— Temos sinais de viticultura de 25 séculos atrás. A Sicília está no meio da área do Mediterrâneo, no meio da jornada das uvas. As uvas nasceram na Armênia, Geórgia e foram para a costa, para Líbano e Israel pela área do Mediterrâneo, pelo mar no Norte da África até a Grécia. A Sicília estava no centro dessa jornada. Qualquer população, civilização, que eles quiseram dominar, viam o Mediterrâneo e dominavam a Sicília. Tivemos 20 civilizações diferentes, com alimentação, línguas, plantas e vinhedos — explica Alessio Planeta, proprietário e enólogo da vinícola em visita ao Rio para apresentar os vinhos.
Além da história, Alessio destaca as uvas nativas, a biodiversidade e a variedade de solos da ilha, procurada por muitos geólogos por ser “o lugar mais bonito do mundo para estudar”.
— A Sicília é um incrível mosaico de terroirs. Fica no meio da Eurásia e da África, em uma área de pressão geológica. O norte da Sicília é feito por montanhas. Todos esses solos aqui saíram do mar em uma época diferente, então você tem solos brancos, vermelhos, argilosos, vulcânicos.
O produtor explica que essa diversidade existe também no clima.
— As pessoas pensam na Sicília às vezes como um deserto, mas é super verde. É uma paisagem feita por floresta, vinhedos, oliveiras, trigo, frutas cítricas. Como é cercada pelo mar, atrai mais chuva. Há seca, é claro, no centro da ilha, mas é realmente repleta de condições climáticas diversas. Para se ter uma ideia, começamos a colheita no início de agosto em Noto, com o Moscato, e terminamos a colheita no Etna em outubro. Temos três meses de vindima em uma pequena ilha, que é única, mas é o retrato perfeito da diversidade.
Alessio conta que a Planeta tem cinco áreas de produção de vinho na Sicília. Sua família chegou à ilha nos século XVII. É a 17ª geração na região.
— A Planeta, com os rótulos, com o vinho, foi criada pela minha geração. Meu tio Diego foi um pioneiro dos vinhos sicilianos e italianos, mas criamos a Planeta quando éramos jovens. Foi o momento do renascimento do vinho italiano e dos vinhos sicilianos, e começamos a viajar pelo mundo, falando sobre nosso projeto e nossos vinhedos. No início, só em Menfi, depois em 97 em Vittoria e em 98 em Noto. Passo a passo, fomos cobrindo toda a ilha.
Alessio conta que cada uma das unidades tem um enólogo dedicado ao projeto.
— Geralmente, faço as duas primeiras colheitas na vinícola para entender o lugar. Depois, eu os coordeno. O que gosto de fazer é deixar o terroir falar e não querer que o trabalho de enologia apareça. Os solos ricos do Etna, os solos férteis de Menfi e, eventualmente, alguns solos arenosos de Vittoria, são exemplos disso. Isso é muito importante para nós, com toda essa gama de vinhos. Você precisa ouvir os diferentes terroirs, além do presente e do passado. Há muita história envolvida — destaca.
Ele revela que, para a marca, a vinificação é um respeito ao terroir.
— Significa uma vinificação muito simples. Na região de Menfi, quatro dos nossos vinhos são produzidos em três vinícolas diferentes. Uma é dedicada à La Segreta, a maior produção, com tanques um pouco maiores. Tenho uma vinícola dedicada à Chardonnay e outra pequena vinícola criada para fazer nosso melhor vinho tinto, com pequenos tanques de concreto — exemplifica.
Para Alessio, que é agrônomo e vinicultor, o mais interessante é “explorar as diferentes Sicílias”.
— Começamos a Planeta na área de Menfi, na parte oeste da ilha, onde há colinas com florestas que podem ir de 500 metros até o mar. Nesta área, trabalhamos desde meados dos anos 80, trazendo uvas da França e com uvas sicilianas. No resto da Sicília, tocamos a música das variedades locais.
A primeira safra em Menfi foi 1994, dez anos depois do início das primeiras experiências com vinhas. A jornada começou com a Chardonnay, que rende até hoje altas pontuações para a Planeta, seguida de uvas como Merlot, Cabernet Sauvignon e Franc, e Syrah — seguidas por algumas variedades sicilianas tradicionais: Grecanico, Nero d’Avola e Grillo.
— Este tipo de solo sugere que trabalhemos com uvas francesas. Naquela época, vivemos o momento da mudança de percepção trazida pelos supertoscanos. Todos na Itália plantaram uvas francesas. Qualquer região vinícola italiana já passou por uma história com uvas francesas, que depois passaram para as uvas locais. Mas em alguns vinhedos, deixamos as francesas porque elas funcionam muito bem. Este foi o nosso projeto desde o início. No resto da Sicília, estamos focados nas variedades autóctones.
