A entrada da nova exposição do Museu da Língua Portuguesa, “Funk: Um grito de ousadia e liberdade”, inaugurada no sábado (15), recebe o visitante com fotografias, quadros, grafites, vídeos e manequins vestidos com jeans largos, croppeds e muitas estampas — códigos visuais que antecedem qualquer explicação textual sobre o gênero. A cenografia lembra que, antes de ser tema de uma mostra, o funk circula do lado de fora da Estação da Luz (onde está localizado o museu, na região central de São Paulo) e faz parte do dia a dia de boa parte da população.
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— Será que a gente está mesmo trazendo o funk para dentro do museu ou ele sempre existiu ao redor? Não temos como falar de funk sem falarmos sobre militância, questões políticas de São Paulo, o movimento negro, a comunidade LGBTQIAPN+ ou até sobre a estética da periferia. Ao longo da exposição, não falamos de nenhuma produtora ou empresário do gênero, justamente porque entendo que o funk é cultura e movimento — explica Renata Prado, curadora da mostra.
Concebida originalmente para o Museu de Arte do Rio (MAR), onde ficou em cartaz por um ano e meio, a curadora precisou adaptar o trabalho que havia sido feito por Taísa Machado, Dom Filó, Amanda Bonan e Marcelo Campos na capital fluminense. Se antes havia um olhar direcionado para o funk carioca, agora, as 473 obras — entre pinturas, fotos e vídeos — investigam o gênero também em São Paulo, da capital paulista ao litoral do estado.
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Em sua primeira curadoria, Renata, que é professora, acadêmica e integrante da Frente Nacional de Mulheres do Funk (coletivo que promove ações sociopolíticas sobre o tema), explica que o gênero se manifesta de diferentes formas em cada local. O funk da Baixada Santista, por exemplo, se assemelha ao carioca em questões linguísticas, do falar com “chiados” às gírias. Já na parte estética, enquanto o gênero no Rio se manifesta com peças calorosas e curtas (bermudas, mini saias, shorts e croppeds), em São Paulo a estética é “mais fria”, com calças e casacos de marcas conhecidas nos anos 2000, como Planet Girls e Cyclone.
— É importante imprimirmos essa estética do funk na mostra. São importantes códigos da cultura funk, como as “umbrellas” (guarda-chuvas) e os tênis de marca, e que a explicam. Também fui provocada a fazer um estudo sobre a linguística do funk ao trazer a exposição para o Museu da Língua Portuguesa. Então, entendemos e mostramos quais são as linguagens do funk, suas gírias, dialetos e como é esse sotaque — diz.
Para além das estéticas paulista e carioca, a exposição também narra a origem do gênero: a Era Black. Conhecida principalmente por seus bailes, entre os anos 1960 e 1980, foi marcada pelo consumo de referências norte-americanas, dos Panteras Negras a grandes nomes da música, como James Brown.
Fotografias de acervos pessoais e de artistas, discos de vinil e vídeos mostram como essa cultura ajudou a moldar o gênero no Brasil, influenciando nomes como Nelson Triunfo e Lady Zu — personificados na exposição em dois manequins a caráter.
— Lady Zu, a diva da disco, e Nelson Triunfo foram importantes figuras para o cenário da música soul em São Paulo. A cena black, da qual Dom Filó (curador da mostra) fez parte no Rio, traz um contato para a memória do funk. Quando essa cena vem para São Paulo, ela vem acompanhada de uma estética, de um conceito político e de um comportamento — explica Renata Prado.
O rap também é retratado na exposição paulista. Segundo a curadora, enquanto o Rio na década de 1990 consolidava principalmente o funk, em São Paulo os dois gêneros se estabeleciam em diferentes regiões da cidade. Posteriormente, nos anos 2000, ambos viram uma miscelânea e originam os estilos conhecidos hoje, com musicalidades semelhantes. É a evidência da origem do funk na matriz cultural urbana e periférica.
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Integrante da Frente Nacional de Mulheres do Funk, a curadora também articula outros olhares para o gênero ao longo da exposição. A ideia é mostrar como o funk se manifesta nos corpos, principalmente periféricos, e trazer obras que retratam o cuidado, o afeto e a parentalidade — pontos que, segundo Renata, nem sempre são associados ao gênero e aos indivíduos que o consomem. É apresentá-lo, em suma, como manifestação cultural e social.
— Há um estigma diante desses corpos, em maioria de crianças, mulheres e homens negros. Então, mostramos a profundidade desse afeto e que ele de fato existe, mas talvez em outras perspectivas. Olhar para o funk pela perspectiva do afeto também mostra que ele é corporal, sensual e amoroso. É o corpo afetuoso, não vulgar. A cultura do funk fala sobre o que (outras partes da sociedade) não querem falar, é o lugar onde pode-se ser o que quiser. Não é à toa que a exposição leva “um grito de ousadia e liberdade” no nome — diz a curadora.
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Esse olhar sobre o afeto entre os corpos aparece na mostra especialmente em editoriais, de moda e estéticos, e em fotografias de bailes funk do início dos anos 2000, como as do francês Vincent Rosenblatt.
Há ainda obras comissionadas. Feitas por artistas contemporâneos, elas retratam cenários ou situações vividas recentemente pelo gênero em São Paulo, como o Massacre de Paraisópolis, de 2019, que deixou nove jovens mortos em uma ação da Polícia Militar (PM).
Onde: Museu da Língua Portuguesa. Praça da Luz, s/n, Centro Histórico. Quando: terça a domingo, das 9h às 16h30. Até agosto de 2026. Preço: R$ 24 (inteira) e R$ 12 (meia), grátis para crianças até sete anos e para todos aos sábados e domingos.

