Depois de dez anos de edições espalhadas pela cidade, a Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo volta a ocupar o Pavilhão da Oca, no Parque Ibirapuera. Com o tema “Extremos: arquiteturas para um mundo quente”, a 14ª edição da exposição busca demonstrar como diferentes áreas da arquitetura, como paisagismo e design, podem atuar como ferramentas para que a humanidade possa enfrentar as mudanças climáticas e pensar em um futuro mais sustentável para o planeta. Aberta ao público com entrada gratuita, a mostra ocorre até 19 de outubro. Enquanto isso, workshops, palestras e oficinas são realizados fora do espaço do parque.
Organizada pelo departamento de São Paulo do Instituto de Arquitetos do Brasil (IABsp), a Bienal não apresenta uma única narrativa: explorada de maneiras distintas, há mais de uma interpretação para a elaboração de seu tema na Oca. Ao todo, são cerca de 200 trabalhos, provenientes de 30 países. Enquanto o Brasil será representado por projetos de 17 estados, a presença internacional ganha força com trabalhos principalmente da China, da França e da União Europeia.
— Queremos mostrar quais são as responsabilidades das áreas da arquitetura no agravamento do aquecimento global e o que podem fazer para atenuá-lo, mitigá-lo e revertê-lo. Ou, quem sabe, para pelo mesmo prepararmos as cidades e os ecossistemas para resistir a esses eventos. Contar com trabalhos de outros países é uma ampliação do caráter internacional da Bienal — explica Renato Anelli, curador da mostra e diretor de cultura do IABsp.
Além dele, a curadoria conta ainda com mais cinco profissionais em seu comitê: Karina de Souza, Marcos Cereto, Clevio Rabelo, Marcella Arruda e Jerá Guarani.
Em síntese, a seleção da Bienal de Arquitetura privilegiou trabalhos comprometidos com soluções para desafios urbanos, como habitação, inclusão social e a relação da cidade com a natureza. Enquanto isso, outras produções foram consideradas por suas ideias inovadoras para o enfrentamento das mudanças climáticas, tanto na adaptação ao clima quanto na redução de gases do efeito estufa.
As centenas de trabalhos possuem formatos distintos, tanto em questões físicas quanto em elaborações. Assim, há desde construções experimentais (modelos em escala real que exploram técnicas e materiais) a projetos, maquetes, conteúdos multimídia e intervenções artísticas. Todos estão divididos entre cinco eixos curatoriais: preservação das florestas e reflorestamento das cidades, manejo das águas, construções “verdes” (sustentáveis), utilização de energias renováveis e garantia da justiça climática e da habitação social.
— As construções, por exemplo, estão repletas de materiais como madeira, alvenarias, terra e itens de reciclagem. Há coisas novas em termos de tecnologia, mas há também materiais antigos que passam por uma atualização hoje. Muitos os chamam de materiais ancestrais, mas eu prefiro chamá-los de ‘tradicionais’, como trabalhos de arquitetura afro-brasileira e outros de origem indígena. Todos trazem as suas contribuições — explica Anelli.
Para a seleção, a curadoria realizou uma chamada aberta, divulgada internacionalmente, de onde foram selecionados 150 trabalhos dos 450 recebidos. Já os outros 50 foram descobertos por processos tradicionais de pesquisa.
A instalação é simultânea à Bienal de Arte — que também ocorre no Ibirapuera, mas no Pavilhão Ciccillo Matarazzo. Embora sejam realizadas como eventos independentes desde os anos 1970, a mostra de arquitetura surgiu em 1951 como um espaço dentro da Bienal de Arte. Hoje, ambas estão sob o tema “guarda-chuva” da ecologia. As coincidências são vistas pela curadoria como naturais.
— Quando escolhemos o tema (da Bienal Internacional de Arquitetura), ainda não tínhamos visto o tema da Bienal de Arte. Mas achamos ótimo. Todo mundo está vendo que algo grave está acontecendo (por conta das mudanças climáticas), então precisamos entender como falar sobre isso. O campo da cultura é onde se estabelecem as narrativas que explicam alguns processos. Mesmo sem estarem ‘combinadas’, as bienais expressam suas preocupações com o mundo. São temas fortes — diz Anelli.
Com idas e vindas desde sua primeira edição autônoma — por questões políticas da época, a segunda levou mais de vinte anos para ser realizada — a Bienal de Arquitetura passou por diversos endereços, como a própria Oca e o Pavilhão da Bienal. Suas últimas edições, porém, foram realizadas em espaços diferentes da cidade, como centros culturais e unidades do Sesc.
— Quando espalhada por São Paulo, se de um lado ela se aproximou de algumas camadas da população, de outro criou uma visitação mais difícil, já que nem tudo estava reunido em um mesmo lugar. Recolocá-la na Oca é uma maneira de centralizar e reunir tudo em apenas um espaço — diz o curador.
Confira destaques da Bienal Internacional de Arquitetura de SP
A proposta de urbanização, cuja autoria é de Jorge Königsberger e Gianfranco Vannucchi, trabalha com a ideia da criação de uma nova centralidade na cidade, a fim de atrair empresas para a região do Tatuapé e reduzir o deslocamento de moradores para outras áreas da capital. Construída a partir do Novo Plano Diretor de São Paulo de 2014, uma de suas principais características é a criação do edifício Platina 220, com uso misto, fachadas ativas e interação com a rua.
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“Águas do Cadaval: regeneração com tecnologias tradicionais”
Desenvolvida para ser implementada no Brasil, a proposta exibe soluções de regeneração urbana para um território de matriz africana removido de Carapicuíba, município paulista. Como forma de reimaginar o território com justiça climática e preservação da memória ancestral, articula ainda conhecimentos técnicos e tecnologias tradicionais. A autoria é da Frente Ilê Odé Ibualamo.
“Sua estufa é sua sala de estar”
Desenvolvido nos Estados Unidos para ser implementado na China, é um dispositivo ambiental projetado para espaços urbanos abandonados e subutilizados. Quando fechado, serve como uma estufa que incentiva atividades de cultivo; quando aberto, transforma-se em uma sala de estar ao ar livre que fomenta novas formas de compartilhamento comunitário na vida urbana. Autoria de Leyuan Li, Jiaxun Xu e Yue Xu.
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Desenvolvido pelo ateliê Doladob em Angola, o projeto pretende reabilitar a Rua Rainha Ginga, uma das principais ruas da capital Luanda. A ideia é transformá-la em um modelo de mobilidade sustentável, inclusão social e valorização cultural, devolvendo-a à comunidade. Além de revitalizar o espaço, o trabalho pretende criar novas formas de interação social, dinamizar a economia local e fortalecer a memória cultural.
“Águas Sagradas: ecologias indígenas em Mumbai”
Propõe a construção de um barracão para armazenar e manter barcos e equipamentos de pesca, além de barracas ao longo da calçada para que as mulheres possam comercializar sua culinária, instalações para secagem e conservação de peixes e um espaço recreativo para crianças, mães jovens e idosos. Foi desenvolvido e planejado para ser implementado na Índia.
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