O vinho elaborado com a uva branca francesa é o Planeta Chardonnay Menfi DOC, que já figurou entre os 100 melhores do mundo pela Wine Spectator. Ele se mantém um ícone 30 anos após sua criação.
— O Chardonnay Planeta é muito importante para nós. Foi o primeiro vinho que lançamos. Para ser honesto, alguns disseram que foi ele que colocou a Sicília no mercado. Em meados da década de 90, este vinho se tornou icônico. Foi o primeiro vinho siciliano a entrar na lista dos 100 melhores vinhos da Wine Spectator. E esteve lá quatro vezes. Foi um vinho que disse ao mercado que havia algo novo vindo da Sicília: um produtor de nova geração, uma nova abordagem ao vinho. É 100% fermentado em barricas.
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Alessio conta que as uvas vêm de três vinhedos, que são colhidas e fermentadas separadamente em madeira:
— Os vinhos ficam por 11 meses em barricas da Borgonha. Um terço é de madeira nova, um terço tem 1 ano e um terço tem 2 anos. É um trabalho simples, mas bonito e profissional. É um clássico da nossa produção. Nos últimos anos, temos transferido os vinhedos de perto do mar para altitudes mais elevadas. Agora temos vinhedos de Chardonnay entre 250 e 450 metros. Em um local cercado por floresta, onde naturalmente temos temperaturas mais baixas.
O produtor frisa que, ainda hoje, é o vinho de maior sucesso da Planeta.
— Mesmo hoje, é um vinho que está na classe executiva dos Emirados Árabes Unidos, nos melhores hotéis da Sicília, em todo o mundo. É controverso porque não são uvas atlânticas, são uvas francesas. Meu enólogo me disse que Chardonnay é uma das uvas mais plantadas no mundo. Deve haver um motivo. É uma ótima variedade. Alguns anos atrás começou o movimento “qualquer coisa, menos Chardonnay”. Mas este é o vinho que gosto de fazer. Eu ainda gosto de Chardonnay, e tenho visto um grande retorno dela — conta ele.
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Ele apresentou também dois vinhos da linha Planeta La Segreta: o Bianco e o Rosso:
— O La Segreta é um blend de Grecanico (40%), Grillo, Chardonnay e outras variedades. As duas variedades mais importantes são Grecanico e Grillo. São duas uvas brancas locais da Sicília. A Grecanico é mais austera, originária da Grécia. O nome Grecanico significa que nasceu na Grécia. É uma variedade muito bonita e antiga. A Grillo é uma variedade siciliana também muito bonita. Surgiu há 150 anos. É um cruzamento entre as uvas Catarratto e Zibibbo.
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Já o Rosso é um blend de Nero d’Avola, Merlot, Syrah e Cabernet Franc:
— O Segreta Rosso segue a mesma filosofia do Segreta Bianco. É um blend de 50% Nero d’Avola, misturado com Merlot, Syrah e Cabernet Franc. A Cabernet Franc representa apenas 5%. A maior parte é de bandeira siciliana, a Nero d’Avola, uma variedade originária do sudeste da Sicília. Avola é uma vila perto de Noto. É uma variedade que gosta de crescer no litoral, perto do mar, e não em locais onde venta muito durante o verão. Ela tem o sabor de chocolate, frutas vermelhas, pimenta.
Para Alessio, o Planeta Rosé Blend Sicilia DOC é um clássico:
— Sou enólogo, mas desde o início da Planeta sempre trabalho com consultoria. Acredito que é muito importante para os produtores de vinho ter alguém com quem possa trocar ideias. Temos um consultor em viticultura que nos ajuda a aprimorar nossa experiência em cultivo orgânico. Um consultor em biodinâmica, pois temos um projeto nessa área. Temos um consultor de vinhos francês chamado Florian Dumont, que você encontra aqui, que também trabalha na Provença. Quando ele chegou à Sicília, disse: “Alessio, você está na mesma atmosfera da Provence, Mar Mediterrâneo, colinas. Temos que seguir o modelo da Provence, com a experiência siciliana, claro”. E fazemos um rosé que é um blend de Nero d’Avola, Syrah e um pouco de Sauvignon Blanc, para torná-lo mais aromático.
