Há ainda a possibilidade de renovação do mandato do chefe da autarquia por mais quatro anos.
*Colaborou Paulo Renato Nepomuceno