Alessio diz que o Planeta Rosé vai bem sozinho ou com petiscos fritos:
— É um vinho delicioso para ser apreciado puro, como fazemos na Sicília no verão. Para mim, é um aperitivo, uma bebida para deixar as pessoas mais à vontade. Costumamos tomá-lo na Sicília com um arancini frito, uma comida típica siciliana.
O Planeta Maroccoli Menfi DOC é 100% Syrah, com uvas de uma vinha a cerca de 400 metros de altitude. A proposta é uma interpretação moderna da variedade, sem deixar de respeitar as características da casta.
— Ele é produzido na região de Menfi, em uma vinícola dedicada a essas três variedades: Merlot, Syrah e Cabernet Franc. Buscamos um Syrah bastante concentrado, rico, mas com taninos firmes e os sabores típicos, que lembram aromas de igreja, aromas de incenso, pimenta e um toque de cacau. Entre as uvas francesas, talvez a Syrah e a Cabernet Franc sejam as que melhor se adaptam à Sicília. Elas apreciam as condições climáticas, com seu clima ameno de verão. Adoro este vinho, e este é incrivelmente forte, sim, sim, também harmoniza bem com comidas como cordeiro e linguiça — detalha Alessio.
A Planeta também produz vinhos na região do Etna, que, nos últimos 20 anos, tornou-se “o lugar mais badalado para se produzir vinho na Itália”. Para ele, o Etna tem o valor que as pessoas apreciam hoje em dia no vinho: as variedades locais, o ambiente intocado, o vinho natural.
— A percepção da região do Etna mudou nos últimos 20 anos. O Etna já produzia vinho há milênios, mas hoje há muitas pessoas investindo lá e tentando criar uma nova região vinícola de alta qualidade. Barolo, Barbaresco, Brunello e Bulgari já estão estabelecidos, não há dúvida. Mas atualmente há muitas vozes reconhecendo o Etna como algo diverso e especial.
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Ele mostrou no Rio dois vinhos produzidos na região, o Planeta Etna Bianco DOC e o Planeta Etna Rosso DOC. O branco é feito na Contrada Tacciona, a 700 metros de altitude:
— É um vinhedo extenso de 9,5 hectares, enorme para os padrões do Etna. O Etna produz 6 milhões de garrafas, possui 1.300 hectares de vinhedos, representando 2% da viticultura siciliana. Apenas 2 hectares da viticultura siciliana estão no Etna. Uma das uvas é a Carricante, uma variedade siciliana. Ela só cresce no Etna. Se você transplantá-la em outro lugar, ela não terá utilidade. Ela precisa ter as características de solos e condições vulcânicas.
Alessio diz que gosta muito do potencial de guarda do Etna Branco:
— Gosto da mineralidade, da acidez, das notas de de pedra e de tomate, um potencial realmente bom, depois os sabores de flores amarelas, um pouco de canela. Gosto do potencial de guarda. Ele amadurece por muitos anos, está evoluindo, é típico de um vinho tinto. Hoje em dia, no Etna, o vinho branco representa 40% da denominação. No início, era bem menos, mas agora há muito interesse pelo vinho branco do Etna. É um estilo belíssimo.
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Já o Planeta Etna Rosso vem de um vinhedo localizado cerca de 100 metros abaixo. Ele é feito com a uva Nerello Mascalese.
— O Etna Rosso é 90% Nerello Mascalese. Alguns produtores também têm Nerello Cappuccio, que é mais simples, mas apresenta uma variedade de cores ricas. Porque no Etna, na minha opinião, você não precisa se preocupar muito com a cor do vinho. A Nerello é como um Pinot Noir, uma Nebbiolo. O que se gosta no Etna é esse estilo controverso de vinho. É muito floral, com violeta, e tem notas terrosas. A acidez é bem agressiva, não na quantidade, mas na qualidade. Isso me lembra muito Sangiovese. Às vezes, comparamos o Etna e o Pinot Noir. Noto semelhanças na boca, na cor, no equilíbrio, mas não no paladar. A boca é muito semelhante à de um Nebbiolo ou de um Sangiovese.
Os vinhos são importados para o Brasil pela Grand Cru. Os preços são: Planeta Chardonnay Menfi DOC (de R$ 737,90 por R$ 627,22); o Planeta La Segreta Bianco (de R$ 242,90 por R$ 182,18); o Planeta La Segreta Rosso (R$ 242,90); o Planeta Rosé Blend Sicilia DOC (R$ 259,90); o Planeta Maroccoli Menfi DOC (R$ 529,90); o Planeta Etna Bianco DOC (de R$ 482,90 por R$ 386,32); e o Planeta Etna Rosso DOC (de R$ 482,90 por R$ 386,32).

